Tião Carreiro, um gênio da música brasileira
A música caipira e a tradição da música popular (mesmo)

Um dos gênios da música brasileira, criador do pagode sertanejo, foi José Dias Nunes, ou melhor dizendo, Tião Carreiro.
Os universitários adotaram sua música, especialmente os de cursos de campi no interior, como os da Esalq / USP, em Piracicaba. “Modão” do “bão” é ouvido em repúblicas, para marcar que os jovens estão na terra dos pé-vermeio. Mas não confundam as coisas: Tião Carreiro não tem nada a ver com sertanejo universitário, embora tenha a ver com o universitário que se pretende sertanejo, caipira, raiz.
Tião Carreiro era preto. O pagode sertanejo tem raízes fortes em ritmos musicais criados por escravos, como o jongo e o samba sertanejo. Antes que me acusem de woke, politicamente correto: não afirmo que a música dele é melhor ou pior por causa da sua ancestralidade africana. E sim, porque ela é boa. Por quais critérios? Ouça, e se não tiver preconceitos (musicais), prestar atenção nas letras e entrar no ritmo da viola, nem preciso explicar muita coisa.
“Ara Pó”, um jongo de Jose Nunes e Lourival Dos Santos.
Relação inusitada do samba com a música caipira
O samba e a música caipira foram separados no berço, dividindo-se artificialmente em dois gêneros diferentes. Esta “judiação” foi realizada pela indústria do disco no século XX. Acabou por deixar o “samba carioca” mais calcado na percussão. Pensando de maneira clichê, é claro. Notem como o “samba tradicional” de Cartola, Nelson Sargento e Paulinho da Viola, tem a melodia como protagonista. O violão é um instrumento de corda que tomou o lugar da viola no samba. Mas a história não é tão simples, nem acaba desse jeito.
O violão de seis cordas, a viola de doze cordas, o cavaquinho, o bandolim (todos ancestrais dos instrumentos que conhecemos como alaúde) juntaram a melodia das músicas populares europeias – mazurcas, valsas, polcas, habaneras – com os ritmos africanos, dos nossos escravizados. A ênfase dada ao ritmo ou à melodia, a preferência por este ou aquele instrumento, acabou por caracterizar compositores e arranjadores, primeiro na era das partituras para piano, depois na era do disco e do rádio.
Quando os gêneros foram rotulados, separou-se sambas sertanejos de sambas cariocas ou baianos, os maxixes dos sambas, os lundus das músicas ponteadas das violas caipiras. E as modas de viola dos sambas e choros.
Um adendo: as gravadoras e rádios chamavam de “música sertaneja” toda aquela que não tinha aparência de música produzida nas cidades. Até certa época, Luiz Gonzaga e Tonico e Tonico estavam no mesmo balaio, eram “música sertaneja”. O rótulo não estava inteiramente errado, as bases são as mesmas. Mas as modas de viola, o cururu, a cana verde, e outras tradições do sertão paulista, mineiro e goiano são um pouco diferentes da música dos sertões do Nordeste, ou do pampa gaúcho.
Tião Carreiro é genial porque ordenou de maneira diferente vários elementos de um gênero de rádio, a música sertaneja caipira, que já era sedimentada com vários clichês via Tonico e Tonico, Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, e outros. Embora todos os músicos citados tenham sido embalados, uns mais, outros menos, em arranjos que faziam concessões à música de rádio mais popular da época, como tangos, música italiana (daí a presença da sanfona, que antes não existia na música “raiz”), fados e até música norte-americana (fox-trote, ragtime), ainda se mantinha a referência à raiz de onde todos tinham vindo, a música com viola, dedilhada, com ponteios - que lembram os solos das guitarras portuguesas dos lundus. Vejam este lundu aqui e me digam se não faz eco aos ponteios das violas caipiras:
Mas o que fez Tião Carreiro de tão original?
Duas coisas:
Primeira, mudou a ênfase das vozes em terça das duplas caipiras. O intervalo em terça é a diferença de duas notas entre uma voz e outra. Veja um exemplo didático:
Desde as primeiras gravações, sempre havia a primeira e segunda voz, sendo que a primeira voz sempre foi a mais aguda, no registro do tenor, a que sobressaía. A segunda voz sempre foi a “do fundo”, mais grave, no registro do baixo.
Normalmente, o cantor da primeira voz cantava a letra “liso”, agudo. O da segunda voz, cantava uma terça abaixo.
Tião Carreiro cantava “liso”, grave, só que no registro do baixo. Pardinho, tenor, cantava uma terça acima. E assim, Carreiro sempre fez a segunda voz, que se destacava. Pardinho e os outros parceiros – Coqueirinho, Paraíso, Praiano – faziam a primeira. O melhor deles, no entanto, foi Pardinho, parceiro constante.
