Saudades de minha terra
Quer ser universal? Ouça cururu num iPhone, degustando cuscuz e pamonha com uma cachaça tipo exportação
Liev Tolstoi, o homem universal que cantava de uma aldeia russa.
“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, teria ditoo Tolstói, citado tantas vezes para justificar bairrismos, provincianismos, ufanismos e outros ismos.
Guardiões da memória da nossa terra, como Cecílio Elias Netto, citam essa frase para falar de seu amor pela “Noiva da Colina” (apelido poético de Piracicaba) sobretudo do grande projeto da sua vida, o jornal “A Província” (hoje, website:
https://www.aprovincia.com.br/
Para quem conhecer mais sobre Piracicaba, sobre sua história e cultura, pessoas e tudo o mais, é uma fonte inesgotável de descobertas). Como diz o nome, é um lugar que parte do olhar provinciano, adjetivo que ali não é pejorativo, com ufanismos e exageros em certos pontos, justificados pelo amor genuíno pela nossa terra em todos os textos, mas um arquivo vivo e pulsante de quem pesquisou e guardou muitas memórias da cidade, sua gente e realizações.
Como explicar esse apego à terra, ao menos no nosso caso, a terra como sinônimo de “cidade”, mas também de “campo”, “área rural”? Que nos leva a uma identidade piracicabana urbana aparentemente contraditória, por ser identificada com o camponês local, o caipira?
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O amor à terra onde se nasceu é muito recente na história humana. Se a espécie humana está na Terra há 1 milhão de anos, somente 1% desse tempo ela está fixada na terra, para cultivá-la. Ou seja, somente há dez mil anos descobrimos as técnicas de plantar sementes, cuidar das plantas que nascem delas, e delas tirar o nosso sustento. Nos outros 990.000 anos, nós fomos coletores, carniceiros (sim), pastores e só depois nos fixamos na terra para plantar.
Só há apego à terra se permanecemos nela, certo? É bastante compreensível que o sentimento de patriotismo tenha se originado desse sentimento de amor ao lugar onde você vive, plantando e cuidando de animais, um ambiente rural por excelência. Ao menos na nossa tradição europeia, que vem da Idade Média. O ambiente rural que conhecemos – campo separado da cidade – é medieval europeu. Pois sim, há outras tradições diferentes pelo mundo, formas diversas de separar ou integrar campo e cidade, como as do mundo antigo – egípcios, mesopotâmicos, gregos – chineses, africanos, sul-americanos, mas é assunto para outro artigo.
Como dizia, o sentimento de patriotismo vem do amor pelos campos. Quem trabalhava com ovelhas, cabras, bois e vacas, tinha muito tempo para olhar a paisagem, cantarolar, brincar com palavras. Não é à toa que as tradições mais antigas contam que poetas – e na Antiguidade não se separava poesia da música - como pastores, como Davi, na Israel bíblica, e Hesíodo na Grécia arcaica. E a beleza dos campos (pays, em francês) inspirou o amor pelo país (é da palavra francesa que vem a nossa palavra “país), por meio dos seus campos, selvagens ou cultivados. E a pureza de princípios e os sentimentos mais autênticos da cultura nacional são associados às pessoas que tem contato direto e cotidiano com a terra cultivada, os camponeses (paysans em francês). A nossa expressão “vestir-se à paisana” tem o sentido original de se vestir como gente do povo, que até certa época era composto por maioria de camponeses. Em tempo: “paisagem” origina-se também de pays, para designar inicialmente o que se contemplava nos campos.
Explica-se, vindo dessa tradição europeia, o nosso costume brasileiro de associarmos a autencidade de caráter, e também cultural, com o sertanejo, o caiçara, o homem do campo, a pessoa do meio rural. No estado de São Paulo, o caipira é o símbolo desse baluarte cultural, dessa fortaleza de onde se defendem os valores mais genuínos dos paulistas.
Como a cidade de Piracicaba é considerada como uma espécie de capital da Caipirolândia – uma expressão que eu inventei (ou penso ter inventado) que designa uma “Terra dos Caipiras”, mas também toda a área cultural interiorana que abrange grandes trechos do Paraná, Goiás, Minas Gerais, todo os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e todo o estado de São Paulo, que alguns autores preferem chamar de Paulistânia – entende-se portanto o nosso apego à identidade caipira, embora tenhamos outro elemento de nossa identidade que parece contraditório a este: um orgulho em ser moderno, de estar na vanguarda de várias realizações técnicas – não por acaso, a maioria ligada à pesquisa agrícola.
