
Toneladas de sargaço, um tipo de alga acastanhada, têm chegado com maior frequência às praias brasileiras, formando extensos bancos que alteram as condições da zona costeira e podem afetar atividades como turismo e pesca. Pará e Maranhão estão entre os Estados que registraram os maiores volumes nos últimos anos. Apesar do aumento dos encalhes, o País ainda carece de dados sistemáticos sobre a ocorrência, a quantidade e a composição desses organismos, o que dificulta o planejamento de ações de monitoramento, manejo e remoção da biomassa.
Para reunir informações, ampliar o monitoramento do fenômeno e subsidiar ações de conservação e gestão costeira, pesquisadores da USP analisaram registros científicos e notícias publicadas pela imprensa sobre encalhes de sargaço no litoral brasileiro entre 2010 e 2025. Os resultados foram publicados no artigo Encalhes de sargaço no litoral brasileiro: integrando registros científicos e midiáticos para apoiar a conservação e o monitoramento costeiro, na revista Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems.
Segundo o estudo, o sargaço que chega às praias brasileiras é formado principalmente pelas espécies pelágicas Sargassum natans e Sargassum fluitans. Diferentemente das algas que vivem fixadas no fundo do mar, essas espécies permanecem livres e flutuando na superfície do oceano. Elas podem formar grandes concentrações no Atlântico tropical e ser transportadas por correntes marítimas por longas distâncias até alcançar a costa brasileira. O aumento dos encalhes está associado à interação de diferentes fatores oceanográficos e ambientais. Entre eles estão a disponibilidade de nutrientes, as condições de temperatura e salinidade da água e as alterações nos padrões de ventos e correntes, que influenciam tanto o crescimento das algas quanto seu transporte pelo oceano.
Na mídia e na ciência
Os pesquisadores reuniram artigos científicos e reportagens publicadas em meios de comunicação digitais. Os documentos produziram informações diferentes, mas complementares, sobre os encalhes de sargaço no litoral brasileiro. Enquanto a imprensa conseguia registrar rapidamente a ocorrência dos eventos e seus impactos sobre as comunidades costeiras, a pesquisa científica buscava identificar as espécies, quantificar a biomassa e analisar as condições ambientais associadas aos encalhes.
“A imprensa registra aquilo que é mais perceptível para a população: a presença do sargaço, o mau cheiro, os impactos sobre o turismo e a pesca, a limpeza das praias e as dificuldades enfrentadas pelos municípios”, explica Leonardo Capeleto de Andrade, pesquisador de pós-doutorado da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga.
Segundo o pesquisador, essa rapidez permite identificar eventos em diferentes pontos da costa, mas os registros jornalísticos podem apresentar algumas limitações. “É comum, por exemplo, que diferentes tipos de macroalgas sejam chamados genericamente de ‘sargaço’, sem que haja uma identificação precisa das espécies. Também podem faltar informações sobre as condições ambientais do local e sobre a quantidade de biomassa que chegou à praia”, relata.

Além da distribuição geográfica, os pesquisadores também identificaram diferenças importantes na qualidade das informações divulgadas. Todos os trabalhos científicos analisados confirmaram a presença das espécies pelágicas Sargassum natans e Sargassum fluitans, responsáveis pela formação da Grande Faixa de Sargaço do Atlântico. Já as reportagens analisadas classificaram equivocadamente macroalgas bentônicas — que vivem fixadas no fundo marinho — como se fossem sargaço pelágico. Segundo os autores, esse tipo de confusão dificulta a padronização dos registros e pode comprometer a compreensão da dimensão do problema.
Detalhar e aprofundar
Os artigos científicos, por sua vez, seguem procedimentos de coleta, identificação e análise dos dados. Esses estudos podem determinar quais espécies estão presentes, estimar a quantidade de biomassa, localizar os encalhes, estabelecer quando ocorreram e relacionar os eventos a condições ambientais. “Isso torna os dados científicos mais confiáveis para compreender a dimensão e a dinâmica do fenômeno”, afirma Andrade.
A produção científica, entretanto, é mais lenta e menos numerosa. Entre a realização do trabalho de campo e a publicação de um artigo há etapas de coleta de amostras, identificação, análise dos dados e avaliação dos resultados. Assim, um encalhe pode ser noticiado pela imprensa poucos dias depois de ocorrer, enquanto sua documentação científica pode levar meses ou até anos.
