Shakespeare, quem diria, foi cancelado em sua cidade natal
Stratford-upon-avon está fazendo uma "releitura" do papel do dramaturgo para desfazer o suposto mal-entendido de que "o homem branco europeu é superior"

O legado da vida e obra de William Shakespeare, assim como a sua celebração, estão ameaçados. Pelo menos, no coração da Inglaterra, a cidade onde nasceu o dramaturgo mais conhecido de todos os tempos: Stratford-upon-Avon, na Inglaterra.
A Shakespeare’s Birthplace Trust é uma associação fundada em 1847. Definida como “instituição de caridade educacional”, surgiu para manter a casa onde nasceu o autor, na cidade, situada no condado de Warwickshire, e ajudar na preservação da sua memória. A instituição possui várias cinco imóveis na cidade, originalmente casas e hoje museus relacionados a Shakespeare e a pessoas que conviveram com ele, como a casa onde sua esposa Anne Hathaway passou a infância.
A Shakespeare’s Birthplace Trust é considerada a maior sociedade do mundo cujo objetivo é manter a memória viva do Bardo (como Shakespeare é chamado pelos ingleses), e seus museus e festivais ajudam a manter a economia de Stratford, que tem sua atividades econômica quase que 100% focada no turismo shakesperiano.
A instituição, no entanto, resolveu adotar uma “política de descolonização”, após a parceria com a Universidade de Birmingham concluir que todo o material, linguagem e até a ênfase na vida de Shakespeare promoviam a "supremacia branca" e a “superioridade cultural britânica”.
A diretora Rachael North, diretora, está conduzindo uma total reformulação dos espaços administrados pela fundação em Stratford, que conta com cinco museus diferentes, além de uma biblioteca e dois arquivos sobre o Bardo. A Shakespeare’s Birthplace Trust ainda possui mais de um milhão de objetos relacionados à vida e obra do dramaturgo.
As exposições serão atualizadas para destacar os impactos coloniais causados pela presença britânica no mundo, revisar a linguagem "prejudicial" e promover artistas não-europeus, oferecendo uma experiência mais inclusiva e menos eurocêntrica.
Críticas
A iniciativa começou em 2022, mas virou uma grande polêmica em 2025 que recebeu destaque em 2025 e ainda está longe de acabar.
A polêmica começou quando o jornal “The Sunday Telegraph” publicou uma grande reportagem sobre o trabalho da fundação na "descolonização" de suas coleções, seguida por diversas outras publicações com cobertura negativa.
Outras publicações britânicas seguiram-se, como o jornal “The Spectator”, que acusou a mudança de abordagem da fundação de "absurdo completo e desonesto", e o “The Sun” como "loucura woke recente". Outros críticos apontaram um "falso radicalismo" que "despoja sua obra [de Shakespeare] de sua vitalidade".
A diretora Rachael North reagiu às críticas, prometendo que irá continuar adotando uma abordagem “absolutamente radical” no projeto. Ela declarou ter ficado “realmente chocada” com o que considera um “nível de abuso online” que a cobertura jornalística provocou contra ela e alguns membros do conselho da instituição, e que o projeto foi deturpado por uma “resposta da mídia guiada por manchetes”.
Pontos do projeto
Questionando o “Gênio Universal”: O projeto argumenta que apresentar Shakespeare como um gênio “universal” tem sido usado para promover a ideologia colonial e a superioridade cultural europeia.
Revisão do acervo: A instituição está revisando seus arquivos e artefatos em busca de linguagem ou representações “racistas, sexistas, homofóbicas ou de qualquer outra forma prejudiciais”.
Narrativa revisada: O objetivo da Fundação é mudar o foco de perspectivas puramente ocidentais para criar uma experiência museológica mais inclusiva.
Inclusão de artistas diversos: As iniciativas incluem apresentar artistas diversos, como destacar o poeta indiano Rabindranath Tagore e realizar oficinas inspiradas em Bollywood, para diversificar a narrativa cultural.
O projeto tomou como base a pesquisa de Helen Hopkins, acadêmica da Birmingham City University, que defendeu tese de doutorado, publicada em 2022, que "analisa e critica as respostas da SBT à sua coleção internacional". Segundo Hopkins, “"Shakespeare foi forçado a desempenhar no estabelecimento e na manutenção de narrativas imperialistas de supremacia cultural".
Em maio de 2025, a fundação organizou um evento para celebrar o que o 163º aniversário de Radinbranath Tagore no jardim da casa onde Shakespeare nasceu.
Revisionismo sobre Shakespeare em outros locais
Em 2021, o Shakespeare’s Globe Theatre, em Londres, promoveu várias ações para “descolonizar” suas montagens, incluindo seminários antirracistas que discutem possíveis leituras críticas das obras. Especialistas envolvidos nesses encontros argumentam que as peças do autor apresentam elementos “problemáticos”, como associações simbólicas entre branquitude e beleza, além de aspectos ligados a misoginia, racismo e outras formas de discriminação.
Nos EUA, alguns acadêmicos tem questionado a presença de Shakespeare no currículo escolar, alegando que suas obras contêm ideias “ultrapassadas” e ‘potencialmente prejudiciais”.
Na publicação norte-americana School Library Journal, a bibliotecária Amanda MacGregor escreveu:
“As obras de Shakespeare estão repletas de ideias problemáticas e ultrapassadas, com muita misoginia, racismo, homofobia, classismo, antissemitismo e misoginia contra mulheres negras”.
Por outro lado, críticos dessa abordagem argumentam que a exclusão do autor ignora o valor literário de sua obra e as possibilidades de reflexão histórica que ela oferece.
Montagens recentes de peças shakesperianas também passaram a incorporar alertas de conteúdo. Em 2023, o Globe Theatre incluiu um alerta na peça “Sonho de uma Noite de Verão”, avisando sobre “linguagem violenta, referências sexuais, misoginia e racismo”.
“As diretrizes de conteúdo são escritas antes da criação de cada produção e baseadas no que está presente na peça. Elas serão atualizadas à medida que a produção for sendo realizada”, explicou um porta-voz do teatro. Outros pontos debatidos por especialistas estão as peças que falariam sobre consentimento e coerção sexuais, como “Tito Andronico”, “Medida por Medida”, “A Tempestad”, entre outras, além de interpretações sobre linguagem considerada “racializante” nos textos, especialmente “Otelo” e “O Mercador de Veneza’, segundo o jornal “Daily Mail”.



