Grupo da Unicamp descobre obra perdida de Mira Schendel
Pesquisa no Museu de Arte Contemporânea de Campinas (Macc) traz à tona preciosidades de artistas brasileiros

Oano é 1967 e a artista plástica Mira Schendel (1919–1988) envia um trabalho ao Salão de Arte Contemporânea de Campinas. Premiada, a obra no formato “objeto gráfico” passou a integrar a reserva técnica do Museu de Arte Contemporânea de Campinas (Macc), que recebia os salões. Em 2025, ao preparar a exposição “Nada como um dia depois de outro”, que reuniu os acervos do museu campineiro e do Museu de Artes Visuais (MAV) da Unicamp, um grupo de pesquisadores da Universidade “descobriu” a obra, fora do radar dos especialistas e até mesmo da família da artista.
“É curioso o desconhecimento sobre essa obra. A gente tem esse tesouro em Campinas e ninguém sabia”, diz Gabriel Zacarias, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Diretor do MAV, ele coordenou, juntamente com as pesquisadoras da Unicamp e curadoras-adjuntas Gabrieli Simões, Laura Manganote e Nerian Teixeira de Macedo de Lima, o projeto da exposição, que celebrou seis décadas do Macc e abriu a agenda de comemorações dos 60 anos da Universidade, em novembro do ano passado.
Esta é uma peça de alto valor no mercado, mas o valor histórico é ainda maior”, afirma o professor. Em dezembro do ano passado, o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba) adquiriu um objeto gráfico da artista por US$ 2,5 milhões. Schendel, que nasceu na Suíça, veio para o Brasil em 1949, onde viveu e produziu sua obra, dialogando com a poesia concreta, o neoconcretismo e as experimentações artísticas das décadas de 1960 e 1970. Um ano depois do Salão em Campinas, participou como representante do Brasil da Bienal de Veneza, uma das mais importantes mostras de arte do mundo, apresentando 12 de seus objetos gráficos.
Zacarias conta que a Unicamp já tinha um histórico de pesquisas sobre o acervo do Macc. “Buscamos os catálogos dos Salões de Arte Contemporânea de Campinas, que foram realizados entre 1965 a 1977 e nos anos 1980 em uma tentativa de retomada, com duas edições. Digitalizamos e organizamos o material para fazer uma listagem de todas as premiações. Ao olhar para esses salões, encontramos uma história muito rica, que hoje é até surpreendente, porque a gente reconhece a presença de alguns dos maiores nomes da arte brasileira do período, que naquele momento ainda eram artistas iniciantes”, explica.
Foi a partir desse levantamento que o nome de Schendel apareceu. “Começamos a procurar na reserva técnica e nem sempre o que estava na listagem batia com o que a gente encontrava. E nem tudo estava em bom estado de conservação. Estamos falando de obras que foram incorporadas à reserva há quatro ou cinco décadas e que quase não saíram desse lugar desde então”, afirma o professor. “Entendemos que a obra de Schendel era uma aquisição desse período. Decidimos expor a obra mesmo sem ter todos os elementos fechados. Já havia indícios razoáveis: a datação e o fato de ter entrado como prêmio de aquisição”, completa.

O professor convidou a família da artista, que vive em São Paulo, para conferir a exposição. “É claro que ficamos emocionados. Cai do céu um trabalho que estava esquecido. Nós sabíamos da existência dessa obra, mas não que estava em um museu em Campinas. Nesse sentido, foi um achado: muita gente já pesquisou sobre os objetos gráficos e esse escapou”, conta Ada Schendel, única filha da artista e responsável por seu acervo, que hoje reúne mais de 2.000 trabalhos.
“Como arquivo, nós tentamos mapear todos os objetos gráficos. Após a Bienal de Veneza, eles ficaram em Oslo, na Noruega, na coleção particular de Konrad Gromholt, galerista de Mira na época e que, posteriormente, doou parte do acervo para museus e instituições. Só nos anos 2000 eu consegui resgatá-los e alguns foram redistribuídos para museus do mundo”, continua a filha da artista.
Para ela, o ideal é que a obra encontrada no Macc possa ser exposta em um “contexto adequado”. “É preciso dar visibilidade, não faz sentido ficar na casa de ninguém.”
Curadora da Pinacoteca de São Paulo por 12 anos e cocuradora de uma retrospectiva de Schendel que apresentou 270 trabalhos seus no museu-galeria Tate Modern (Londres), em 2013, a professora do IFCH Taisa Palhares considera a descoberta da obra em Campinas uma “surpresa”. Nem sequer uma reprodução do trabalho já tinha sido vista, diz ela, que costuma ministrar cursos e palestras sobre a artista.
