Terremotos de alta magnitude registrados recentemente em diferentes partes do mundo chamaram a atenção para os movimentos das placas tectônicas. Embora se desloquem apenas alguns centímetros por ano, essas placas são capazes de provocar grandes tremores. Mas os terremotos nem sempre são causados pelos mesmos processos. As placas apresentam três movimentos básicos, que ajudam a explicar a origem de diferentes eventos sísmicos, como explica José Alexandre Nogueira, sismólogo do Centro de Sismologia da USP.
“A tectônica de placas tem três movimentos básicos. O primeiro ocorre quando as placas vão de encontro uma à outra. Se uma delas tiver maior densidade, como a placa de Nazca em relação à Sul-Americana, ela passa por baixo, dando início ao processo de subducção. Já o movimento transcorrente ocorre quando as placas deslizam lateralmente. Há ainda o movimento de afastamento, quando as placas se separam.”
Esses movimentos ajudam a explicar também as diferenças na origem e na profundidade dos terremotos registrados em cada região. Na Colômbia, por exemplo, a interação entre a placa de Nazca e a Sul-Americana ocorre pelo movimento de subducção, enquanto, na Venezuela, predomina o movimento transcorrente, em que as placas deslizam horizontalmente.
“Na Colômbia, a placa de Nazca mergulha sob a Sul-Americana, o que explica essa maior profundidade. Já na Venezuela, onde há uma movimentação horizontal entre as placas, os terremotos costumam ocorrer mais próximos da superfície”, explica o especialista.
Apesar da sequência recente de terremotos, alguns registrados em regiões geograficamente próximas, o sismólogo explica que os eventos não indicam, necessariamente, um aumento da atividade sísmica global. Segundo ele, terremotos de magnitude superior a 7 ocorrem, em média, 14 vezes por ano, mas essa frequência pode variar.
“É apenas uma coincidência. Esses terremotos aconteceram em zonas sismicamente ativas, onde é comum e até esperado que ocorram tremores, como na Venezuela, na Colômbia e no Japão. Em média, temos 14 terremotos por ano de magnitude superior a 7. Até agora, foram cerca de 11, então este pode ser um ano um pouco acima da média, mas essas variações são normais. Em 2010, por exemplo, tivemos cerca de 24.”
Os terremotos, porém, podem ocorrer em diferentes contextos tectônicos. Além das áreas onde as placas se encontram e se movimentam por subducção, afastamento ou deslocamento lateral, também existem tremores registrados no interior das placas, em regiões chamadas de zonas intraplacas. É o caso do Brasil, que está distante das principais bordas de placas, mas ainda assim pode registrar terremotos. Segundo Alexandre, os tremores também podem ter outras origens, embora, no contexto da tectônica de placas, esses sejam os principais ambientes relacionados aos terremotos.
“Dentro do contexto da tectônica de placas, esses terremotos podem acontecer em diferentes ambientes. Há os associados à subducção, ao afastamento e à movimentação lateral, mas também os intraplaca, que ocorrem longe das bordas das placas, como no Brasil”, completa.
A ocorrência de um terremoto não significa, necessariamente, que ele vá provocar grandes danos. O impacto depende de fatores como a magnitude, a profundidade do tremor, a proximidade de áreas povoadas e a resistência das construções. Segundo Nogueira, os terremotos mais danosos tendem a ser aqueles de maior magnitude e que acontecem mais próximos da superfície.
“Os mais danosos são de alta magnitude e os que acontecem em profundidades mais rasas. Então, esses terremotos que acontecem muito próximos da superfície são muito danosos. Mas o quão danosos eles são depende muito de onde esse terremoto acontece também. Próximos a grandes centros urbanos, vai ser um terremoto muito mais devastador”, explica o especialista.
A percepção de que os terremotos estão mais frequentes também pode estar relacionada à maior circulação de informações sobre esses eventos. Segundo o sismólogo, apesar da necessidade de ampliar as séries históricas para análises estatísticas mais precisas, os dados disponíveis atualmente não indicam um aumento na frequência dos terremotos.
“O que a gente entende hoje é que não tem um aumento nos terremotos. O que acontece é que você tem mais informação, a mídia está mais atenta a isso e também aconteceu uma grande catástrofe ali na Venezuela. Então, os olhos estão voltados para terremotos ultimamente. Você também tem as mídias sociais, que provocam um impacto muito grande. Quando você visualiza um vídeo, por exemplo, de uma catástrofe dessa, isso marca. Então é comum que as pessoas fiquem mais com medo e os olhos estejam voltados para terremotos ultimamente. Mas nada indica que a frequência dos terremotos esteja aumentando”, finaliza.
Matéria: Luís Martins | Jornal da USP.





