Minha família sempre morou em uma casa com quintal grande, onde construímos até campo de futebol. Nosso instinto era aventureiro. Quando reunia os amigos da vizinhança, então, sai de baixo. Minha mãe enlouquecia. Fazíamos fundo com a chácara da família Albino, guardada por um pastor-alemão muito bravo.
Como aquela família cultivava banana, sempre na safra ficávamos espertos para conseguir uma penca usando estratégia básica. Um rapaz do grupo ia do outro lado da rua e atraía o cão. Enquanto o animal latia para o importuno, roubávamos a fruta e a colocávamos para amadurecer, cobrindo-a com capim, em um pasto que também dava fundo para a nossa casa, só que era abandonado e ao qual somente nós tínhamos acesso.
Não víamos problema na ação. Incrível isso, porque a nossa mente era de que realizávamos apenas uma aventura radical. Também supúnhamos que ninguém ia perceber nosso feito criminoso, porque era muita banana em uma única área. No entanto, só nós podíamos fazer aquele delito, mais ninguém. Não havia outro vizinho com o mesmo acesso.
Os Albino eram sitiantes e tinham propriedades maiores em outra região da cidade para cultivar frutas, verduras e legumes que vendiam para o Mercadão. Mesmo assim, começamos a perceber nossa falha de estratégia quando a matriarca da família, que ia à igreja com a minha mãe aos domingos, perguntava para ela se as bananas estavam saborosas.
Como assim? Minha mãe nem sabia da nossa aventura e pouco entendia do que se tratava, porque a vizinha era muito polida e discreta. Até que um dia minha mãe nos pegou roubando bananas e fez a relação rapidamente. “Então é isso? Vocês me fazem passar vergonha.” Depois daquele dia, muita coisa mudou em nossa rotina de final de semana. Deixamos de aprontar daquele jeito. Inclusive porque a vizinha passou a ter dois pastores-alemães controlando o quintal e eles parecem até que se revezavam. Enquanto um ia ao portão, o outro ficava muito alerta no fundo, só nos observando em cima do muro.