Para Palhares, é preciso discutir o destino desse achado. “Merece ficar em exposição, mas é uma obra que demanda luminosidade, temperatura e segurança. Será triste se o trabalho voltar para a reserva técnica”, comenta. “É uma obra de uma das séries mais importantes da artista e tem um valor histórico imenso”, completa a professora, que trouxe a mostra retrospectiva da Tate para a Pinacoteca em 2014, após um período de itinerância pela Europa.
O lado atrás e o outro mundo
Em seus objetos gráficos, Schendel criava em folhas de papel artesanal, que eram presas por duas lâminas de acrílico. A própria artista, em um de seus diários, escreveu que sua intenção era “uma tentativa de mostrar que ‘o lado atrás’ da transparência está na sua frente e que ‘o outro mundo’ é Este”. A obra encontrada no Macc foi posicionada logo na entrada da exposição, suspensa. “O trabalho permite que o público circule ao redor e veja através, percebendo as camadas sobrepostas”, diz Zacarias.
O diretor do MAV observa que o trabalho tem uma mancha de umidade, o que seria previsível. “O ‘sanduíche de acrílico’ não deixa o papel respirar. Muitos trabalhos desse período têm problemas semelhantes. Para dar um exemplo, durante a preparação da exposição, eu fiz uma visita ao MoMA [Museu de Arte Moderna de Nova York], que estava expondo um objeto gráfico dela. Nele havia uma mancha semelhante. Se o MoMA está expondo, nós também podemos expor, pensei.”
O professor conta que a obra guardada no Macc não era retirada da reserva havia muito tempo. “É uma peça pesada, que estava guardada numa estante. Quando vi um sanduíche de acrílico, já sabia o que era. O catálogo indicava a participação no salão e dizia que tinha sido premiada. A reprodução no catálogo não é idêntica a essa obra, o que é curioso”, completa.
Trabalho de detetive
Com 140 obras, a exposição “Nada como um dia depois de outro”, cujo título vem de uma obra de Cildo Meireles, demandou muita investigação. “Não se tratava apenas de promover um encontro entre coleções, mas de compreender como esses acervos se constituíram. O Macc abriu seu acervo para nós, e fomos bem recebidos. Nas nossas buscas, contamos, sobretudo, com o apoio da Juliana Vieira, conservadora do museu”, conta Zacarias.
Entre os achados significativos que foram resgatados do acervo, estão três obras da série Movimento estudantil 68, do artista Antonio Manuel, do Rio de Janeiro, todas apresentadas no salão campineiro de 1968. O autor fez questão de vir a Campinas para rever seu trabalho, tantos anos depois. “Agradeço por essa oportunidade que os pesquisadores trouxeram. Nunca me esqueci desses trabalhos, que marcaram o início da minha carreira e representam a força cultural daquele momento”, disse. “Rever essas obras, tantos anos depois, resgatadas de um acervo escondido, foi uma forte emoção.”
Na época, Manuel fazia intervenções artísticas em flans (placas de impressão de jornais) que recolhia de madrugada, no Rio de Janeiro, para criar suas próprias “notícias”. A série Flans, que começou em 1968 e seguiu até 1975, hoje integra acervos internacionais importantes, como o da Tate Modern.
“O trabalho redescoberto no acervo é uma denúncia contundente da repressão ao movimento estudantil às vésperas do AI-5. Além de representar um achado relevante para a história da arte brasileira, trata-se de uma obra politicamente forte, que articula estética e resistência”, destaca Zacarias.
A análise dos catálogos dos Salões de Arte Contemporânea de Campinas foi fundamental nesse trabalho “de detetive”. A equipe digitalizou e organizou todos os catálogos para levantar as premiações concedidas ao longo dos anos. O museu foi criado, em parte, por uma demanda do Grupo Vanguarda, de Campinas, que reunia nomes como Bernardo Caro, professor da Unicamp e figura central na formação do acervo universitário, Mário Bueno, Thomaz Perina e Geraldo de Souza, entre outros. Seu acervo inicial foi formado com obras premiadas nesses salões. “Compreender os salões era fundamental para entender a formação do acervo”, afirma Zacarias.
A artista Carmela Gross, de São Paulo, que participou do Salão em 1968, aproveitou a ocasião para rever sua pintura A Montanha. “É um trabalho de uma artista iniciante. Os salões eram uma porta aberta para nós, e passar na avaliação dos críticos era muito importante”, lembra. Para ela, a revisão do acervo resultou em uma mostra que serve para “tomar consciência da própria história”.
Além da pintura recuperada da artista, esteve presente na mostra encerrada em fevereiro seu videotexto Fontes Luminosas (1983), que integrou a exposição “Arte e videotexto” na 17ª edição da Bienal Internacional de São Paulo. Gross, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) por mais de 40 anos, possui uma destacada carreira, com obras que exploram o desenho, a gravura, instalações luminosas e intervenções urbanas, focando na relação entre arte, cidade e política.
