Sintomas digestivos persistentes pedem avaliação médica, não automedicação
No Dia Mundial da Saúde Digestiva especialista da Santa Casa fala sobre sinais que não devem ser ignorados e reforça a importância do diagnóstico correto
“A automedicação pode mascarar o problema e retardar um diagnóstico importante”, alerta Amando Camargo Cunha Jr., diretor clínico da Santa Casa
Todo ano, em 29 de maio, o mundo volta a atenção para um sistema que trabalha ininterruptamente e, muitas vezes, só é lembrado quando começa a falhar: o aparelho digestivo. A data foi instituída pela Organização Mundial de Gastroenterologia (WGO) em 2003, e desde então serve como plataforma para conscientizar a população sobre prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças digestivas.
Para o médico Amando Camargo Cunha Jr., diretor clínico e coordenador do Departamento de Cirurgia Geral da Santa Casa de Piracicaba, a data cumpre um papel educativo fundamental. “O aparelho digestivo é responsável por muito mais do que processar alimentos. Ele influencia nossa imunidade, nossa nutrição e, diretamente, nossa qualidade de vida. Quando algo não vai bem, o organismo avisa — e esses avisos não devem ser ignorados”, afirma o especialista.
Náuseas frequentes, empachamento, azia, refluxo de alimento ou ácido gástrico, diarreia, constipação e dor abdominal estão entre as manifestações mais comuns de problemas digestivos. Mas o médico chama atenção para um grupo de sintomas que, à primeira vista, pareceriam indicar outras condições: tosse seca, dor no peito, sinusite recorrente, crises de asma, dor de cabeça, déficit de atenção e lesões na pele também podem ter origem no sistema digestivo.
“Muitas doenças digestivas começam com manifestações inespecíficas. O paciente trata a tosse, trata a sinusite, e ninguém investiga o aparelho digestivo. Por isso a avaliação médica é tão importante: ela permite diferenciar quadros funcionais, inflamatórios, infecciosos ou neoplásicos”, explica Cunha Jr.
Sintomas como sangramento, perda de peso inexplicada e dificuldade para engolir exigem atenção redobrada quando persistentes ou recorrentes. Nesses casos, a investigação pode envolver exames laboratoriais, endoscópicos e de imagem, além de acompanhamento especializado.
Um hábito comum entre a população preocupa os especialistas: tratar sintomas digestivos de forma repetida com medicamentos sem prescrição. “A automedicação pode mascarar o problema e retardar um diagnóstico importante. O correto é identificar a causa, não apenas aliviar o sintoma temporariamente”, alerta o médico.
A boa notícia é que parte das doenças digestivas pode ser prevenida com mudanças no estilo de vida, entre elas: beber no mínimo dois litros de água por dia, mastigar bem os alimentos, aumentar o consumo de vegetais, frutas, grãos e sementes, praticar atividades físicas com regularidade e dar preferência a carboidratos integrais em vez dos refinados. Cunha Jr. acrescenta um fator muitas vezes subestimado: “O estresse afeta diretamente o funcionamento intestinal. Controlar a ansiedade e ter uma rotina equilibrada é parte do cuidado com a saúde digestiva.”
As enfermidades que mais acometem o aparelho digestivo são gastrite, doença do refluxo, intolerância à lactose e doenças inflamatórias intestinais. Em casos mais graves, a detecção tardia pode comprometer o tratamento. Para o câncer de intestino, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima mais de 53 mil novos casos da doença no Brasil em 2026 — um avanço em relação às projeções anteriores. Trata-se do terceiro tipo de neoplasia mais frequente e a segunda maior causa de mortes por câncer no mundo.




