Temas para textos longos, só que deu uma preguiça...
Cada pedaço é um “tora” de algo maior, que um dia (quem sabe), vira textão. Mas não agora, daqui a pouco tem França x Paraguai
Livros e seus cheiros
Pode-se argumentar tanta coisa a favor dos livros de papel na polêmica “livros físicos vs e-books”, e vocês vêm falar de… cheiro?
Jamais vou entender este fetiche. Sou daqueles que se sentem mais à vontade entre prateleiras cheias de volumes do que em arquibancadas de estádios de futebol ou praças de alimentação de shoppings ultraluminosos.
Mesmo assim, não sou atraído por autores, histórias ou ideias pelo olfato, por um motivo simples: tenho rinite alérgica.
Por mais que eu goste de folhear uma edição em português setecentista dos “Lusíadas”, não posso evitar os olhos vermelhos, o comichão, e o inevitável espirro. Ou série deles, encarreado um no outro.
Outra coisa que me prejudica muito, em meu ofício de historiador, é a pele das mãos ficar ressecada só de olhar para uma estante de revistas, livros e documentos do começo do século XX. Adoro vê-los, folheá-los, mas nem de longe, cheirá-los. Tenho de usar, para manuseá-los, o que é obrigatório para pesquisadores: máscara facial e luvas. Para mim, adicione-se o óculos de segurança, para não irritar os olhos, que a coisa é braba.
Mas dirão vocês: o cheiro dos livros novos! Para quem trabalha em editora ou em jornais, cheirá-los quando chegam da gráfica é delicioso, isso para quem gosta, ou gostava de papel, quando eles existiam. É um cheirinho que, curiosamente, não ataca a minha rinite. Para mim, lembra o cheiro do biscoito de polvilho.
De qualquer maneira, por ter tido sempre problemas respiratórios, meu amor pelos livros, jornais, revistas e outros impressos, nunca passou pelo olfativo. Chega no máximo ao tátil, ao apreciar texturas de papeis de edições impressas em papel pólen (hoje, virou carne de vaca), vergê, couchê, nomes familiares para quem trabalhou com gráfica e design. Porém, sempre predominou o prazer visual, talvez não seja à toa que tenha trabalhado com texto, design e ilustração. Até impressão (em silk-screen) já cometi. Só não fiz fotografia nesta área impressa, mas de vez em quando, até arrisco.
Falar do “cheiro dos livros” como um argumento a favor dos livros soa, a mim, como um surdo ouvindo (?) elogios sobre a última sinfonia de Beethoven.
Estar numa roda de autores em que, quase babando, fala-se da atração por literatura baseada no odor exalado pelo papel ou tinta de impressão, além da sensação olfativa do recém-impresso, me coloca na mesma situação de um eunuco numa roda de libertinos.
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Delírio humanoide no deserto das IA’s
Às vezes, em meu devaneio solipsista, acredito estar convivendo cotidianamente no deserto da Internet morta, falando para zumbis digitais, robôs de empresas com nomes futuristas: OpenAI, Google, Grok, Antropic.
Mas o futuro é agora, disseram anteontem, e já vivemos sob o Estado de Sítio das IA’s.
Acordo, dando-me um tapa na cara (ainda não tem uma IA para fazer isso, mas amanhã vai ter) e digo: mas quem vai notar que você está sozinho, a não ser você mesmo? Tome tenência, tome Bromil, e volte à carga.
Algum robô desses aí vai acabar comprando o que você está vendendo.
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Bônus: frases soltas vendidas a quilo
Só acredito em epifanias causadas por grande desconforto existencial. Leves desconfortos existenciais não são desconfortos, são crises existenciais de pelúcia.
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Mais uma modinha irritante: decolonialismo. De novo, algo sem pé nem cabeça. Mas que fará a carreira de muitos e muitos acadêmicos.
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Muitas vezes, a convicção arrebata mais do que a verdade.
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Acho que as pessoas estão precisando de palavras de ânimo, mesmo que sejam totalmente falsas e demagógicas. Melhor a mentira que traz esperança do que a verdade dolorida e desanimadora - para quem gosta de soluções fáceis, como as de coaches falastrões e alucinados, como Pablo Marçal.
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Teoria do discorrer sobre assuntos obscuros, ou: qualquer assunto vira literatura na mão de um grande escritor
E, olha só, você chegou até aqui. Movido sabe-se lá por qual motivo, pela absoluta falta do que fazer, curiosidade ou, quem sabe, algum gosto pelo que escrevemos aqui no Viletim. Um prêmio: uma teoria minha, que ainda hei de desenvolver melhor. Mas hoje não, que logo mais, tem jogão da copa, França x Paraguai.
A teoria é assim: um dos segredos da grandeza dos prosadores máximos é, em algum momento da narrativa, começarem a explicar um assunto que é compreensível somente para uma meia dúzia de pessoas em todo o mundo.
Das duas uma: ou ele inventou aquilo (como Tolkien, que discorre longamente sobre a tradução dos nomes de famílias dos hobbits entre as línguas da Terra Média… que ele mesmo inventou), ou realmente é assunto de especialista.
Vi que autores de ficção científica adoram fazer isso, mas quando vi que era prática de autores “mainstream”, transformei em uma lei geral.
A postagem da Juliana Fonseca Pontes, no Substack (leia abaixo, no print) bateu com a minha teoria, na verdade, é a mesma coisa. Mas o mérito é dela, pois eu demorei para formular a ideia, e ela o faz com muito mais propriedade e graça. Síntese: todo(a) grande autor(a) conhece muito bem um assunto que nós não dominamos, do ponto de vista técnico, e não literário. Que ele / ela transforma em assunto literário em sua narrativa, e acaba nos encantando com a constatação da nossa ignorância, mas também, com a conquista de um novo saber.