O formato convencional de salão, que previa a abertura de edital, envio de obras, seleção por júri e posterior premiação, mudou em 1975: em vez de uma chamada pública, os curadores convidaram 12 artistas para participar. Eles não deveriam enviar trabalhos para uma exposição, mas comparecer para debater seus trabalhos com o público. No lugar das obras físicas, cada um apresentou 40 diapositivos (slides) documentando sua produção. Esse conjunto foi doado ao museu para formar um centro de documentação de arte contemporânea no interior paulista. “A iniciativa transformou o salão em um espaço de debate e reflexão em plena ditadura militar”, destaca o professor.
Entre os artistas convidados, estava novamente Schendel. Parte desse material é mencionada em estudos e exposições sobre a artista, mas os diapositivos originais estavam esquecidos. A equipe da Unicamp localizou as caixas de slides, organizadas com os nomes dos artistas, e fez a digitalização integral desse acervo. “O conteúdo foi salvaguardado. Os slides, frágeis e suscetíveis a perdas, agora compõem um banco de dados que poderá subsidiar futuras pesquisas”, completa Zacarias.
Após a exposição, o professor destaca o papel institucional que hoje cabe à Unicamp. Ao revisitar a história do Macc, vê-se que o museu, no passado, cumpriu a função de articular a produção artística local com o cenário nacional. Atualmente, segundo ele, quem desempenha esse papel é a própria Universidade. “É a Unicamp que, por meio de seus cursos, professores, artistas residentes e exposições, conecta Campinas ao debate artístico contemporâneo mais amplo. Um exemplo é a artista Vânia Mignone, formada na Universidade e hoje reconhecida internacionalmente, cuja obra integra a mostra”, ressalta.

MAV prepara inauguração de sede
O Museu de Artes Visuais (MAV) da Unicamp terá, em breve, espaço próprio no campus de Barão Geraldo, com galeria e reserva técnica. As obras do prédio, que vai ocupar o antigo edifício do banco Santander, ao lado do Ciclo Básico, foram contratadas no final de dezembro e já começaram. Ainda não há previsão de inauguração, mas o acervo de cerca de 1.400 peças está preparado para ocupar sua nova casa. Zacarias, diretor do MAV desde março de 2024, ressalta que a escolha do local e dos projetos arquitetônico e executivo começou na gestão anterior, com Sylvia Furegatti, hoje pró-reitora de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec).
Entre os destaques da coleção está uma série de 40 trabalhos de Geraldo de Barros, que o diretor do museu pretende tornar objeto de estudo. “É uma das grandes joias da coleção e merece uma pesquisa, capaz de recuperar a história das obras e sua importância no contexto do concretismo brasileiro”, afirma. “Parte dessa série foi realizada para a Bienal de Veneza, o que demonstra seu prestígio internacional. A doação dessas obras à Unicamp, por si só, já justificaria a existência de um museu estruturado na Universidade.”
A maior coleção monográfica do MAV, com cerca de 300 obras, é dedicada a Anatol Wladyslaw, artista de origem polonesa radicado no Brasil. “É um conjunto expressivo e singular de um nome importante do concretismo paulista, ligado ao Grupo Ruptura, tradicionalmente associado à abstração geométrica rigorosa. No entanto, o acervo da Unicamp revela um artista muito mais diverso”, comenta o professor.
Lasar Segall, que manteve relação histórica com Campinas, é outro nome relevante, além de doações recentes, como obras da artista de origem húngara Yolanda Mohalyi, que teve vínculos com Segall e lecionou para Wladyslaw. Outro destaque é Maria Bonomi, artista de expressivo reconhecimento, inclusive com presença recente na Bienal de Veneza.
Uma artista imigrante
Mira Schendel, nascida Myrrha Dagmar Dub em Zurique, na Suíça, em 1919, viveu boa parte da juventude em Milão, na Itália, onde estudou filosofia e arte. Ao fugir da perseguição nazista na Segunda Guerra Mundial, em virtude de sua origem judaica, foi obrigada a abandonar os estudos e se refugiou em Sarajevo, na então Iugoslávia.
Imigrou para o Brasil em 1949 e se estabeleceu inicialmente em Porto Alegre (RS), trabalhando com pintura e cerâmica. Em 1953, mudou-se para São Paulo, onde conheceu o livreiro alemão Knut Schendel e se casou, adotando o sobrenome Schendel. Morreu aos 69 anos, em 1988, de câncer no pulmão.
Matéria: Daniela Prandi | Fotos: Antonio Scarpinetti | Jornal da Unicamp.




