A soprano italiana que arrebatou os palcos do Segundo Reinado
Livro recupera a vida e a obra de Augusta Candiani, diva da cena lírica no Brasil oitocentista
Acantora Augusta Candiani foi presença marcante na corte de d. Pedro II. No palco, sua figura dominava a cena; fora dele, seu nome era onipresente em jornais, saraus, cartas, homenagens e disputas apaixonadas. Durante o Segundo Reinado (1840-1889), a italiana tornou-se personagem central de um momento decisivo da vida cultural brasileira. Essa trajetória, marcada por aplausos fervorosos, embates públicos e dramas íntimos, é agora recuperada no livro Augusta Candiani – A prima-dona da época de D. Pedro II, da pesquisadora carioca Andrea Carvalho Stark, publicado pela Editora da Unicamp.
O livro, com 659 páginas, resultado de uma pesquisa minuciosa, repassa a vida de uma das principais artistas dos palcos brasileiros do século 19 e, ao mesmo tempo, oferece um amplo retrato da formação da cena lírica no Brasil. A obra inclui reproduções de imagens, textos de jornais e um levantamento detalhado do repertório da cantora.
A obra nasce de uma pesquisa de décadas e de uma trajetória pessoal marcada pelo interesse em recuperar histórias esquecidas de mulheres, que ficaram à margem das narrativas oficiais. “A Candiani foi imensa no seu tempo, mas depois foi sendo apagada. Isso me chamou muito a atenção.”
A cantora entrou na vida da autora ainda na graduação da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quando seu foco estava na história do samba carioca. “Quando eu estava estudando a música que existia no Brasil do século 19, encontrei em um livro de [José Ramos] Tinhorão, grande historiador da música popular, um texto que dizia que Candiani cantava modinhas, explicando que ela veio da Itália para ser a diva da ópera Norma de Bellini, e que faleceu no ‘longínquo subúrbio carioca de Santa Cruz’ em 1890.”
“Eu morava no subúrbio na época, e achava Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, bem distante. Fiquei me perguntando: como é que essa mulher saiu da Itália, que era o centro da ópera, e foi morrer em Santa Cruz? Fiquei intrigada”, lembra. Conheceu, por intermédio de um colega da faculdade, um historiador da região e conseguiu contato com uma tetraneta da cantora, que a convidou para visitá-la. “Ela me mostrou o quadro da Candiani, cuja reprodução está no livro. Foi a primeira vez que eu vi o rosto dela. Era um quadro de corpo inteiro, com as bordas destruídas, uma parte também danificada, mas que hoje está restaurado.” A partir desse encontro, seu interesse foi se intensificando.
Cada vez mais envolvida, começou a pesquisar na Biblioteca Nacional, no Arquivo Nacional e em outros acervos. “Mas aí me envolvi em outros projetos e isso ficou um pouco de lado. Quando resolvi fazer mestrado, pensei: vou voltar para essa história.” Em seguida, no doutorado, ela resolveu escrever uma tese sobre o espectador no Rio de Janeiro no século 19, tema que também tem paralelo com a pesquisa sobre Candiani.
Com o passar dos anos, a tecnologia se tornou grande aliada. “Antes, pesquisava em microfilme e anotava tudo em cadernos, ficava horas para achar uma referência. Era um trabalho físico: eu precisava ir até o lugar, olhar página por página e lidar com documentos sensíveis pelo desgaste do tempo. Não havia atalhos. Depois, com a era digital, ficou muito mais fácil trabalhar com periódicos, assim como em acervos de documentos do Brasil e, principalmente, da Europa”, relata.
Sem financiamento específico para a pesquisa e escrita do livro, o trabalho avançou de forma gradual. O projeto, pensado inicialmente como um filme, acabou tomando outra forma. “Pretendia escrever um roteiro de cinema porque a história é extremamente visual e dramática, mas a riqueza do material me levou a buscar um formato que preservasse melhor essa memória”, ressalta. A ocasião para finalizar a obra veio na pandemia. “Apesar daquele momento terrível, pude ficar em casa e consegui terminar o livro.”
A pesquisa exigiu, porém, um ponto de virada importante. “Tem uma hora que você precisa parar e deixar o livro nascer, mesmo sem ter encontrado todas as respostas.” Para a autora, algumas lacunas, longe de fragilizar o trabalho, reforçam o caráter histórico da investigação. “Trabalhei com o material que consegui reunir, fui criando percepções, construindo uma leitura possível daquele tempo”, afirma.
