Super El Niño 2026 não resultará necessariamente em mais destruição se ações de prevenção forem adotadas
Professor da Unesp ressalta que a intensidade dos impactos pode ser reduzida se poder público for eficaz em ações preparatórias e implementação de planos de contingência

A última quarta-feira (29) trouxe uma dura lembrança da presença dos eventos climáticos extremos no cotidiano dos brasileiros em todas as latitudes. Na região Sul, a passagem de um tornado causou danos severos em três municípios (Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho), no estado do Rio Grande do Sul, além de deixar quatro feridos. No Sudeste, rajadas de vento que chegaram a 90 km/h no estado do Rio de Janeiro causaram transtornos e mortes. Óbitos e destruição também foram registrados no Estado de São Paulo, onde a velocidade do vento alcançou impressionantes 120 km/h.
No mesmo dia, na abertura da reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), autoridades e cientistas conversavam sobre um novo programa destinado a preparar as cidades brasileiras para a ocorrência de fenômenos climáticos extremos nos próximos meses, durante a temporada 2026–2027 do fenômeno climático conhecido como El Niño.
Meteorologistas de todo o mundo já alertaram que a expectativa é de que o El Niño atinja alta intensidade. Porém, é preciso ressaltar que as cenas de destruição observadas na quarta-feira não foram causadas por ele. A chegada de uma frente fria combinou-se com uma massa de ar quente e seco que já pairava sobre as regiões afetadas, e o resultado foi uma espécie de choque térmico que ocasionou a chamada frente de rajada.
A ocorrência do El Niño em 2026 foi confirmada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) no dia 11 de junho. Segundo as previsões, o fenômeno pode vir a ser o mais intenso já registrado, superando o recorde do El Niño de 1877/1878, embora as previsões de longo prazo apresentem baixa confiabilidade.
O El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Seus principais efeitos devem ser sentidos durante a primavera e o verão do Hemisfério Sul, embora ainda não seja possível definir, antecipadamente, como o fenômeno será classificado quanto à sua intensidade. Os meteorologistas estimaram uma probabilidade de 63% de que a elevação da temperatura da superfície oceânica ultrapasse 2,0 °C. Nesse caso, o fenômeno seria classificado como “muito forte”, mas o tema deve ser tratado com cautela.
Acidentes podem ser evitados
José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e docente do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais da Unesp, em São José dos Campos, alerta que, independentemente da classificação do El Niño, como “forte” ou “muito forte”, a dimensão dos danos dependerá das medidas adotadas pelas autoridades para mitigar os riscos.
“Fala-se que o El Niño vai gerar mais desastres, mas isso não necessariamente vai ocorrer. Pode acontecer de cair muita chuva em uma região, mas se os administradores tiverem aprendido a lição deixada pelos eventos anteriores e tiverem construído barreiras de proteção ou limpado os bueiros o impacto diminui”, explica o pesquisador. “Ou seja, não necessariamente vamos ter mais desastres durante o El Niño. Vamos ter mais chuvas intensas. Claro, pode haver mais desastres se continuarmos construindo em áreas de risco ou vulneráveis e se continuarmos negligenciando, por exemplo, a população vulnerável de idosos que não tem como sair de casa em caso de alerta”, diz ele.
É preciso ressaltar que, assim como ocorreu nesta semana, nem todos os eventos climáticos extremos que poderão ocorrer nos próximos meses serão, necessariamente, decorrentes do El Niño. O aquecimento global é outro elemento crucial para a ocorrência desses fenômenos de alta intensidade. A combinação entre El Niño e aquecimento global pode ser determinante para a ocorrência de temperaturas muito elevadas nos próximos meses.
Historicamente, o El Niño está associado ao aumento do risco de chuvas acima da média no Sul do Brasil e à redução das precipitações no Norte e Nordeste, causando secas que atingem a Floresta Amazônica e o Pantanal e podem se estender até 2027. Marengo relata que o Cemaden tem sido bastante requisitado pelas autoridades para apresentar análises sobre o quadro climático atual e discutir medidas para reduzir os impactos dos eventos extremos. Mensalmente, são realizadas reuniões com a Casa Civil da Presidência da República e com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, para as quais a equipe de cientistas produz notas técnicas.
“Em situações passadas, os governos começaram a agir contra os incêndios florestais apenas depois que eles já estavam instalados. Agora, soubemos, durante audiências realizadas na Câmara e no Senado, que já há informações de que os estados de Mato Grosso e Amazonas, por exemplo, estão com brigadas de incêndio prontas”, conta o cientista.
Marengo comenta também sobre a situação do Rio Grande do Sul. Dentre as medidas para mitigar os riscos de enchentes, o estado reconstruiu as comportas do Lago Guaíba, mecanismo destinado a evitar que o acúmulo de água invada as ruas da cidade, mas que falhou durante as chuvas que atingiram o Estado em 2024.
“Se essas iniciativas vão funcionar, é outra história. Mas já existem planos de prevenção e contingência nas cidades. Um lado positivo de todo esse alarde [sobre o El Niño] é que o governo escutou”, diz Marengo.
Iniciativas do Cemaden querem criar cultura de prevenção de desastres
Além de atuar junto aos tomadores de decisão, o Cemaden também está envolvido em iniciativas de conscientização voltadas à população em geral.
Uma delas é o programa Cemaden Educação, que desde 2014 atua junto às comunidades escolares para fomentar uma cultura de percepção de riscos e prevenção de desastres. Em outra frente, o Cemaden se juntou ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), ao Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), ao Serviço Geológico do Brasil (SGB) e à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) para produzir boletins mensais sobre o El Niño, com o objetivo de apresentar o monitoramento e as previsões sobre o fenômeno para 2026 e 2027. A primeira edição do Painel El Niño 2026–2027 está disponível aqui.
Além disso, o Cemaden realiza reuniões mensais de Avaliação e Previsão de Impactos de Extremos, que visam contribuir com os setores produtivos, agropecuários, de energia, transportes, infraestrutura e saúde, além de subsidiar a tomada de decisões estratégicas por parte dos órgãos relacionados à gestão de riscos e desastres.
A próxima reunião está marcada para o dia 12 de agosto e terá como temas a situação atual do El Niño, a avaliação dos alertas e danos do último mês, o diagnóstico e os cenários de inundação, as condições de seca e o risco de fogo, além de uma sessão de perguntas e respostas. O encontro é público e pode ser acompanhado no canal do Cemaden no YouTube.
“Desejamos que todas essas medidas de prevenção que os governos estão anunciando ajudem a reduzir os impactos. Infelizmente, teremos problemas, porque não há como evitar o El Niño. Mas esperamos que o impacto seja o menor possível”, diz Marengo.
Matéria: Carolina Fioratti | Jornal da Unesp.



