Semana Santa: conheça o Passo da Paixão do Senhor do Horto, em Piracicaba
Único dos Passos da Via Sacra de Piracicaba do século XIX preservado como capela
O Passo do Senhor do Horto “São Vicente de Paulo”, situado na rua Prudente de Moraes, 804 (ao lado do Banco Safra) em Piracicaba, é um dos raríssimos remanescentes deste tipo de construção, colonial ou do Brasil-Império, no estado de São Paulo. O único outro Passo da Paixão de Cristo preservado deste período está na Capela de São Gonçalo, hoje parte do Museu de Arte Sacra da cidade de São Sebastião.
Antes do restauro de 2013/2014, o Passo abria na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. Após o restauro, assumiu-se o compromisso de abri-la todas as sextas-feiras, mas depois da pandemia de 2020 passou a ser aberto somente durante a Semana Santa.
Erguido em 1873, era um dos três passos permanentes, dos doze que eram colocados à mostra durante a Semana Santa, a partir do Domingo de Ramos. Fora o da rua Prudente, um dos outros dois estava na rua Treze de Maio, que foi demolido com o outro cuja localização desconhecemos. Os outros nove eram efêmeros, montados às janelas das casas. Restou, portanto, somente este de Miguelzinho Dutra. A procissão da Via Sacra passava por cada um dos Passos, que em Piracicaba, por motivo ignorado, não eram catorze, como é tradicional, e sim, doze.

A Via Sacra, o Sacro Monte e exemplos famosos
O nome, “Passos da Paixão”, refere-se a cada estação (etapa) em que Jesus, e também os fieis, caminham, desde a Última Ceia, prisão no Jardim das Oliveiras ou condenação à morte por Pilatos, até o Seu sepultamento.
A Via Sacra surgiu pouco antes das Cruzadas, no século XI . Tendo os muçulmanos fechado os Lugares Santos em Jerusalém para os peregrinos, surgiu o costume de se fazer gravuras ou quadros pintados, com as estações da Paixão, que eram penduradas nas igrejas europeias. Devia-se percorrer toda a igreja em oração, contemplando-se estas figuras. Era uma forma de compensar a impossibilidade de se fazer o percurso da Paixão na própria Jerusalém.
Somente no século XVI fixou-se em 14 o número das estações, e desde então tem sido recomendada esta devoção por vários papas. João Paulo II sugeriu a inclusão de uma 15.a estação, a da Ressurreição de Jesus.
Houve o costume, além das pinturas da Via Sacra, de se fazer as figuras esculpidas, em tamanho natural, de cada estação, acondicionadas em capelas, construídas ao longo de um monte. A ideia é que o fiel “peregrinasse” subindo um lugar alto, com o propósito de se elevar ao céu, aproximando-se de Deus, através dos Passos de Jesus. Esta forma particular de devoção da Via Sacra chama-se “Sacro Monte” (Monte Sagrado), e há vários exemplos na Europa, como os passos do Sacro Monte de Varallo, o Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal, e o mais famoso do Brasil, que é o do Santuário de Bom Jesus dos Matosinhos, em Congonhas, MG.
Os Passos da Paixão, executados por Aleijadinho e seu ateliê, na cidade de Congonhas, MG, tiveram o entalhamento terminado em 1799, mas a construção das capelas, carnação e estofamento (pintura) das esculturas, foram feitas ao longo do século XIX e concluídas somente em 1875. Há ali um total de 66 estátuas esculpidas em madeira, as mais antigas pintadas por Mestre Ataíde, distribuídas em seis capelas, que ficam permanentemente expostas à visitação pública.
Na cidade histórica de Ouro Preto, há cinco capelas com os Passos. Outras cidades mineiras, como São João del Rei, Conceição da Barra de Minas, Prado, Barbacena, Tiradentes e muitas outras, também possuem passos, que dependendo da cidade, somente são abertas na Semana Santa, outras, abertas durante a Quaresma. Em Minas Gerais essas capelinhas também são conhecidas como capelas-passos e passinhos.
O Passo de Piracicaba
O Passo representa Jesus em seu momento de agonia no Horto das Oliveiras, em vigília antes de sua prisão. Por isso o nome “Passo do Senhor do Horto”. Não sabemos porque da denominação oficial “Passo da Via Sacra São Vicente de Paulo”, com a qual está tombado no Condephaat. Deduzimos que o santo fosse de devoção particular do sr. Phelipe Xavier da Rocha, juiz de Direito, proprietário do casarão que era colado à capela e que mandou construir a capela às suas custas.
O altar e o retábulo em madeira, em estilo barroco com elementos do neoclássico, são bem característicos do estilo de Miguel Dutra, cuja autoria encontra-se bem estabelecida; considera-se o passo como sendo sua última obra realizada, já que a capela foi inaugurada em 1873 e o artista faleceu dois anos após, em 1875.

Miguel Dutra, nascido em Itu, foi o primeiro artista estabelecido em Piracicaba, tendo fixado moradia na cidade por ter sido contratado para concluir a obra da Igreja Matriz, assim como toda a sua ornamentação em madeira.
Em seu interior encontra-se uma imagem de roca ou de vestir (imagem feita para ser vestida; no local onde vão as roupas, não há talha, sendo somente armações, como um boneco), representando Jesus Cristo ajoelhado, com uma veste roxa (cor de penitência e também da Quaresma), com um cálice na mão. Os olhos do Cristo são de vidro e imitam muito bem os naturais; estas peças tinham de ser importadas da Europa, na época.
Originalmente, no conjunto havia um anjinho, não uma imagem de vestir, mas todo talhado em madeira e colorido, que hoje se encontra desaparecido.
Estas imagens, de vestir e de talha, já não podem ser atribuídas a Miguel Dutra com segurança, pois não há nenhum registro seguro de que o artista tenha feitos imagens religiosas representando figuras sagradas, e sim, somente talha de altares, retábulos e outros elementos em bens integrados de igrejas. A autoria continua incerta, porquanto desde o estudo realizado pelo neto de Miguel, Arquimedes Dutra, que as peças são atribuídas ao artista pioneiro, fato estabelecido no estudo da capela e na obra de Miguelzinho.
Dentro da capela, acima da imagem de Cristo, há a seguinte inscrição: “Pater, si fieri potest, transeat a me calix iste”, que significa “Pai, se possível, afasta de mim esse cálice” (Mateus 26:39).
Restauros
Em 1972, o Passo foi tombado a nível estadual pelo Condephaat. O artista entalhador Eugênio Nardin fez o primeiro restauro naquele ano.
Novo restauro foi realizado em 2014, conduzido pela restauradora Vanessa Kraml. Os problemas de umidade, assim como a infestação de cupins em partes do madeiramento do teto, foram resolvidos, além do altar ter sido repintado e o douramento ter sido refeito, tudo de acordo com o original.