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Uma frase que me brotou, quando eu e Romualdo escrevemos o livro “Modernidade Caipira e o Modernismo de 22 em Piracicaba”, resume o sentimento que nos tomou, ao verificar uma cidade que queria estar à frente na educação, ciência e cultura no estado de São Paulo entre 1880 e 1960, mas que ao mesmo tempo se apegava ferrenhamente à sua tradição caipira, ligada aos costumes rurais: “Piracicaba: tradição em ser moderna”.
A frase acabou por ser incorporada ao texto e considero que ela traduz bem um bamboleio cognitivo e uma hesitação sentimental que o piracicabano de cultura média enfrenta, em aderir à modernidade sem deixar sua identidade cultural de lado, forte, carregada de amor pela terra e sua história. Resulta num sentimento quase de culpa, quando adere a alguma modernidade que possa estar “traindo” as tradições, um sentimento que não vem à tona de forma consciente e sempre ronda várias declarações de autoridades e também de artistas e produtores culturais locais.
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Talvez a música sertaneja mais antiga, que hoje preferem chamar de “sertaneja raiz” ou “caipira”, para diferenciá-lá de Gustavos Limas, Brunos & Marrones e Maiaras e Maraísas de hoje, seja a mais perfeita tradução deste aparente indecisão, hesitação ou conflito interno identitário enfrentado pelo piracicabano. A música que chamamos de “raiz” já é de segunda ou terceira geração de músicos caipiras que gravaram discos; os verdadeiros violeiros e músicos de “raiz” nunca gravaram (ocasionalmente, foram registrados em gravações, o que é diferente de criarem um produto para ser gravado) e pertencem ao que chamávamos antigamente de folclore, e hoje, de tradições populares ou cultura popular.
Assim, Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, Tonico e Tinoco etc., embora mais próximos da tradição popular do que nós atualmente, já embalavam suas músicas em faixas de 3 a 4 minutos, e gravavam ritmos que vinham de outras regiões do Brasil, e não só da Paulistânia.
Mas o que quero mesmo comentar é que muitas músicas destas primeiras gerações de músicos caipiras “raiz”, falavam justamente de uma época de êxodo rural, na qual o homem saía do campo e vinha trabalhar nas cidades. E da saudade, da nostalgia, dos tempos em que vivia na zona rural. Não por acaso, as obras mais conhecidas de Tales Castanho de Andrade, “Saudade” e “Campo e Cidade” falam da vida de pessoas que estavam nesta transição entre os dois ambientes.
Muitas letras tem como assunto a rememoração de como era a vida no campo, e um lamento pela impossibilidade de se voltar. Muita gente ainda hoje associa a tristeza dessas músicas com o próprio gênero musical da música “raiz”.
“Velho Candieiro” (Recordo e tenho saudade / Daquele tempo que foi / Recordo meu velho pai / Tocando o carro de boi), “Tristeza do Jeca” (Eu nasci naquela serra / Num ranchinho beira-chão / Todo cheio de buracos / Onde a lua faz clarão), “Mágoa de Boiadeiro” (Antigamente nem em sonho existia / Tantas pontes sobre os rios / Nem asfalto nas estradas / A gente usava quatro ou cinco sinueiros / Pra trazer o pantaneiro no rodeio da boiada) e “Saudades da Minha Terra”, de autoria de Goiá - Gerson Coutinho da Silva e Belmonte - Paschoal Todarelli:
De que me adianta viver na cidade
Se a felicidade não me acompanhar?Adeus, paulistinha do meu coração
Lá pro meu sertão, eu quero voltar
Ver a madrugada, quando a passarada
Fazendo alvorada, começa a cantar
Com satisfação, arreio o burrão
Cortando estradão, saio a galopar
E vou escutando o gado berrando
Sabía cantando no jequitibá
O piracicabano que pende mais para o lado do caipira e menos da modernidade, ao ouvir letras como esta, concilia, ao menos esteticamente, a saudade de um tempo idealizado com a satisfação de, ao ouvir, cantar ou até tocar na viola canções como estas, movimentar-se para fazer algo que na nossa cultura, é visto como positivo: manter viva uma tradição, preservar a identidade de nossa terra. Mesmo que esteja ouvindo a música num headphone num celular hipermoderno, no qual a música chega via dados móveis, num aplicativo pela internet, graças a satélites e cabos de fibra ótica, toda uma estrutura tecnológica de última geração.