Nasce uma estrela
1 – Anúncio de estreia da ópera Norma em 17 de janeiro de 1844
2 – Augusta Candiani, com o figurino de Norma, ópera homônima de Bellini
3 – A cantora lírica em desenho do artista francês Louis Alexis Boulanger
4 – Augusta Candiani como Norma em pintura a óleo sem autoria e data
5 – Desenho “a crayon” do alemão August Müller retrata a soprano italiana
6 – Litografia Augusta Candiani com o figurino da personagem Norma
Natural de Milão, Augusta Candiani nasceu em 3 de abril de 1820. Chegou ao Rio de Janeiro, na primeira leva de artistas europeus que vieram tentar a vida nos palcos brasileiros, em dezembro de 1843, acompanhada do marido, o farmacêutico Gioacchino Candiani. Tinha 23 anos e estava grávida.
Em Milão, Candiani era uma artista iniciante. Mas, ao estrear no Brasil, em 17 de janeiro de 1844, no Teatro São Pedro de Alcântara, nasceu uma estrela. Na primeira apresentação em território brasileiro da ópera Norma, de Vincenzo Bellini, com libreto de Felice Romani, a cantora, grávida de sete meses, foi protagonista. A filha nasceria em março daquele ano e receberia o nome de Theresa Cristina Maria, em homenagem à imperatriz, que foi madrinha da criança.
Os jornais da época registraram aplausos entusiasmados, elogios à pureza e à potência de sua voz de soprano, além de comentários sobre sua presença cênica. Mais do que cantar, Candiani encarnava a personagem. Quando Norma suplicava, o público parecia suplicar junto. Foi justamente essa combinação entre voz e presença que a transformou em fenômeno.
Ao lado da também cantora italiana Clara Delmastro, Candiani esteve no centro de uma intensa disputa entre facções de admiradores. Eram os chamados partidos teatrais, grupos que dividiam a plateia entre aplausos à sua favorita e insultos à rival. As famosas “pateadas”, batidas de pés, bengalas, assobios e gritos, transformavam o teatro em arena. “Era uma relação muito intensa, quase militante, entre candianistas e delmastristas”, afirma Stark.
A autora dedica o livro aos “candianistas”, que publicavam poemas, cartas, críticas e homenagens nos jornais. No período, a ópera deixou de ser apenas espetáculo. Tipografias, traduções bilíngues das obras e outras publicações exploravam esse universo. A ária “Casta Diva”, de Norma, tornou-se fenômeno popular e passou a ser cantada nas ruas, em modinhas, o que levou Tinhorão, um século depois, a escrever que a italiana era uma das responsáveis por essa popularização musical.
“Estudei bastante essa questão da modinha e é importante dizer que Candiani não introduziu a modinha no teatro. Esse tipo de canção lírica em língua portuguesa, que Candiani cantava, com raízes no intercâmbio luso-brasileiro, já estava presente nos teatros e se alimentava muito do lirismo da ópera italiana”, destaca Stark. “A ária ‘Casta Diva’, da ópera Norma, ficou muito conhecida. É uma oração pela paz, dentro do drama da personagem, que está em conflito. Ela é uma líder religiosa e política traindo seu povo e seus deuses por amor a um homem inimigo de guerra, e isso deve ter tido uma força enorme naquele momento histórico do Romantismo e de início do Segundo Reinado depois do conturbado período da Regência”, avalia.

À frente de seu tempo
Mas, para além do sucesso nos palcos, o livro também revela conflitos. A separação de Candiani de seu primeiro marido tornou-se pública, em uma época em que a esfera doméstica era rigidamente resguardada. A cantora usou as páginas dos jornais para denunciar o comportamento de Gioacchino Candiani, relatando agressões e o uso indevido de seus rendimentos.
Candiani também enfrentou as estruturas patriarcais, negociando contratos, reivindicando melhores condições de trabalho e tomando para si as decisões sobre a própria carreira. “Ela toma decisões muito audaciosas para o contexto em que vive. Um dos exemplos disso é um episódio de 1853, no qual ela contesta um desconto em seu salário, denunciando sozinha à Secretaria de Estado dos Negócios do Império o poderoso empresário e ator João Caetano dos Santos, seu chefe no Teatro Provisório”, afirma a autora.