Para Andrade, o problema está na ausência de um monitoramento sistemático que permita reunir e comparar essas diferentes fontes de informação. No Brasil, ainda existem lacunas sobre onde, quando e em que quantidade o sargaço chega às praias. A falta de séries históricas abrangentes dificulta a avaliação da evolução dos encalhes e a elaboração de estratégias de monitoramento e manejo.
Nesse contexto, os registros da imprensa podem contribuir para indicar a ocorrência e a distribuição dos eventos, enquanto os estudos científicos fornecem informações mais detalhadas sobre sua composição e magnitude. “Integrar essas informações pode ajudar a construir uma base de dados mais consistente sobre os encalhes de sargaço e acompanhar a evolução do fenômeno ao longo da costa brasileira”, diz Andrade.
Pará: maior número de ocorrências
O Pará teve o principal foco de encalhes de sargaço no Brasil, seguido do Maranhão. Segundo Geison Mesquita, primeiro autor do artigo e também pesquisador de pós-doutorado da FZEA, o principal aspecto que chamou sua atenção foi a falta de conhecimento, monitoramento e divulgação sobre os encalhes de sargaço no Brasil.
Durante sua atuação em Salinópolis, no Pará, ele acompanhou a chegada das algas em 2025 e constatou a dimensão do problema. Um artigo publicado na revista Phycologia estimou em 42,8 mil toneladas a biomassa de sargaço que chegou às praias do município, sendo o primeiro trabalho a quantificar o fenômeno no Brasil por meio de coletas primárias de biomassa e mapeamento aéreo com uso de drones.
Para o pesquisador, os dados mostram que Salinópolis é um dos principais pontos de ocorrência desses eventos no País, embora ainda não seja possível prever quando e em que quantidade o sargaço chegará às praias.
A experiência que teve na região também evidenciou a falta de preparo dos municípios para lidar com grandes volumes de biomassa. Das 42,8 mil toneladas estimadas em 2025, apenas cerca de 4% foram retiradas das praias, mesmo com o reforço do governo do Pará, que disponibilizou mais caminhões para a operação. Foram necessárias, em média, 45 viagens de caminhão por dia, durante 11 dias, para remover a biomassa de sargaço. Segundo o pesquisador, a realização de estimativas, mesmo que preliminares, é fundamental para que os municípios possam se preparar com antecedência e planejar recursos, logística e estratégias de manejo quando ocorrerem novos encalhes.
Matéria-prima para a construção civil
Na USP, pesquisadores investigam formas de incorporar a biomassa do sargaço a soluções construtivas, buscando dar um destino a esse material que atualmente precisa ser retirado das áreas costeiras e, muitas vezes, não tem uma destinação definida. Uma das pesquisas é coordenada pelo professor João Adriano Rossignolo, do Departamento de Engenharia de Biossistemas da FZEA e coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Materiais para Biossistemas (BioSMA). O projeto Valorização do Sargassum para Construção Sustentável: Caracterização, Pré-tratamento e Aplicações em Soluções com Terra reúne duas frentes de pesquisa.
A primeira investiga as características físico-químicas e morfológicas da biomassa e testa diferentes formas de pré-tratamento, como a hornificação — processo utilizado para reduzir a capacidade de absorção de água de fibras vegetais — e a impregnação com polímeros, como o SBR.
O objetivo é avaliar como esses tratamentos podem melhorar a estabilidade da biomassa e seu potencial de uso em materiais de construção. A segunda frente pesquisa a incorporação do sargaço em técnicas de construção com terra, utilizando a biomassa como aditivo natural na produção experimental de blocos de terra comprimida. Os pesquisadores avaliam propriedades físicas e mecânicas dos materiais para verificar como a presença da alga interfere no desempenho dos blocos.
Segundo o professor Rossignolo, a pesquisa ainda está em desenvolvimento e os resultados deverão orientar estudos posteriores sobre o uso do sargaço na construção civil. A proposta é investigar se uma biomassa que chega em grandes quantidades às praias pode ser aproveitada como recurso para materiais construtivos, contribuindo para o desenvolvimento de alternativas mais sustentáveis e adaptadas a regiões costeiras.
Matéria: Ivanir Ferreira | Jornal da USP.








