Mostra celebra chegada de obras de Claudio Tozzi ao acervo da Unicamp
Exposição em Campinas reúne 91 gravuras produzidas ao longo de mais de cinco décadas da carreira do artista
A incorporação de três obras de Claudio Tozzi ao acervo do Museu de Artes Visuais (MAV) da Unicamp é celebrada com a exposição Claudio Tozzi: Pós-imagem, que será inaugurada sábado (27), às 11h, no Museu de Arte Contemporânea José Pancetti (Macc). Com 91 gravuras produzidas ao longo de mais de cinco décadas de carreira, a mostra tem curadoria do professor Gabriel Zacarias, diretor do MAV e docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).
A exposição, que segue até 22 de agosto, nasce de uma relação já consolidada entre Tozzi e a Unicamp, construída ao longo de diferentes projetos e colaborações com o museu e outras unidades da Universidade. Agora, essa aproximação ganha um novo capítulo com a entrada definitiva de suas obras no acervo institucional. “Era um contrassenso ter um artista da importância do Claudio Tozzi, que já realizou diversas atividades conosco ao longo dos anos, sem que ele estivesse representado no museu”, afirma o curador.
Tozzi lembra que sempre teve uma boa relação com a Unicamp, seus professores e alunos e afirma ser “um grande prazer” ver sua obra incorporada ao acervo do MAV. O artista confirma que estará na abertura da mostra neste sábado e que pretende voltar a Campinas nas próximas semanas. “Vamos fazer encontros com outros artistas para possibilitar um debate maior sobre toda a produção e todo o processo das artes plásticas nas décadas de 1960, 1970 e 1980, tendo como base o que vamos expor”, afirma.
A incorporação das obras ocorreu de forma articulada ao projeto expositivo em Campinas, conta o curador. “Três trabalhos foram doados ao MAV e a exposição é uma celebração dessa doação. Essa parceria servirá para apresentar sua obra de forma abrangente e marcar sua entrada no acervo”, destaca Zacarias.
Mais do que uma retrospectiva, a mostra em Campinas propõe um percurso amplo pela produção de Tozzi – que, aos 81 anos, é um dos nomes centrais da arte brasileira contemporânea –, a partir de um recorte menos habitual de sua produção: a gravura. A escolha, segundo o curador, permite construir uma espécie de síntese de sua trajetória, já que muitos de seus trabalhos em tela possuem desdobramentos no campo gráfico. “A produção gráfica duplica a produção em tela. Muitos dos trabalhos fundamentais que realizou como pintor ganharam versões em gravura”, ressalta.
Na prática, isso significa que obras icônicas de diferentes períodos reaparecem na exposição em suas versões gráficas, criando um jogo de continuidade e deslocamento entre suportes. Estão presentes, por exemplo, Guevara Vivo ou Morto, Multidões, Astronautas e Zebra. Zacarias destaca que esse conjunto permite observar não apenas a evolução formal da obra, mas também a permanência de temas ligados à cultura visual, à política e às transformações sociais.
Ao comentar a curadoria, Tozzi observa que muitas das questões presentes na produção contemporânea já estavam colocadas em sua geração. “Eu achei que a seleção feita pelo Gabriel mostra muito bem a relação entre uma fase e outra. Existe uma linha que define o processo de utilização visual. O título que ele usa, Pós-imagem, elabora todo um processo de produção da imagem que veio desde a reprodução direta até o processo industrial, por meio de retículas e fotolitos, e atualmente por meio dos programas de computação e da inteligência artificial.”
“Eu acho que toda essa tecnologia é praticamente uma evolução do que se fazia com o fotolito, só que hoje com muitos recursos de computação gráfica e movimentação da imagem que antes não eram possíveis”, continua Tozzi. “A gente trabalhava com o que tinha. Era o alto contraste, a apropriação dos meios de linguagem da comunicação de massa, dos cartazes, das placas de rua pintadas, das sinalizações. Tudo isso era incorporado ao trabalho”, afirma.
