Um pintor moderno, porém esquecido
Helios Seelinger foi ofuscado por outros nomes do modernismo paulista
Você provavelmente já ouviu falar de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e outros modernistas brasileiros, mas ainda não de Helios Seelinger. Apesar de pouco conhecido, o pintor foi considerado moderno e até revolucionário em seu tempo. O escritor e crítico Monteiro Lobato, por exemplo, afirmou em 1917 que a produção artística de Seelinger mereceria “um capítulo em separado na história da pintura brasileira”. Já o poeta Oswald de Andrade, no mesmo ano, apontou que o artista era responsável por uma “brusca revolução em nossa arte.”
As avaliações sobre o artista são trazidas na tese de João Victor Brancato, defendida no Departamento de História da Unicamp. Na pesquisa, orientada pelo professor da Unicamp Jorge Sidney Coli Junior, o historiador explora a trajetória de Seelinger, buscando entender os motivos da valorização de apenas alguns nomes do modernismo brasileiro em detrimento de outros. “Eu queria entender por que artistas considerados modernos no início do século 20, fora do grupo modernista, foram tão pouco comentados, estudados e conhecidos”, explica.

Esse interesse começou n mestrado, momento em que Brancato estudou a crítica de Adalberto Mattos, voltada aos artistas ligados à carioca Escola Nacional de Belas Artes (hoje Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Esse grupo, destaca, também era famoso e conhecido na época, mas seus membros, dentre os quais Seelinger, não são tão lembrados quanto os modernistas paulistas. “Passada a Semana de Arte Moderna [ocorrida em 1922 em São Paulo], o movimento modernista se consolida com força tamanha que parece que ali era o início de tudo, o cânone, e esses outros artistas foram esquecidos”, diz.
Orientador da tese, Coli, do Departamento de História da Unicamp, foi um precursor na retomada do estudo desses artistas e intelectuais menosprezados. “Uma maneira muito ruim de se fazer história é fazer a história dos heróis. Ora, a história da arte brasileira é uma história dos heróis, uma história dos grandes nomes — Tarsila [do Amaral], Di Cavalcanti, [Candido] Portinari etc. Mas não conseguimos compreender o que são de fato esses artistas se não recompusermos um tecido da produção pictórica e artística do tempo deles. O que o João fez foi isso: ao estudar o Seelinger, teve de pensar de maneira crítica a noção de modernidade.”
Brancato mostra que havia uma pluralidade de experiências modernas. Porém, prevaleceram na história aquelas ligadas ao grupo de modernistas paulistas. Um dos motivos do apagamento de determinados atores da época, segundo Coli, é o fato de a própria disciplina de história da arte ser recente no país. “A história da arte no Brasil, do ponto de vista acadêmico, é muito recente. Começou em 1989 na Unicamp” (leia nas páginas 6 e 7).
De ‘pintor de ideias’ a funcionário de museu
O percurso de Seelinger, conforme o autor da pesquisa evidencia, envolve estudos na Europa, vivências em cidades diferentes do Brasil e uma multiplicidade de formatos e de expressões, como quadros, ilustrações e murais. Também abarca fases diferentes, que vão desde a sua obsessão por pintar figuras mitológicas até uma arte voltada aos temas nacionais.
O artista nasceu em 1878 no Rio de Janeiro, e no início da carreira foi a Munique, na Alemanha, onde se aproximou da Secession, movimento germânico que visava romper com as convenções artísticas locais. Depois, morou por quase uma década em Paris, firmando o seu interesse pelo simbolismo. “A produção de Helios no início do século 20 foi fortemente relacionada a essas correntes”, observa Brancato.

Nesse período, eram comuns na produção do artista desde pinturas com temáticas diabólicas, que o associavam ao satanismo e ao decadentismo, até obras mais idealistas, conta o autor do estudo. “Artistas como Helios desejavam representar outro mundo frente a uma realidade cada vez mais racional e moderna, distanciando-se da descrição da realidade”, explica.
Por essas razões, o artista foi frequentemente tachado de “bizarro” no cenário brasileiro. “É o mais original dos nossos pintores. É pintor de ideias, bizarro, senhor de um colorido vivo e fremente, fascinante. É o artista do Sonho e da Vida, que conseguiu fundir a Realidade ao Fantástico, o Vulgar ao Assombroso”, escreveu o jornalista Carlos Maul na Gazeta de Notícias em 1912, destaca o historiador na tese.
A partir dos anos 1920, tem início uma nova fase na obra do pintor, segundo o historiador, associada ao momento político e cultural brasileiro. Depois da Primeira Guerra Mundial e, sobretudo, com a Era Vargas, há a intenção de fortalecer uma identidade nacional por parte do Estado, e os artistas abraçam o espírito do momento. “Helios começa a representar a história do Brasil, a pintar o folclore, o carnaval e o samba, exatamente no mesmo momento em que os modernistas estão focados em temas nacionais. Tudo gira em torno de uma nova concepção cultural, não restrita ao modernismo, como se vê claramente nessa mudança de sua arte.”
No entanto, com a predominância do modernismo paulista no cenário nacional, a modernidade anteriormente reconhecida em Seelinger foi gradualmente apagada por aquele grupo, que exigia experimentações mais radicais. A garantia de grandes trabalhos artísticos tornou-se então cada vez mais difícil para ele, e para compensar os problemas financeiros Seelinger acabou se tornando funcionário do Museu Nacional de Belas Artes em 1939.

Arquivo resgatado
Helios Seelinger documentava todas as suas exposições, guardava cartas trocadas com outros artistas, escrevia legendas e comentários em fotos. Esse acervo, conta Brancato, nunca havia sido estudado a fundo. Como reflete em sua pesquisa, “o relativo esquecimento sobre o arquivo na História da Arte ao longo da segunda metade do século 20 reverbera o silêncio sobre o próprio artista”.
“Toda sua trajetória foi arquivada. Quando ele morre, em 1965, críticos dizem que o arquivo era importante e deveria ser doado para o Estado, mas isso não aconteceu”, complementa. Brancato localizou o material com a neta do artista, Heloísa Seelinger, que o autorizou a investigá-lo. Juntos, eles também conversaram sobre a preservação do acervo e, por intermédio da pesquisa do historiador, a família doou parte do arquivo para a Pinacoteca de São Paulo, constituindo o Fundo Helios Seelinger.
“Esse é um mérito tão grande quanto a tese, porque agora isso está preservado numa instituição. É um material vastíssimo”, ressalta o historiador, que organizou um inventário do arquivo, disponível no repositório de dados da Unicamp.
Matéria: Liana Coll | Jornal da Unicamp