Ao longo da vida, a cantora teve três companheiros. Após se separar do marido italiano, quando perdeu a guarda da primeira filha, uniu-se a José de Almeida Cabral, empresário, compositor e figura central entre os candianistas, com quem teve uma segunda filha e trabalhou em companhias lírico-dramáticas, criadas por ele. Já nos anos finais, até sua morte, teve ao seu lado o ator, parceiro de palco e dramaturgo português Bartholomeu da Silva Magalhães.
Se, no auge, Candiani foi a voz predileta da corte, com o tempo sua trajetória se desloca para palcos regionais com a chegada de novas cantoras. Nos últimos anos de vida, Candiani enfrentou dificuldades e problemas de saúde. Quase cega por causa da catarata, viveu modestamente em Santa Cruz, onde morreu em 28 de fevereiro de 1890, aos 69 anos, meses após o fim do Segundo Reinado. Sua morte recebeu pouco destaque na imprensa, um contraste com a enorme popularidade que teve durante o Império. “Sobre o último espetáculo dela, eu não consigo afirmar com certeza, mas foi provavelmente em Juiz de Fora, Minas Gerais. No Rio, o último registro é um concerto de 1877”, relata.
Na casa simples onde passou seus últimos anos, havia um álbum de recordações com poemas, desenhos, autógrafos e homenagens reunidos ao longo de uma vida de aplausos – um documento histórico que a pesquisadora ainda busca, mesmo após a publicação do livro. “A localização desse álbum hoje é desconhecida, apesar de meus esforços para encontrá-lo. Esse álbum pertenceu a um militar de Santa Cruz no início do século 20 e foi parar no acervo do marchand Jorge Getulio Veiga nos anos 1990, e seria reproduzido em uma publicação da editora Quinta Cor, do Rio de Janeiro, na mesma época, o que não ocorreu. Há nele poesias de seus fãs, e ainda desenhos e pinturas de August Müller, José Reis de Carvalho, Buvelot e Guillobel. Qualquer informação, peço que me contatem pelo e-mail augustacandiani@gmail.com”, continua.
“Esse final da Candiani em Santa Cruz, no início da República, é muito significativo”, afirma a autora. “Uma artista central de um império com um fim abrupto termina a vida em um espaço periférico, praticamente fora da memória pública. O esquecimento de seu nome foi uma tentativa de apagar a memória de uma artista e da arte de seu tempo, mas esse livro prova que nem sempre esse projeto dá certo.”
Marietta Baderna, um sobrenome que virou substantivo
Contemporânea de Augusta Candiani, a bailarina italiana Marietta Baderna (1828-1892) chegou ao Brasil em 1849 com o pai, que era médico. Com uma carreira consolidada em Milão, também marcou a cena cultural do Segundo Reinado, ainda que por caminhos bastante distintos.
Conhecida por suas apresentações ousadas e pela postura considerada provocadora para os padrões da época, Baderna tornou-se símbolo de controvérsia. Dividiu a cena com Candiani em alguns espetáculos e ampliou os limites do que se entendia por presença feminina na vida cultural do século 19.
Para a autora Andrea Carvalho Stark, a comparação entre Baderna e Candiani ajuda a compreender a diversidade da cena artística do período. “São mulheres que ocupam o palco e o espaço público de maneiras muito diferentes, mas igualmente centrais”, observa.
No palco, a bailarina provocava reações intensas: aplausos entusiasmados e críticas ferozes. O termo “baderna”, que hoje designa confusão, teria se popularizado justamente a partir das reações exaltadas do público, os “badernistas”, às suas apresentações. “Dizem que ela mostrava mais as pernas. De qualquer forma, são interpretações a partir de testemunhos de espectadores da Corte nos jornais, com o olhar da época, especialmente Gonçalves Dias, poeta que também era ‘badernista’ e escreveu sobre as ‘pernas poéticas’ da bailarina”, destaca.
“O que sabemos é que o substantivo ‘baderna’ e suas variações, na língua portuguesa do Brasil hoje, vieram mesmo do sobrenome dela. Afinal, eram os ‘badernistas’ que protestavam com balbúrdia na plateia a favor de sua predileta, assim como os ‘candianistas’ e os ‘delmastristas’, no embate entre fãs dos partidos teatrais. Desses todos, foram os ‘badernistas’ que sobreviveram, adquirindo na lexicografia um sentido original de protesto e confusão”, completa.
Matéria: Ana Paula Palazi | Fotos: Igor Alisson | Jornal da Unicamp.









