Sonho por Atacado: cinquenta milhões.
Crônica de um devedor compulsivo, pecador impenitente e procrastinador da felicidade dos credores
Detalhe do quadro “A Hora do Pão”, de Abigail de Azevedo, 1899.
Pago o jovem, a caixa de pão de vários formatos e cheiros sobre a garupa da bicicleta, parado no tempo, em frente ao meu portão. Não sei de onde tirei aquelas moedas: o saldo no banco está negativo.
O português da mercearia não se desculpa por ser português nem por ter uma mercearia em pleno século XXI, quer que eu pague a caderneta de fiado. Por isso não penduro mais o pão por lá.
O jovem destrava o relógio e volta a se mexer, gritando “Pãooooo fRRRResco!”, cortando o ar cheio de poeira, vermelho e rascante, pedalando em direção à morte.
Entregue o pão para a esposa (não faço o café da manhã, estou sem fome), dou a volta no quarteirão, caminho muito maior, para chegar no ponto de ônibus. Contorno o constrangimento de encontrar o portuga na porta do armazém e talvez tomar uma surra. Vou tomar o ônibus, já que não posso tomar um empréstimo.
Não há esperança, já tomei na cabeça. O banco está negativo, muito pessimista, muito down, como diria a Elis Regina, down, down, down no high society. No caso, down no low profile: meu perfil é de devedor compulsivo.
O banco não quer emprestar dinheiro que, ele sabe, não terá de volta. Já tenho algumas anotações graciosas por lá, não tenho como pagar. Devo pagar, não pago, devo negar enquanto puder.
A cobradora de dívidas, no celular, impaciente para bater a meta do mês, pergunta: quando o senhor recebe o salário? O banco quer receber.
O banco vai ter que esperar sentado.
Meu nome está no Serasa, acompanhado de gente tão boa quanto eu. Proscritos da sociedade. Que nos seduziu com uma gostosa propaganda da TV aberta: “você é especial. Você merece mais”. O cara bronzeado, de camisa polo e blusa nos ombros, num anúncio do YouTube: “Nós, que trabalhamos, merecemos umas férias, não é verdade?”
É verdade, parça.
Eu e meus companheiros, no poço dos negativados, fomos vítimas dos nossos próprios desejos. Desejo de trocar o carro 2023 por um 2024, afinal eu mereço. Desejo de comer uma picanha no fim de semana, mesmo que durante a semana só batam ponto na mesa o arroz, o feijão e o ovo. Desejo de comprar uma roupa nova, afinal a calça já está com vários buracos, e não é por causa da moda.
Como todo mundo, desejo um mundo melhor. Onde eu não tenha dívidas.
Nós, que nos reunimos no Serasa, numa fraternidade desconfortável, não temos limite de cheque especial nem para fazer uma festinha, para comemorar nossa condição de “irmãos”. O cartão está estourado. Quando nos veem, agiotas nos perseguem, em correria louca. Usamos a internet de lugares publicos para entrar em aplicativos de empréstimos, que nos recusam qualquer redenção.
A nós, irmãos em dívidas, sobrou dividirmos o ar, que ainda está de graça, mas que rareia. Forte e sufocante. Como uma faca no pescoço.
Remamos numa galé digital.
Por puro milagre (ainda recebo sinais da providência de um Deus que insiste em olhar por mim), recebo uns dinheiros de clientes que eu, veja só, havia esquecido de cobrar.
Estou devendo até para o motorista do ônibus, o campeão, que compadecido, “pendurou” minhas passagens, já que estamos num bairro distante. O ônibus não tem câmeras aqui, e também não chega fiscalização, uma das pragas do Egito, nestas plagas.
“Mas eu vou te pagar, assim que receber, campeão”. “Fique tranquilo, campeão, tamo junto”. “Beleza, campeão”. “Fique em paz, vamos trabalhar, campeão!”
Vejo no zap os clientes descarregando alívio na minha conta (uma que não tem cheque especial nem perigo de ter valores “comidos”), corro ao supermercado. Quase esqueço de contar, quase fico devendo isto: tenho família, e grande. O atacarejo que me espere.
Sento-me e sigo sacolejando, aproveito para carregar o celular no próprio transporte público, senão não terei como chamar o uber na volta, com tantas compras. Vejam só, pagar impostos teve um pequenino retorno, na forma de energia elétrica “de graça”. Ou não. Estou devendo as calças (aquelas com buracos) no banco, no cartão e também na prefeitura.
Encho o carrinho. Que beleza. O quentinho bom no estômago, de poder passar no caixa e ter dinheiro. Que felicidade.
Minha bem-aventurança é interrompida com a pergunta da caixa, que coloca burocraticamente: “Participa da promoção?” Eu devolvo, “que promoção?”. “A promoção que dá cinquenta milhões de reais em prêmios, do aniversário do Nosso Atacado”.
Cinquenta milhões! Cinquenta milhões!
Nova bem-aventurança, esperança e amor expostos no folhetinho, que, gostosamente, apela aos meus desejos mais profundos: “1500 viagens para o Cruzeiro do Nosso Atacado!”, “Um grande prêmio de 5 milhões, livres de impostos”, e não menos tentador,“50 mil prêmios de R$100,00 recebidos direto no caixa”.
Abraço o folhetinho, peço o cadastro, aceito o abate. Vou remar mais um tanto, nesta onda de felicidade no porvir, num cruzeiro pelos sete mares, pelo prêmio de cinco milhões, tanto dinheiro que não consigo montar uma imagem na tela da minha mente. Minha vista fica embaçada, causa até enjoo tanta maresia.
O motorista do uber me ajudou a colocar a compra no porta-malas e arrebentou uma caixa de leite, sujou o carpete do porta-malas, fiquei nervoso e prometi pagá-lo com um dos milhões da promoção, ele não acreditou na minha sorte e me lançou uma praga, mas deixou quieto.
Et al, E.T., minha casa: fui transportado para o purgatório, onde purgo minhas penas numa agonia sem fim, esperando o sorteio do folhetinho do Nosso Atacado.



