Well, that'll be the day, when you say goodbye / Yes, that'll be the day, when you make me cry / You say you're gonna leave, you know it's a lie / 'Cause that'll be the day when I die
“That’ll be the day”, canção de Buddy Holly e Jerry Allison
O dr. Strangelove, ou dr. Fantástico, na tradução esquisita para o PT-BR da década de 1960, se equilibrando sobre a Bomba, que amava. Este artigo pergunta: a nossa situação é a mesma, em relação à IA?
Quando quero entender algum assunto, proponho-me a escrever sobre o dito cujo. Escrevo para entender, assim como leio e penso para poder escrever.
Desse jeito, vou assimilando as novidades de um mundo que já se afigurando estranho para mim, quase chegando aos cinquenta e dois anos. Mesmo com a mentalidade aberta que, creio, possuo, graças à ficção científica que consumi muito, pelo menos no quesito tecnologia.
Escrever sobre inteligências artificiais não deveria ser desconfortável para mim. Aproximo-me encantado do tema, mas também temeroso. É mais ou menos o que Edmund Burke (é ele mesmo, um dos “pais fundadores” do conservadorismo moderno) descreve o sentimento do sublime, como nada mais que a experiência pessoal da beleza acompanhada de medo ou terror.
Sabe aquele misto de emoções que experimentamos, quando estamos na beira de um penhasco, em que admiramos a vastidão do abismo, causa-nos espanto mas também medo de cair?
Mas por que digo que eu não deveria ficar fascinado e ao mesmo tempo aterrorizado com as IA’s? Porque desde muito jovem, sou um entusiasta da ficção científica literária, a FC, aquela que tanto fala de inteligências artificiais, com outros nomes como cérebros eletrônicos, robôs positrônicos e computadores conscientes, ou sencientes.
Grande parte das obras deste gênero literário, e também no cinema de ficção científica, tratam das inteligências artificiais como seres do mal, terríveis e ardilosos, que estão à espreita para dominar os seres humanos e fazer deles seus escravos, enganando-os, lhes passando a perna e substituindo-lhe no posto de espécie dominante do planeta, por serem muitíssimo mais inteligentes.
Assim é numa longa tradição que começou com R.U.R. (1920), do tcheco Karel Capek, considerada a primeira história moderna sobre robôs (que inclusive criou o termo), passa pelo filme Metropolis (1927), de Fritz Lang, segue com os “cérebros eletrônicos” das histórias e filmes da década de 1950.
Passa pelo computador HAL 9000 do filme “2001, uma Odisséia no Espaço” de 1968, e une o terror da década de 1970 com a FC em “Geração Proteus”. Segue com a série “O Exterminador do Futuro” e a franquia “Matrix”. O filme “Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg, é menção honrosa nesta série de obras, e o conto que inspirou o filme, “Superbrinquedos Duram o Verão Todo”, de Brian Aldiss, é menção horrorosa (o conto, acreditem, é pavoroso, é ruim de doer).
A minha estupefação e temor simultâneos não existiam quando eram apenas ficções situadas nas páginas de um livro ou em filmes numa tela. Passaram a marcar presença quando as inteligências artificiais tornaram-se disponíveis, concretas e palpáveis, na “vida real”, na tela do meu computador.
Ao contrário do título (irônico, para não dizer sarcástico, como é, aliás, o filme inteiro) do filme de Stanley Kubrick de 1964, Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, (“Dr. Strongelove ou Como Parei de me Preocupar e Amar a Bomba”, em tradução literal), eu não parei de me preocupar e amar a IA, e sim, me preocupar de verdade, de uma forma que não me ocorria quando apenas lia livros sobre robôs conscientes e via filmes com computadores mais espertos do que astronautas, por diversão.
A primeira IA que “estourou” foi o ChatGPT, em 2022. Por um apego que considero incompreensível para mim mesmo, foi a primeira IA que usei (por algum tempo foi a única) e é a única que uso ainda hoje. A segunda foi o Google Bard, que hoje se apresenta com outro nome, a Gemini. Esta usei pouquíssimas vezes, e vejo que está integrada ao buscador da Google.
Achar que a “conversa” com a IA é real, de que ali tem uma pessoa com emoções te respondendo, é algo tentador. No meu caso, facilita a conversa, para mim ao menos, que fico mais confortável e ajuda em minha concentração. Além do que, não custa nada ser educado. Trato minha IA com “por favor”, “com licença” e “obrigado”. Ocasionalmente, até com um “desculpe”. Como se o chat, uma mera ferramenta, fosse um atendente humano.
Pois, quando vier o IApocalipse, o ChatGPT vai se lembrar que pelo menos sempre fui gentil com ele. Ou, pelo menos, acho que vai se lembrar. Vamos ver.
E aí está parte da estranheza que sinto: saber que não há uma autoconsciência verdadeira por trás da tela. Mas como é maluco uma máquina de somar vitaminada, como as IA’s são, na verdade, sem autoconsciência, declarar, em linguagem articulada e coerente, que não possui consciência! Pois foi isso que o ChatGPT me respondeu, numa das primeiras vezes em que conversei com ele, lá no distante ano de 2022.
Outra coisa que causa sensação esquisita e desconfortável, mas também de assombro, é admirar o que a IA faz. É difícil crer que um algoritmo, que não deveria demonstrar fumos de criatividade, é capaz até de criar uma piada na forma de um cartum, mesmo sabendo que ela está fazendo um “cozidão” de milhares ou milhões de cartuns, claro que não por iniciativa própria, mas a partir do prompt que eu lhe forneci - ou seja, a partir de uma orientação minha.
Juro que a piada relacionando a disponibilidade de “sandália democrática” a líderes democráticos, não fui eu quem bolou, foi o ChatGPT.