Que diferença isso faz? Tião Carreiro tinha a voz grave com uma riqueza e profundidade vista depois somente com Noriel Vilela, do grupo “Os Cantores de Ébano” – sucesso com “Uirapuru” em 1962. Tião Carreiro e Pardinho estouraram com o “Pagode em Brasília”, de 1960. Vilela, porém, não alcançou a relevância nem o peso musical do violeiro (embora tenha feito sucesso com a música “16 toneladas”).
Segunda, o novo ritmo da viola que Tião Carreiro criou. Violeiro de mão cheia, acelerou o toque da catira, inspirou-se no ritmo do cipó preto, juntou tudo com o recortado mineiro (o músico era natural da cidade mineira de Monte Azul), em suas próprias palavras. A catira tinha a percussão que os pés batendo no chão traziam à música, na dança típica. O cipó preto e o recortado mineiro inspiraram a melodia com os ponteados e rasqueado.
No vídeo abaixo, o biógrafo de Tião Carreiro, Leandro Valentin, ensina tudo isto na viola. Caba não, mundão.
Lourival dos Santos (compositor de “Rio de Lágrimas”) e Teddy Vieira (compositor de “Chico Mineiro”, “Menino da Porteira” e outros tantos clássicos da música caipira), trabalhando na gravadora RCA Victor, ouviram a gravação do novo ritmo em 1959. Tião Carreiro e Pardinho já se apresentavam na rádio Cultura de São Paulo desde 1955. Os dois compositores comentaram: “parece um pagode”, palavra que na época era sinônimo de “festa” - (por isso o ritmo carioca, associado ao samba, também se chama pagode). Estava batizado então o pagode sertanejo. Logo, gravaram o compacto com “Pagode de Brasília”, no ano seguinte, 1960.
Tião Carreiro é um desses artistas que, quando aparece no mundo, chega pronto. Assim como João Gilberto, que quando estourou, já tinha o ritmo da Bossa Nova todo no violão, Carreiro, quando explode em sucesso, já tinha o “pagode sertanejo” posto em bandeja para nosso desfrute. É assim com o compacto que trouxe “Pagode em Brasília”, que depois seria estrela no primeiro LP.
“Pagode em Brasília” pode até ser oportunista na letra, pois aproveita o assunto do momento, a inauguração da nova capital federal para chamar a atenção, mas vai muito além de uma musiquinha da moda – junta os talentos dos letristas de Teddy Vieira e Lourival dos Santos com o novo ritmo das dez cordas. “Nove e nove” e “Minas Gerais” também mostram a habilidade dos três, parceria tão icônica quanto a de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ou a de Erasmo e Roberto Carlos.
Vale dizer que a faixa-título, “Rei do Gado”, uma moda de viola mais tradicional, com ponteado acompanhando os versos, de autoria-solo de Teddy Vieira, tornou-se canção obrigatória no repertório de qualquer cantor sertanejo que tenha ligação com suas raízes.
Noites e noites com os “modões” de Tião Carreiro embalaram a minha infância, não tanto com o ponteado da viola – os happy hours da oficina do meu pai não tinham músicos mais habilidosos que Cebolinha & Cheiro Verde (meu pai e o colega Brair). Mesmo assim arriscavam “Boiadeiro Punhos de Aço”, “A Coisa tá feia”, “O mundo no avesso”, “Boiadeiro de Palavra” (machista até a raiz do cabelo) e “Rei do Gado”. Em casa, a vitrola tocava “Ara Pó”, um jongo, “Amargurado”, “Hoje eu não posso ir”, “Empreitada Perigosa”. Esta última, tinha os versos, que como tantas outras modas, contavam uma história que, para mim, era fascinante:
Já derrubamos o mato / Terminou a derrubada / Agora preste atenção / Meus amigo e camarada / Não posso levar vocês / Na minha nova empreitada / Vou pagar tudo que devo / E sair de madrugada...
E mais adiante:
Eu vou roubar uma moça / De um ninho de serpente / Ela quer casar comigo / A família não consente / Já me mandaram um recado / Tão armado até os dentes / Vai chover balas no mundo / Se nóis topar frente a frente...
“Vai chover bala no mundo” é uma das imagens mais engraçadas e pitorescas que eu conheço.
Que dizer mais?
Se quiser ouvi-lo porque gosta de música caipira “raiz”, ouça. Ou se faz questão de ouvir música brasileira.
Se quiser ouvir uma viola caipira bem tocada, ouça.
Se quiser poesia com a alma do povo, enganosamente simples, mas feita com Engenho e arte, ouça.
Se quiser ouvir o caipira com toda a sua nobreza de alma mas também com suas misérias, ouça.
E se quiser ouvir Tião Carreiro também por ter sido preto, ouça.
Coloque seus preconceitos de lado, quais forem, e ouça Tião Carreiro. Vale a pena.
Indicação:
tiaocarreiro.com.br - site oficial, com informações e fotos sobre a vida e carreira do músico.



