Tarifaço e postura de governo
Os especialistas enfatizam que não há espaço para retaliações; o momento é de negociação
A situação comercial entre o Brasil e os Estados Unidos entra em uma situação delicada a partir da aplicação do tarifaço sobre produtos exportados, que pode chegar a 37,5%, dependendo do setor.
A taxação entrou em vigor nesta sexta-feira (24) e não há espaço para uso político sobre o que está ocorrendo. Ou melhor, espaço há, sob o risco de se falar muitas bobagens, como vem acontecendo com o pré-candidato a presidente, Lula.
Se existe uma saída razoável, ela é a diplomacia, que exige o entendimento dos motivos americanos e os contrapontos brasileiros, até se chegar a um acordo razoável para ambas as partes, uma vez que o tarifaço também afeta a economia americana em vários aspectos.
Segundo o jornal Estadão, o setor industrial já projeta perdas. “A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) estima que a tarifa total de 37,5% reduzirá ainda mais a competitividade das máquinas e equipamentos brasileiros nos Estados Unidos e poderá provocar uma queda de 10% a 11% nas exportações do segmento para aquele mercado”.
É importante destacar que o forte das exportações da região de Piracicaba está exatamente em máquinas e equipamentos. É evidente que o impacto não é imediato, uma vez que os contratos já firmados entre fornecedores e compradores têm um prazo de duração, mas certamente os danos no comércio bilateral virão com mais força no início do próximo ano. Por isso, são fundamentais as negociações entre as partes, que estão em andamento.
Donald Trump quer dificultar a vida da China enquanto o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) aponta irregularidades “relacionadas ao trabalho forçado”. Por isso, a Suprema Corte americana, segundo o jornal, tem exigido uma fundamentação mais clara para a imposição de tarifas segundo esses termos.
A Lei da Reciprocidade Econômica, tão propalada por Lula, não deve ser levada a sério pelos negociadores, uma vez que ela tende apenas a intensificar os ânimos, sem resolver o problema, mesmo sabendo que o tarifaço está sendo uma medida arbitrária. Tanto é que “representantes da indústria brasileira defendem que o governo mantenha a estratégia de negociação. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, afirmou que o Executivo acertou ao não retaliar imediatamente os Estados Unidos após o anúncio da tarifa de 25% e disse acreditar que essa postura será mantida”.
Uma saída sempre apontada para minimizar a questão é a diversificação de mercados. Mas isso não acontece do dia para a noite, como bem apontou o gerente regional do Ciesp-Piracicaba, Homer Scarso, em entrevista ao site viletim.com.br. A tese é enfatizada pela economista e diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (CINDES), Sandra Polónia Rios.
Segundo o que ela reforça ao Estadão, “a imposição das novas tarifas torna ainda mais importante a estratégia de diversificar os destinos das exportações brasileiras”. Para ela, “a melhor resposta é ampliar acordos comerciais, promover exportações e melhorar o ambiente de negócios, enquanto medidas de retaliação, como a aplicação da Lei da Reciprocidade, podem elevar custos para o próprio país sem garantir a reversão das tarifas”.
O cenário para o comércio bilateral Brasil/EUA não é bom, mas pode piorar com a brincadeira de Lula de querer dar palanque a ideias erradas e fazer voto com o cenário. Uma das brincadeiras, no momento, é preservar a tal de soberania, que pode ser classificada, segundo Ivan Lessa e Millôr Fernandes, como “o último refúgio dos canalhas”.





