Parcela de brasileiros que dormem menos de seis horas por noite é de 20%
Andrea Toscanini comenta dados do Vigitel sobre o cenário do sono dos brasileiros e fala dos efeitos para a saúde de uma noite mal dormida

O Ministério da Saúde revelou os dados do Vigitel 2006-2024 e revelou que 20% dos brasileiros dormem menos de seis horas por noite e 31,7% têm sintomas de insônia. O Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) é uma pesquisa divulgada anualmente sobre diabetes, hipertensão e hábitos alimentares no País e, pela primeira vez, estudou o panorama do sono dos brasileiros. Andrea Toscanini, médica do Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que os problemas relacionados ao sono necessitam de atenção.
“Foi fundamental que o Vigitel tenha colocado a síndrome do sono insuficiente como uma doença crônica no Brasil, visto que, no resto do mundo, ela é há muitos anos considerada uma doença crônica, inclusive pela própria Organização Mundial da Saúde, que considera a síndrome do sono insuficiente como a maior doença crônica não comunicável. Esses números que o Vigitel trouxe são números preocupantes, mas eles são números que compõem o cenário mundial. Há estudos desde 2018 mostrando que, nos Estados Unidos, por exemplo, 18% por cento da população dorme menos de seis horas. Os números do Brasil estão de acordo com o cenário mundial – essas doenças crônicas, em sua maioria, vêm em função do desenvolvimento desorganizado e do estilo de vida da nossa sociedade.”
Possíveis complicações do sono insuficiente
Andrea ressalta que a privação de sono traz diversos problemas para o indivíduo, afetando drasticamente sua rotina. “Esses pacientes que apresentam os sintomas de insônia estão mais suscetíveis a uma série de comorbidades, sendo as principais complicações a depressão, hipertensão, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e obesidade. Há também efeitos cognitivos que aumentam o risco do paciente desenvolver problemas de memória, atenção, foco ou algum tipo de demência. As consequências do sono encurtado são de ordem muito séria, ela traz muitos problemas de produtividade, como nos Estados Unidos, por exemplo, onde a privação de sono custa U$411 bilhões de forma indireta para a sociedade.”
“Os jovens também estão dormindo mal e, por serem jovens, eles acabam tendo mais consequências cognitivas, eles performam mal na escola por dormirem mal. No caso das crianças, há uma outra série de coisas que vão sendo construídas em cima, se a criança tem déficit de atenção ou transtorno opositor desafiador, por exemplo, pode haver relação com o sono. Caso ela faça testes neuropsicológicos na condição de privação de sono, ela não vai fazer um bom exame, ela não vai fazer um bom teste. É fundamental se organizar de forma eficiente e programar o nosso dia de forma que você tenha menos tarefas e possa dormir melhor. Dormimos frustrados todos os dias, porque nunca é possível resolver todos os problemas estando privado de sono. É necessário colocar menos atividades para a gente, mantendo um tempo total de sono adequado”, reforça Andrea.
A privação de sono por gênero
De acordo com a médica, os sintomas da insônia aparecem com mais frequência entre as mulheres e estão relacionados a questões hormonais. “A mulher, na menopausa, do ponto de vista hormonal, ela muda completamente e passa a ter todos aqueles sintomas vasomotores, passa a ter uma suscetibilidade maior aos transtornos de humor e a insônia, que está muito ligada à equitabilidade psicológica. A gente sabe, por exemplo, que a insônia de início de noite pode acontecer em pessoas que têm aquela roda de pensamentos pré-sono, pensamentos intrusivos ou preocupações. Nós vimos nesse estudo que o perfil de pacientes que têm mais insônia é daqueles que têm uma renda menor, então a mulher, que muitas vezes tem uma dupla jornada, que inclui a responsabilidade da casa e dos filhos e tem uma renda um pouco menor, acaba sendo sobrecarregada”.
“A mulher, tanto por questões sociais como biológicas, ela é mais suscetível à insônia e à privação de sono e, nessa mesma época da vida, a mulher também passa a ter um risco maior para desenvolver apneia do sono, que também é uma grande inimiga do envelhecimento saudável, visto que ela está altamente relacionada com o desenvolvimento da hipertensão e do metabolismo glicêmico. Durante toda a vida, a chance de uma mulher desenvolver apneia, comparada com o homem, é de um para três. Na menopausa, fica igual, fica um para um”, finaliza a professora.




