Um pouco de filosofia no século XIII
Tomás de Aquino com pitadas de Aristóteles e Averróis
Paris do século 13 é rica em filosofia. Alberto Magno, em 1260, a denominava “a cidade dos filósofos”. Uma marca do período é a redescoberta de Aristóteles, cujas obras foram guardadas pelos árabes.
Tanto é que, na Europa, o Estagirita foi reintroduzido no meio acadêmico pelas mãos dos pensadores árabes, seus comentadores, que dominavam o pensamento de Aristóteles como ninguém.
Na Universidade de Paris, especialmente na Faculdade de Artes, havia uma corrente que defendia a separação entre a filosofia e a religião. Síger de Brabante, por exemplo, um averroísta por excelência, era desse grupo e ensinava uma tese difícil para a Igreja aceitar.
“A eternidade do mundo” era tida como um ponto de vista que se chocava com os ensinamentos bíblicos. Mas era baseada em Aristóteles, em sua versão árabe. Se Deus foi o criador do Céu e da Terra, como o mundo poderia ser eterno?
Para tentar conter essa tendência do pensamento racional, alertado por Boaventura, o bispo de Paris chegou a condenar 13 teses que seguiam caminhos distintos do pensamento cristão.
O próprio Averróis defendia a unidade do intelecto e de sua eternidade. Mas essa ideia pareceu particularmente chocante aos teólogos, pois era incompatível com a doutrina cristã da imortalidade individual e da responsabilidade moral pessoal.
Há muita sutileza nesse debate, que exigiu, inclusive, empenho redobrado de Tomás de Aquino para ajustar os pensamentos de Aristóteles, no original, aos ensinamentos cristãos, preservando certa unidade entre ambos, apesar de serem distintos em aspectos essenciais.
Tomás de Aquino estudou desde criança com os dominicanos. Sua forma de pensar era essencialmente religiosa. Por isso, não cabe a separação para ele entre religião e filosofia, uma vez que sua filosofia era essencialmente religiosa. Quando se fala em filosofia, estão em questão os pensamentos de Platão e Aristóteles, que fundamentaram sua cultura.
Um ponto de vista basilar para Tomás de Aquino era a noção de que a religião iluminava a filosofia. Ou seja, somente a religião era capaz de ampliar os horizontes do saber, permitindo avanços no conhecimento humano. Sem a religião, a filosofia sofria limitações graves.
Até que um dia Tomás de Aquino desistiu de levar adiante seus escritos. Ele havia sido levado por revelações que tornavam todo o seu conhecimento “palha” diante do divino, como disse ao seu ajudante de registros: “Reginaldo, não posso, pois tudo o que escrevi não passa de uma palha para mim” (”mihi videtur ut palea”). Pouco se sabe sobre suas revelações. Homem de fé inabalável, morreu jovem, em 7 de março de 1274.



