Está aí Gilberto Kassab para nos explicar por que não confiar em quem nunca foi confiável. Ele é jogador à moda antiga, uma moda que, infelizmente, ainda impera no país. O esquema é simples: comando um partido de aluguel — no caso aqui, o PSD — e faço dele o que eu quiser. Meu nome é poder, independentemente de quem esteja lá. Isso é Centrão. Kassab é um representante legítimo do Centrão.
É um homem cujos princípios se vendem em qualquer casa de apostas. Se ele tivesse que ficar entre Lula e Flávio Bolsonaro, saberia muito bem contornar a situação para cair no colo do vencedor, como está fazendo, claro. Ele nunca foi tão governo como agora. Se a falta de caráter doesse, Kassab estaria envergado no postinho de emergência do Sírio-Libanês, em São Paulo, sem poder levantar a cabeça.
Por isso, não existe ex-Centrão. Vale o slogan do Flamengo: Uma vez Centrão, Centrão até morrer. Mas os centristas costumam dar um toque eufemístico para essa sem-vergonhice. Falam que se trata de governabilidade. Vou parafrasear aqui Madame Roland (1754–1793), que teve sua cabeça arrancada pelos revolucionários iluministas. Ela disse, ao pé da guilhotina, em 8 de novembro de 1793, durante a Revolução Francesa: “Ó Liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”. Eu digo: “Ó governabilidade, quantos crimes se cometem em teu nome!”.
Kassab era vice de Tarcísio de Freitas e queria continuar no posto por mais quatro anos. Ciente de estar ao lado de um jogador velhaco, o governador de São Paulo deixou o espertalhão de lado e convidou Felício Ramuth para ser seu vice. Kassab conseguiu ser vice de Ronaldo Caiado na disputa pela Presidência. Mas não arredou uma palha em nome de Flávio Bolsonaro no segundo turno, como fez Caiado. Esperou apenas Lula vencer para se declarar um defensor inveterado da governabilidade.
O homem faz isso sem passar vergonha. E é com gente assim que a oposição vai ter que lidar a partir de agora. É importante saber o que os eleitos como representantes da direita vão fazer no Congresso Nacional. Se defenderem Alcolumbre e Hugo Motta, como quer o governo Lula, certamente atuarão como traidores do seu eleitorado. Cada gesto desses representantes importa.
Se eles se renderem aos encantos de Lula, o Brasil viverá mais quatro anos nas mãos da bandidagem. A isso eles vão dar o nome de governabilidade e atuarão como iluministas ávidos pela cabeça da senhora Liberdade.




