Tia Nair
Na edição passada, escrevi sobre três tios que marcaram minha memória. Não tive tanto contato com eles, comparado à relação que tive com as minhas tias.
Uma delas era minha madrinha. Recordo duas coisas que ela me fez e que marcaram profundamente minha infância.
Eu não tinha ainda uma camisa de tergal para ir à escola. Minhas camisas brancas eram mais simples e não tão brancas.
Imagine uma família com onze filhos. Minha mãe estava mais preocupada com a higiene de cada um e com a frequência às aulas.
Se comprasse uma camisa bacana para um, teria que comprar meia dúzia. O dinheiro não dava.
Até que, num certo domingo, creio que do meu aniversário, chegou minha tia com uma camisa de tergal maravilhosa.
Era meu orgulho ir para a escola radiante e feliz. Foi o presente mais marcante da minha vida. Como o tergal é resistente, recordo que usei a camisa até não caber mais.
Outra coisa que ela me fez está relacionada à minha saúde. Modéstia à parte, eu cheguei a ser relativamente bom de bola.
Num domingão na Esalq, em que passávamos a manhã correndo atrás da pelota, resolvi dar o drible da vaca num gordinho do time adversário.
Ele caiu sobre a minha perna. Ao tentar escapar do peso, quebrei o tornozelo. Cheguei em casa na rabeira da bicicleta do Zé Perecin.
Minha mãe encheu meu tornozelo com salmoura e enfaixou. No dia seguinte, minha perna estava roxa/esverdeada até a canela.
Quando minha tia Nair foi visitar minha mãe e viu aquilo, exigiu que eu fosse levado ao pronto-socorro imediatamente.
Voltei engessado. Em outra crônica falo mais sobre esse gesso, porque ele foi motivo de um grande desastre para a minha vida adulta e universitária.
Tia Maria
Vou agora à segunda tia, que era dona da pensão do bairro Monte Alegre. Ela era uma cozinheira exemplar e servia diariamente comida para um exército de trabalhadores da roça.
Para quem não sabe o que é caipira, eu tive a oportunidade de fazer essa imersão. Mas no grupo havia negros e italianos. Todos caipiras, segundo a teoria de Cornélio Pires.
O frango frito da minha tia era um primor. Até o ovo frito estalado sobre o arroz com feijão era de dar água na boca. Minha infância tem o sabor da tia Maria.
Tia Lurdes
Tia Lurdes era confeiteira das melhores. Seu bolo parecia sempre que estava sendo preparado para um casamento.
O café da tarde na casa dela era uma sensação de felicidade sem fim. Creio que fosse o açúcar. Mas antes de tudo, era o sabor de seus quitutes.
Mortes
A tia Nair morreu da morte morrida. A tia Lurdes está vivona e deve fazer ainda muitas guloseimas saborosas.
Minha tia Maria merece um parágrafo especial. Ela foi passear com a turma da igreja São Judas Tadeu. Creio que para Aparecida do Norte.
Ao chegar da viagem, desceu do veículo e foi distraidamente para o lado da avenida. Morreu atropelada de forma triste, lamentável e cruel.
Por ela ainda passeio pela rua principal do bairro Monte alegre e observo as casinhas de colônia enfileiradas. A pensão era na primeira, se não me engano.
Logo sinto o cheiro de frango frito e vejo um prato de arroz com feijão e um ovo estalado encima.
Um riso me vem ao lábio e dou bom dia até para os passarinhos.



