Se eu tivesse uma Brasília amarela
Se ao menos Alexandre fosse de Morais, com i, poderíamos brincar com o significado da palavra
Quem acompanha o noticiário se estafa com Brasília. Se ao menos a capital fosse o carrinho dos Mamonas, a diversão estaria garantida. Mas Brasília do Planalto Central é incantável, mesmo em forma de chacotas e sacanagens adolescentes. Mesmo para detonar políticos sem virtudes que lá imperam. Boa parte do Legislativo, Executivo e Judiciário.
Afinal, você sabe como colocar um Alexandre Moraes em uma Brasília Amarela? Sem algema, ele é muito espaçoso e não cabe. Com algema, ele entra até em viatura da Polícia Federal. Toffoli, por sua vez, só entra no carro se for uma viagem para o resort Tayayá, a não ser que alguém tire dele a capa do Supremo.
Se ao menos Alexandre fosse de Morais, com i, poderíamos brincar com o significado da palavra. Ele seria assim uma espécie de vilão da linguagem, cercado de uma variedade de moral, com significados paralelos e oportunos.
Durante o dia, seria o ministro, sisudo e severo com os acusados que chegam às suas mãos, distribuindo sentenças duras e prisão na certa. À noite, ele seria o sinistro, com mãos de larápio e mulher de bons contratos. Se fosse Morais, teria o direito de escolha entre exterminar políticos adversários a prender um banqueiro do PCC, uma escolha de moral incerta e dúbia, como a dele, a oscilar conforme o astral do momento e as ambições políticas-monetárias.
PCC para Morais seria PIX na Conta Corrente. Tudo resolvido com um WhatsApp de leitura única. Fácil, fácil. Imagem que ele contornaria punindo com raiva suas vítimas. Mas o chato é que o sobrenome do imoral é Moraes, com e. Aí estraga a piada e volta-se à sisudez de um falsário adestrado e vitalício. Intocável como um ouriço.
Então, a gente perde a graça até para escrever delinquências, mesmo com a liberdade de um observador que acordou no domingo e tomou um café completo (café, leite, pão, bolo de chocolate e banana), viu no dia anterior o XV de Piracicaba golear o Votuporanguense e se classificar para a próxima fase da Série B do Paulistão, e levou a cachorra passear ao sol matinal.
Ser poeta não é meu forte. Começo a escrever e só me vem indecências à cabeça. Lembro de Brasília, tão perto do crime e tão longe de Deus. Sinto vontade de ver um Moraes com uma coleira. Por falar em coleira, Lulinha tem um Lulão, que liga para o pai e consegue R$ 700 mil na conta e na hora, em PIX ou não.
Sorte que fui ao mercado para salvar o dia e comprei uma dúzia de bananas amarelinhas, em homenagem ao Novorizontino, e um pé de alface, em homenagem ao Palmeiras. Aguardo agora a revanche. Não faço chacota com os times, que vão brilhar no gramado, certamente. Se eu pudesse, pegaria minha Brasília amarela e iria ao Jorge Ismael de Biasi (nome do campo do time da cidade onde será a final do campeonato paulista), ouvindo os Mamonas e curtindo adoidado, mesmo pensando que eu estaria em direção a Brasília, aquela, dos Imorais.