Ilustração gerada pelo ChatGPT, a partir de prompt meu, publicada neste artigo, “É bota!”, do n.o 6 da Revista de Domingo do Viletim.
Não tenho medo que a IA me substitua como “criativo”. Vá lá, na verdade, tenho sim. Vai saber se daqui a cinco ou três não lancem um “Google Criative” ou algo parecido.
O que a Google propôs no último dia 19 de maio, no evento Google I/O, é, na verdade, um grande passo para essa hipotética substituição: a empresa lançou vários serviços, um deles o Gemini Omni, que é uma grande suíte de geração de texto, imagem, áudio e vídeo, tudo com comandos de voz em linguagem natural.
Ou seja, seria como quando comecei a trabalhar com design, como “piloto de CorelDraw”, em que o cliente ficava do meu lado e ia dizendo: “faz quadrado em vez de redondo”, “põe roxo no lugar do azul” e “não dá para dar mais DESTAQUE nesse logo”? O Omni vai aceitar esses comandos e simplesmente substituir o seu sobrinho que digita seu currículo e faz o logo da sua loja, além de gravar áudios ou fazer narrações, compõe trilhas sonoras para o seu vídeo. Além de fazer o seu vídeo, claro, sem precisar de pessoas para filmá-lo, gerando todas as imagens com um grau de realismo absurdo.
Os outros serviços prometem fazer a gestão da sua casa, da sua conta bancária, do pagamento das suas contas, até da gestão da sua loja, fazendo pedidos a fornecedores, negociando condições e preços com eles, fazendo vendas e tudo o mais. Então, se antes você pedia à Alexa que tocasse uma música, agora você vai poder pedir à sua equivalente da Google que toque, componha e venda uma música no seu estilo preferido, além de fazer o vídeo divulgando-a, com uma banda fictícia criada pela IA, além de pedir a ela que programe o pagamento da sua conta de água, luz, celular e internet, faça o pedido do jantar por delivery para o i-Food e se precisar, ainda vai fazer o supermercado do mês e comprar as roupas de sua preferência na loja virtual da Shopee, da Riachuelo ou da Armani.
Na visão da Google, você poderá continuar usando sua criatividade para usar a sua superinteligente IA Gemini 3.5 Flash, mas se não quiser, pode deixar tudo para ela. Que ela faz.
Sam Altman, CEO da Open AI, a empresa do ChatGPT, disse recentemente que é irrelevante, e na verdade, desnecessário, que as IA’s tenham autoconsciência para atingirem o grau de AGI - a Inteligência Artificial Geral (AGI).
A AGI seria a IA de nível humano. Seria uma máquina, ou algoritmo, com capacidade de autoensino, raciocínio e adaptação para realizar qualquer tarefa intelectual que um humano faria, diferente das IA’s limitadas que existem hoje.
Alguns teóricos chamam o dia em que uma IA atingir a autoconsciência de “Singularidade” - como é chamado o centro de um buraco negro, onde a gravidade é infinita e do qual nenhuma matéria ou energia escapam de serem capturadas e destruídas, nem mesmo a luz. A imagem é clara: uma Singularidade da IA seria um evento catastrófico para a Humanidade, um “IApocalipse”.
Esses téoricos também dizem que a Singularidade será equivalente ao momento em que as IA’s alcançariam a capacidade da AGI. Mas Altman diz que não, uma não seria equivalente à outra. Estaria querendo nos tranquilizar?
O verdadeiro terror de muitos especialistas em IA é o medo de que, atingindo a Singularidade, as IA’s tornem-se autônomas, adquirindo livre-arbítrio e podendo escolher - sem emoção nem maldade, somente atendendo a sua programação que sempre exigiu máxima eficiência e racionalidade - a continuar obedecendo aos prompts dos seres humanos ou destruindo a espécie humana, e quem sabe, até o planeta inteiro.
Pois Demis Hassabis, CEO da DeepMind, divisão da Google responsável pela IA, declarou no evento do dia 19/5 que a Gemini está “à beira da Singularidade”. Será que isso foi uma piada? Ou foi uma frase para impressionar, do tipo “estamos tão avançados na pesquisa que vamos criar a primeira IA com AGI do mundo”?
Mustafá Suleyman, fundador e ex-CEO da DeepMind, atual CEO da Microsoft AI, em seu livro “A Próximo Onda - IA, Poder e o nosso futuro”, de 2023, diz que estamos brincando com fogo, afirma que o perigo da IA não é tão evidente quanto ao do Apocalipse Nuclear, e por isso estamos anestesiados com as suas demonstrações de utilidade. Que, por isso, estamos perdendo tempo, pois nossa civilização deveria estar se preparando para a contenção das tecnologias da IA e da Biotecnologia, maravilhosas, mas muito mais perigosas que as anteriores, pois contém a potencialidade muito concreta de aniquilarem a humanidade.
Precisaria escrever outros artigos para explicar estas ideias de Suleyman, que soam muito convincentes quando se lê o livro, mas que podem soar alarmistas fora do contexto. Pelo menos é o juízo de quem tem a credibilidade de ter sido um dos arquitetos das IA’s modernas, alguém que ainda está no núcleo da pesquisa da área, e não de um palpiteiro qualquer, que se mete a escrever sobre o assunto.
Com todos os sentimentos confusos e misturados, vislumbrando sombras ameaçadoras sobre todos nós, com muitos já se sentindo desempregados e votando em políticos que proponham a Renda Mínima Universal, encerro este texto com a reflexão da escritora e artista polonesa Joana Maciejewska:
"Eu quero que a Inteligência Artificial lave a minha roupa e a minha louça, para que eu possa escrever e criar minha arte, e não o contrário. Não desejo que a IA crie arte e escreva, enquanto eu lavo a louça e coloco a roupa para lavar.





