A imagem é uma brincadeira, em que Sócrates lê Confissões de Agostinho. Tempo invertido.
Santo Agostinho é muito conhecido por sua obra “Confissões”. É pura literatura e das boas. Ele recorda fases marcantes da sua vida, em especial os seus descaminhos. Foi salvo pela mãe, Monica, que acreditava piamente no Deus cristão e o orientou para a fé. A mesma fé que ela professava, com fervor. Seu exemplo inspirou a Igreja, que a tornou santa.
O maniqueísmo perturbou Santo Agostinho durante muito tempo. Para quem nunca leu a respeito, o maniqueísmo era uma doutrina que via a natureza movimentada por forças boas (Deus) e más (Diabo), como se elas permanecessem em luta permanente. Era uma tese viva no tempo de Agostinho, com forte apelo, mas que distanciava os homens de um único Deus, como no cristianismo.
Foi essa conversão que ele fez: sair das forças maniqueístas para se encontrar com o Deus cristão, orientado pela sua mãe, que ele via como exemplo de fé pura. Muitas vezes eu faço uma analogia com o que Dostoievski dizia do povo eslavo, considerado por ele como povo eleito, pela pureza da alma e pelo fervor religioso sem filtro. Era o caso de Mônica.
Além da vida erradia, Agostinho adiou por tempo sua conversão definitiva ao cristianismo. Preferiu explorar até a última gota o que seus hormônios lhe cobravam, antes de decidir pela fé em Cristo. Da obra, gosto muito de relacionar a tese do padre da Igreja sobre Deus com o que pensava Sócrates.
Para Sócrates, o conhecimento estava dentro de cada pessoa. Por isso a força dos seus diálogos, à base de perguntas. As perguntas aos seus interlocutores eram fundamentais, uma espécie de chave para se chegar a uma resposta que já estava com eles, mas não sabiam como chegar até ela.
Como a verdade emana de Deus, para os cristãos, Santo Agostinho achava que Deus também estava em cada um de nós, bastava apenas encontrá-lo. Ele é a luz que se ilumina no fundo da nossa alma quando nos deparamos com a verdade. Nesse sentido, há uma relação, para mim, muito forte entre Santo Agostinho e Sócrates.
Por isso eu volto sempre à tese que me é sagrada, de que o trio Sócrates, Platão e Aristóteles é a base de toda a filosofia ocidental. Bem como entendo que o cristianismo, como afirmam os grandes filósofos, Christopher Dawson, por exemplo, salvou o Ocidente do fundamentalismo islâmico.
A democracia é filha do cristianismo, no sentido matricial do termo. Isso não quer dizer que as pessoas precisam ser religiosas para entender o que isso significa. Precisam apenas ler os clássicos e Santo Agostinho sem o filtro dos dogmáticos.
Erich Voegelin é um pensador que trata com profundidade essa questão. Ele vê um ponto de altíssima intensidade entre a razão e a religião. Não mistura uma coisa com outra. Mas elas dialogam plenamente, segundo ele, para se chegar a um entendimento mais amplo e profundo sobre a vida humana e a natureza.
A grande ciência não é ateia para Voegelin. Dogmatismo não é a mesma coisa que o dogma da fé, pois este nasce da conversão, como a de Agostinho. O dogma da fé é uma força que balanceia os valores humanos para que não nos percamos nas teses que simplesmente colocam o homem no lugar de Deus, sem sabermos a dimensão de Deus e do homem. O resultado disso é sempre a ideia de um homem/Deus, que nos levam aos grandes ditadores da terra e ao fundamentalismo.




