Quando criança, eu tinha um tio que me causava medo. Quando ele ia em casa visitar meus pais, eu me trancava no banheiro e só saía de lá quando ele ia embora. Eu sentava no chão e ficava chorando. Nunca consegui entender o motivo do meu sentimento e nunca perguntei a nenhum especialista em emoções infantis o que aquilo significava.
Só sei que, quando tio Chico morreu, passei uma temporada longa pensando nele, inclusive depois de adulto. Porque nem sequer o conheci direito por causa do meu ressentimento por ele, que não merecia me ver tão arredio e esquisito. Certamente perdi a oportunidade de ter um grande tio.
São percepções de tio que me afetam agora. Um outro, muito querido, era alto e brincalhão. Nunca tive também muita intimidade com ele. Era o irmão mais próximo de minha mãe e estava sempre em casa. Gostava de um trago e mantinha uma postura relativamente severa, que disfarçava bem o hábito da cachaça.
Quando ele morreu, eu fui avisado pelo meu irmão. Passei em frente à sua casa após a notícia e desabei em choro. Inconsolável, meu irmão só me observava. “São emoções inexplicáveis”, eu disse.
Para um tio, eu chorava porque tinha medo dele. Já o outro, eu amava, mesmo mantendo a distância habitual entre nós. Coisas de outros tempos. No fundo, no fundo, acho que eu amava os dois, mas um deles foi vítima de algo que até hoje não consigo entender.
Já que fui pego por esse assunto, vou além. Havia também um tio bem distante. Tão distante que ele parecia de uma outra era. Ele se chamava Leopoldo. Só o nome já me impunha respeito. Como ele morava em outra cidade, acho que era natural termos um relacionamento mais protocolar. No entanto, era o tio mais curioso.
Conheci esse tio quando ele já era bem velho. Mesmo em sua casa, estava sempre bem vestido, muitas vezes de terno e gravata. Não largava o chapéu e a bengala. Ele ornava com café da tarde. Andava em espaço público sempre na estica, como se estivesse pronto para ser fotografado para a posteridade.
Para mim, era o mensageiro do império. Nunca conversamos muito, mas foi com ele que entendi melhor o significado da expressão “naquele tempo”.
Tudo era diferente naquele tempo. E só de saber que, mesmo assim, meus tios levaram uma vida, apesar de modesta, relativamente boa, já me sinto feliz. Carpiram, colheram cana, dirigiram tratores e caminhões. Casaram-se e deixaram herdeiros. Só não sei se dirigiram trem, mas é bem possível. Vou perguntar para a minha mãe.
Sou herdeiro, portanto, desta memória dos meus tios. Pouca coisa, mas que me faz viajar no tempo e na cultura de um tempo em que a vida era sempre simples, mas digna de um registro sincero e verdadeiro.