Imagens circulantes
A exposição destaca um aspecto central da produção de Tozzi: sua relação com imagens circulantes da cultura de massa. Na fase inicial, ligada à Nova Figuração e à Pop Art brasileira, o artista parte de imagens já existentes – retiradas de jornais, revistas e histórias em quadrinhos – para reorganizá-las em novas composições. Esse procedimento, segundo Zacarias, insere o trabalho do artista em um campo de disputa simbólica em torno da imagem. “Não é uma reprodução, mas uma reconfiguração dessas imagens no campo da arte”, explica.
Esse repertório visual dialoga diretamente com o contexto histórico das décadas de 1960 e 1970, marcado pela Guerra Fria, pela corrida espacial e pela expansão da indústria cultural. São referências que atravessam as obras e ajudam a situar o trabalho do artista em um cenário mais amplo de transformações políticas e midiáticas. “São signos de toda uma época”, define o curador.
Outro eixo importante da exposição é a relação do artista com o espaço urbano. Arquiteto de formação, Tozzi desenvolveu uma carreira marcada pela reflexão sobre a cidade, tanto em obras de grande escala quanto em investigações mais conceituais sobre o espaço. “Diante do branco, gosto de pegar a régua e o esquadro, e isso tem muito a ver com a minha formação em arquitetura, em que o espaço é pensado, planejado, e as soluções são dadas pelo pensamento e pela ação em relação ao campo visual que se vai trabalhar”, conta o artista.
Esse percurso aparece na transição gradual entre a figuração e a abstração, que também estrutura a leitura curatorial da mostra. A partir de séries como Passagens, que exploram escadas, deslocamentos e espaços imaginários, o artista vai progressivamente reduzindo elementos figurativos até chegar a composições abstratas. “Ele começa com representações da paisagem urbana, passa por espaços imaginários e vai gradualmente simplificando a forma até chegar à abstração”, explica Zacarias.
A exposição Claudio Tozzi: Pós-imagem evidencia o potencial da obra do artista como documento histórico
O título da exposição, Pós-imagem, articula essas camadas em um único conceito. A ideia, segundo o curador, não tem uma única origem, mas um conjunto de sentidos que se sobrepõem. De um lado, o termo dialoga com a prática inicial do artista, que trabalha a partir de imagens já existentes, apropriadas e transformadas. De outro, remete a um fenômeno óptico conhecido como imagem persistente, que é a impressão que permanece na retina após o desaparecimento do objeto observado.
Há ainda um terceiro desdobramento, relacionado à fase mais recente da produção, em que a figuração dá lugar a composições abstratas. “Há uma passagem da figuração para um campo em que a imagem deixa de ser reconhecível. O que fica são gestos, cores, vestígios, algo que também pode ser entendido como uma forma de pós-imagem”, completa Zacarias.
Segundo o próprio artista, essa continuidade nem sempre é percebida à primeira vista. “Se você pegar o primeiro trabalho da série Paz, ele tem uma organização espacial muito semelhante ao último trabalho, da série Territórios”, explica. “Mas uma preocupação constante é a colocação das imagens dentro de um determinado campo visual.”
Ao longo de mais de cinco décadas de produção, Tozzi participou de importantes exposições nacionais e internacionais, incluindo bienais de São Paulo, Veneza, Paris, Havana e Mercosul. Sua obra integra coleções de instituições como a Tate Modern, em Londres, e museus nos Estados Unidos, além de estar presente em intervenções urbanas, edifícios públicos e estações do metrô de São Paulo, reafirmando uma trajetória que atravessa diferentes linguagens, suportes e gerações da arte brasileira.
Para o curador, a exposição também evidencia o potencial da obra de Tozzi como documento histórico. Ao reunir trabalhos de diferentes momentos, a mostra permite observar transformações sociais, políticas e urbanas refletidas na produção artística. “É uma exposição que interessa a historiadores, arquitetos e urbanistas. O trabalho artístico também é um documento histórico”, afirma.
Serviço: Exposição Claudio Tozzi: Pós Imagem | Museu de Arte Contemporânea José Pancetti (Macc): Av. Benjamin Constant, 1633, Centro, Campinas | Até 22 de agosto, de terça a sexta, das 9h às 18h, e aos sábados, das 10h às 16h
Matéria: Daniela Prandi | Jornal da Unicamp.







