Pesquisa aplica abordagem inovadora em estudo sobre terras raras em Poços de Caldas (MG)
Em parceria com pesquisadores da UFRJ, atividade de campo reforça protagonismo da Universidade na área
Um grupo de pesquisadores do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) esteve em Poços de Caldas (MG) no final de fevereiro para uma atividade de campo em uma área que integra um dos maiores depósitos de elementos de terras raras (ETRs) do mundo – o depósito Caldeira, um maciço alcalino reconhecido internacionalmente por seu potencial mineral. Coordenada pelo docente do IG Diego Fernando Ducart, a atividade teve como objetivos a descrição geológica detalhada de furos de sondagem, a coleta sistemática de amostras, a aquisição de dados espectrais e geoquímicos com múltiplos equipamentos e a integração de dados com outras fontes.

“Os ETRs são essenciais para tecnologias de alta performance, incluindo baterias, turbinas eólicas, ímãs permanentes de alto desempenho, veículos elétricos, dispositivos eletrônicos e equipamentos médicos. Apesar do nome, muitos ETRs não são necessariamente raros na crosta terrestre, mas sua concentração em depósitos economicamente viáveis é incomum”, explica Ducart. No depósito Caldeira, os ETRs estão principalmente associados a argilas que passaram por modificação físico-química por ação da água, do oxigênio ou de ácidos orgânicos durante processos intensos de decomposição.
Diferentemente de muitos minerais metálicos, a caracterização correta dos ETRs exige técnicas analíticas avançadas. Tais elementos não são identificados a olho nu, nem mesmo com métodos tradicionais de campo, como a lupa de mão. Para superar esses desafios em Poços de Caldas, “a equipe utilizou equipamentos portáteis de última geração, capazes de gerar dados em tempo real diretamente nos testemunhos de sondagem”, segundo Ducart.
Foram utilizados um analisador de fluorescência de raios-X (pXRF, empregado para determinar a composição química de amostras), um espectrômetro de reflectância de alta resolução, cobrindo desde o espectro visível (VIS) até o infravermelho de ondas curtas (SWIR), e um espectrômetro FTIR, cobrindo o infravermelho termal (TIR) — fundamentais para identificar assinaturas espectrais características dos ETRs, além dos minerais com ETRs agregados. “A integração dessas técnicas hiperespectrais e ultraespectrais representa uma abordagem inovadora na prospecção mineral no Brasil, permitindo maior eficiência, redução de custos analíticos e geração de modelos mais robustos sobre os processos de formação do depósito”, explica o coordenador da atividade em Poços de Caldas.
Além de Ducart, participaram da atividade os docentes da Unicamp Carlos Roberto de Souza Filho, Alfredo Borges de Campos e David Jozef Cornelius Debruyne, o docente da UFRJ Claudio Gerheim Porto, o pesquisador da Unicamp Raphael Bianchi Hunger, os alunos de pós-graduação da Unicamp César Henrique Bezerra de Farias, Juan Felipe Galán, André Martins Leal, Anna Beatriz Gomes Tetzner e Pedro Henrique Hokama, e o aluno da UFRJ João Antônio Casado do Nascimento. “O número expressivo de pesquisadores envolvidos foi fundamental para garantir a cobertura completa dos pontos de amostragem, medição e análise”, explica o coordenador da atividade.
O estudo ocorreu no escopo de dois projetos de pesquisa de grande relevância científica: “The Rare Earth Supergene Caldeira System: From Ore Forming Processes to Recovery”, coordenado por Rodrigo de Melo, docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e financiado pela Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (ADIMB), e “Maximizing the Use of Hyper- and Ultra-Spectral Techniques for Prospecting Rare-Earth Elements in Brazil”, coordenado por Diego Ducart, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo Ducart, “há atualmente diversos trabalhos de mestrado e doutorado em desenvolvimento no âmbito desses projetos, reforçando a formação de recursos humanos altamente qualificados em um tema estratégico para o Brasil”.
Ducart lembra que o estudo do depósito Caldeira contribui para compreender os processos geológicos de formação de depósitos de ETRs e aprimorar metodologias de prospecção mineral com base em técnicas espectrais avançadas, além de apoiar o desenvolvimento de cadeias produtivas ligadas à transição energética. Estudos como esse fundamentam a consolidação do protagonismo da Unicamp na área de pesquisa mineral estratégica. A iniciativa em Poços de Caldas “reforça a integração entre universidade, agências de fomento e setor produtivo, promovendo ciência de excelência com impacto direto no desenvolvimento tecnológico e econômico do país”, finaliza Ducart.
Matéria: Eliane Fonseca Daré | Jornal da Unicamp







