Segunda Navegação
Como Platão navegou do porto de origem da inteligência, e chegou mais longe que pensava ser possível
Até o período clássico grego, de Sócrates e Platão, os pensadores não haviam se atentado ainda sobre o mecanismo do pensar. Como a razão (logos) opera quando está refletindo sobre algo? Pensar o pensamento. É isso.
No período anterior, os pensadores dominados de pré-socrático ou fisicistas eram imaginativos, mas buscavam ideias para explicar a origem do ser e do mundo na observação da natureza (physis). Eram ideias sofisticadas, que contribuíram em muito para a ciência moderna, inclusive.
Tales de Mileto achava que a água era a essência de todas as coisas. Para Anaximandro, existia uma espécie de matéria infinita (ápeiron). Anaxímenes apostava no ar, por causa da nossa respiração (sopro divino). Heráclito, o pai da mobilidade e da dialética, se encantou com o fogo, com a fluidez. Para Pitágoras, os números estruturavam a natureza.
Platão entendia profundamente todos eles, mesmo assim não se sentia satisfeito. Seu plano era desenvolver um mecanismo para explicar primeiro como pensamos, para fazer mais sentido o pensamento sobre as coisas externas a nós.
Ele conta em Fédon (ou Da Alma) que, “Numa certa ocasião, fiquei sabendo de alguém que lera num livro, segundo ele de autoria de Anaxágoras, que é a inteligência que estabelece a ordem de todas as coisas e as causas. Vi-me satisfeito com essa causa e a mim pareceu algo acertado ser a inteligência a causa de todas as coisas. Refleti que, sendo desse modo, a inteligência ordenadora ordenaria tudo e organizaria cada coisa do melhor modo que lhe conviria” (Edipro, 2ª ed. 2015. pag. 245).
Supôs então que deveria se aprofundar mais nas teorias de Anaxágoras, porque ali estaria seu ponto de partida. Vai especulando assim tudo o que o mestre poderia lhe trazer de útil para ele entender melhor como funciona o logos. “O apreço em que tinha minha esperança era imenso e me aferrei aos livros (de Anaxágoras) com extrema ansiedade, lendo-os o mais rápido que pude, para que me inteirasse com a maior brevidade possível acerca do melhor e do pior” (idem. pg.246).
Só que ele se decepcionou totalmente com o que aprendeu, pois as explicações do mestre estavam presas em movimento físicos, mecânicos e não em inteligência e dialética. “... e à medida que avancei em minha leitura percebi que o homem não se serviu da inteligência e não apontou quaisquer causas para a ordenação das coisas, limitando-se a mencionar como causa o ar, o éter, a água e muitas outras coisas” (idem. pg. 246).
A referência para ele era de um homem pensante, como Sócrates, seu professor, e não de uma estrutura composta de ossos e músculos, mas de alma que opera de tal forma (ainda desconhecida) para encontra sentido nas coisas. Esta resposta, no entanto, ele não encontrou e chegou ao ponto de assumir a responsabilidade de que ele mesmo deveria propor um caminho, que ele chamou de Segunda Navegação.
Segunda Navegação, porque ele teria avançado para certo nível de um oceano complexo e turbulento (metáfora) que os instrumentos de navegação existentes não faziam mais sentido e competiria a ele mesmo, com sua inteligência, cria-los.
“Após essa fase”, ele disse, “tendo eu renunciado a investigar as coisas existentes, ponderei que era necessário acautelar-me para não padecer a experiência dos que contemplam o sol e o observam durante o eclipse. De fato, algumas pessoas destroem os olhos a menos que observem a imagem do sol nas águas ou na superfície de algum outro material desse tipo. Pensei em algo semelhante a isso e receei que minha alma fosse cegada se eu olhasse as coisas com meus olhos e tentasse apreendê-las mediante qualquer um dos meus sentidos. Decidi que deveria refugiar no discurso racional e sondar a verdade das coisas existentes recorrendo à discussão”.
Na sequência ele faz ponderações sobre a grandeza da observação direta, que acaba sendo um caminho natural para todos os pensadores. Mas sua busca estava mirando o eterno, as coisas que modelam a natureza e não mudam, ao se alcançar essas formas puras, o entendimento do mundo real, segundo ele, se tornaria muito mais fácil, seguro e convincente. Ele inverte a lógica como a conhecemos. A verdade está além do que supomos conhecer. O que conhecemos de fato geram apenas dúvidas.
Para quem já estudou este conteúdo, sabe que Platão estava se aproveitando do pensamento de dois grandes pensadores da geração anterior à dele: Heráclito e Parmênides. O primeiro dizia que tudo era movimento. O segundo, que havia uma imobilidade dando sentido à natureza, mas o que víamos era a aparência, que nos engana. Parmênides cita como exemplo a lua e suas variações (cheia, nova, minguante, crescente, não necessariamente nesta ordem). Ele afirmava que a lua era única e que as variações não existiam de fato e confundiam os nossos sentidos.
Na forma, Platão sintetizou Parmênides e na observação direta da natureza pelos sentidos, ele sintetizou Heráclito. O entendimento estaria na dialética para se encontra a forma, num processo de elevação. Alcançada a forma, o sentido não ficaria perdido no movimento incessante da natureza e teríamos como observar a coisas com mais clareza, porque teríamos o absoluto como referência.
Foi assim que ele desenvolveu a teoria do belo, bom e verdadeiro. A perfeição seria o exemplo para se mensurar o que existe, o que percebemos, para que o sentido não nos confunda e tenhamos entendimentos errados, vitimados pelo nosso olhar direto das coisas (lembre-se da lagoa, acima).
Paremos por aqui, para o papo não ficar muito longo e daremos sequência na próxima edição deste Revista de Domingo. Até!




