Na medicina popular, a sucupira e a erva-baleeira, duas plantas nativas do Brasil, são usadas há muito tempo contra o reumatismo e as dores musculares, em geral na forma de chás. Agora, essas espécies estão a caminho de se tornar um creme com propriedades anti-inflamatórias. Pesquisadores da Unicamp combinaram extratos padronizados das duas plantas em uma composição analgésica para dor em traumas, edemas, artrites e luxações.
A tecnologia, patenteada com estratégia da Agência de Inovação Inova Unicamp, foi licenciada para a Phytochem, empresa-filha da Universidade, com sede em Paulínia (SP). O primeiro produto previsto pela empresa é um creme de grau cosmético, voltado ao bem-estar, para aliviar a sensação de fadiga, o cansaço e o desconforto muscular.
Os chás caseiros extraem poucas substâncias ativas das plantas, limitação comprovada nas pesquisas conduzidas na Unicamp, desde a década de 1980. Por isso, a equipe de pesquisadores trabalhou com extratos padronizados, que garantem a quantidade certa de ativos, e testou a combinação das duas espécies. Nos ensaios pré-clínicos, a associação reduziu a dose necessária e estendeu o efeito analgésico e anti-inflamatório de quatro para seis horas, quando comparado ao uso separado das plantas.
Efeito sinérgico
A invenção reúne o extrato dos frutos e sementes da sucupira (Pterodon pubescens Benth.) e o óleo essencial das folhas da erva-baleeira (Cordia verbenacea DC). A ação da erva-baleeira contra a dor e inflamação já era conhecida. Ao estudar a sucupira, a equipe viu que a potência variava conforme a mistura de componentes da planta. Daí surgiu a pergunta: associar as duas espécies traria vantagens?
O resultado das pesquisas comprovou a hipótese. Em testes com animais, a equipe mediu quanto tempo o efeito durava após uma única dose. Usados separadamente, o extrato de sucupira e o óleo de erva-baleeira agiram por cerca de quatro horas. Combinados, mantiveram o efeito por seis horas, mesmo com uma dose menor de cada um. É o chamado efeito sinérgico, em que a associação supera a soma dos efeitos isolados.
“Com isso, cria-se uma vantagem tecnológica, porque você diminui a quantidade de ingrediente e potencializa o efeito anti-inflamatório e para dor”, explica Mary Ann Foglio, professora titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp, que coordenou as pesquisas no Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA). Segundo ela, a dose reduzida tem duas consequências positivas. “Quanto menos você usa, menor a probabilidade de uma intoxicação. E, para a produção industrial, o custo diminui”.
Segurança e padronização
O trabalho envolveu ensaios in vitro, em modelos animais e com doses repetidas, além de estudos de segurança que indicaram que os extratos são seguros nas concentrações testadas. Na avaliação de Foglio, em relação aos cremes anti-inflamatórios do mercado, a composição tem efeito mais prolongado com dose menor e baixa toxicidade. Esses cremes devem servir de referência para um futuro estudo clínico.
A etapa mais difícil foi padronizar a matéria-prima. O óleo essencial da erva-baleeira é extraído das folhas frescas, e tanto a quantidade de óleo quanto a proporção das substâncias que o compõem variam conforme o mês e até o horário da colheita. Na prática, folhas colhidas em épocas diferentes podem render óleos com potências diferentes.
Para contornar isso, a equipe mediu mês a mês o teor e a composição do óleo e identificou a melhor época de coleta. Como a colheita ocorre ao longo do ano, o produto final é obtido a partir de misturas de lotes que atendem a um padrão de qualidade. No caso da sucupira, cujas sementes são a matéria-prima, o grupo coletou amostras em diferentes regiões do país para comparar teores e respostas. “Para padronizar o extrato, você tem que padronizar o insumo vegetal”, resume a pesquisadora. Com esses dados, o grupo definiu a origem e a melhor época de coleta de cada espécie.
A pesquisa foi desenvolvida por alunos de pós-graduação de diferentes unidades, como a Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) e o Instituto de Biologia (IB). Ela recebeu fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi registrada no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (SisGen), que prevê a repartição de benefícios com as comunidades tradicionais.
Para Foglio, esse cuidado é extremamente importante. “Isso está muito ligado à integridade em pesquisa: é a gente dar crédito para quem merece o crédito”, afirma a professora.
Patente
A patente foi concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), e um acordo de licenciamento foi firmado em 2025 com a Phytochem. Sediada em Paulínia (SP), a empresa foi fundada em 2024 para levar ao mercado os conhecimentos e as patentes da Unicamp.
Uma das sócias-fundadoras é Ilza Maria Oliveira Sousa, também inventora da tecnologia. Ex-técnica do laboratório no CPQBA, ela fez mestrado e doutorado na Unicamp sob orientação de Foglio e participou das etapas da pesquisa. “Ela foi uma peça-chave em todos esses desenvolvimentos”, diz a professora.
O próximo passo depende de financiamento. A Phytochem submeteu um projeto à fase 1 do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da Fapesp. Se for aprovado, a empresa pretende desenvolver primeiro o produto de grau cosmético, que precisará atender às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Uma eventual versão como medicamento ainda dependerá de estudo clínico.
Patente foi concedida pelo Inpi; acordo de licenciamento foi firmado com empresa
“Sempre me inquietou ver tantas pesquisas valiosas nascerem dentro da universidade, com um potencial enorme de transformar vidas, mas sem conseguir chegar às pessoas que mais precisavam delas. Eu não queria que todo esse conhecimento ficasse apenas nas páginas de uma tese ou nas prateleiras de uma biblioteca. Foi desse desejo que nasceu a Phytochem: transformar conhecimento científico em soluções reais para a sociedade”, comenta Oliveira Sousa.
Prêmio
Esta é a 19ª edição do Prêmio Inventores que a Inova Unicamp organiza com o propósito de reconhecer e valorizar os inventores engajados na transferência de tecnologias da Universidade e na criação de empresas spin-offs acadêmicas.
Premiados
Mary Ann Foglio, Rosana Tarkany Basting, Humberto Moreira Spindola, Leila Servvat Medina, Ilza Maria Oliveira Sousa, Nubia de Cassia Almeida Queiroz, Rodney Alexandre Ferreira Rodrigues, João Enersto de Carvalho, Rogério Grando e Vanessa Helena da Silva Souza foram premiados na categoria Propriedade Intelectual Licenciada no Prêmio Inventores 2026.
Matéria: Ana Paula Palazi | Fotos: Igor Alisson | Jornal da Unicamp.








