
Viver de arte é um privilégio para poucos; sobreviver dela é o desafio da maioria. Uma pesquisa da USP investigou como profissionais das artes visuais de cidades médias brasileiras constroem estratégias para permanecer no circuito cultural, garantir renda e assegurar a própria subsistência. O estudo mostra que a atividade artística é marcada por desafios que ultrapassam o processo criativo. Além de produzir suas obras, os artistas precisam conciliar a criação com a busca por sustentabilidade financeira, construir redes de sociabilidade, disputar espaço em exposições e concorrer a editais públicos para conquistar reconhecimento e condições de permanência na atividade.
“A sobrevivência no campo das artes visuais depende não apenas do talento e da produção artística, mas também da capacidade de navegar pelas dinâmicas do mercado cultural e pelas formas de legitimação que definem quem consegue viver da própria arte”, relata o artista plástico Juny Alessandro Biassi de Almeida; juny kp!, como também é conhecido artisticamente, tratou do assunto em sua dissertação de mestrado Artistas e boletos: modos de (sobre) vivência do trabalhador-artista em São José do Rio Preto, defendida Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP, sob orientação do professor Ruy Sardinha Lopes. A pesquisa foi realizada no município de São José do Rio Preto, interior de São Paulo (cidade de 500 mil habitantes), mas de acordo com juny kp! essa realidade pode ser extrapolada para outras regiões.
Ruy Sardinha Lopes diz que o trabalho contribui para deslocar a visão de que a atividade artística é resultado apenas de um talento ou vocação individual. “Ainda é muito comum que o fazer artístico seja envolvido por uma ideia de excepcionalidade, como se fosse fruto exclusivamente de um dom. Essa percepção muitas vezes obscurece as condições materiais em que os artistas trabalham e sua inserção nas dinâmicas econômicas da sociedade”, afirma.
Precariedade e instabilidade profissional
A pesquisa retrata o artista de artes visuais — que atua em áreas como pintura, tatuagem, ilustração digital, videoarte, fotografia, desenho, fotografia analógica e grafite — como um trabalhador inserido em um setor que movimenta cerca de R$ 3,1 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, segundo dados do Painel do Observatório Itaú (2023). Apesar da relevância econômica da atividade, esses profissionais convivem com a instabilidade característica da carreira artística e com relações de trabalho marcadas pela precariedade e pela insegurança financeira.
Segundo juny kp!, a renda desses trabalhadores depende, em grande parte, da venda de obras, da contratação para novos projetos e da aprovação em editais públicos. Diferentemente dos trabalhadores com vínculo formal, eles não contam com direitos como férias remuneradas, 13º salário, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e outros mecanismos de proteção social. Para o pesquisador, essa realidade faz com que a continuidade da carreira esteja constantemente condicionada à conquista de novas oportunidades de trabalho.
O estudo também identificou que a maioria dos artistas desenvolve múltiplas atividades para garantir a própria subsistência. Muitos atuam na docência, na curadoria, na produção cultural e em outras frentes da economia criativa.
Em alguns casos, relatados durante as entrevistas, os profissionais precisaram recorrer a ocupações fora do campo das artes, como o trabalho de garçom, para complementar a renda e manter a atividade artística. “O artista contemporâneo precisa ser um profissional polivalente, capaz de transitar entre diferentes funções e espaços do campo artístico”, destaca o pesquisador.
Para compreender essa realidade, o pesquisador entrevistou individualmente homens e mulheres e também um coletivo de artistas com ampla trajetória profissional em São José do Rio Preto (SP). A investigação foi complementada pela experiência do próprio autor, que atua como artista na cidade há mais de 30 anos. Com base na sociologia da arte, o estudo analisa como as relações sociais influenciam a criação, a circulação e a recepção das obras, além de discutir o papel do artista, o funcionamento do mercado cultural e os mecanismos de legitimação que moldam o reconhecimento profissional e o gosto do público.
Concorrência pelos espaços culturais
A pesquisa identificou que o campo das artes visuais em São José do Rio Preto é formado por uma rede de artistas, coletivos, instituições públicas e privadas e mecanismos de fomento cultural que disputam recursos e espaços de visibilidade. Nesse cenário, a permanência na atividade depende não apenas da qualidade da produção artística, mas também da capacidade de acessar editais públicos, participar de redes de relacionamento e conquistar espaço em galerias, exposições e iniciativas independentes. “A concorrência entre os próprios artistas torna-se, assim, um elemento permanente da profissão”, relata.
Segundo o pesquisador, essa disputa ocorre porque o campo das artes visuais não é homogêneo. Enquanto alguns artistas conseguem se inserir em circuitos institucionais e ampliar suas oportunidades de financiamento e reconhecimento, outros permanecem à margem desses espaços e enfrentam maiores dificuldades para divulgar seu trabalho e garantir renda. O estudo mostra que as desigualdades de acesso aos mecanismos de legitimação influenciam diretamente as possibilidades de permanência e consolidação da carreira artística.
Políticas públicas de incentivo à cultura
As políticas públicas de incentivo à cultura desempenham papel importante na manutenção da atividade artística. Segundo o pesquisador, editais de fomento, como o Programa Municipal de Fomento à Produção Cultural Nelson Seixas, criado pela Prefeitura de São José do Rio Preto, em 2003, são fundamentais não apenas para financiar projetos, mas também para ampliar a circulação das obras e fortalecer o reconhecimento dos artistas no circuito cultural. Voltado ao desenvolvimento da produção artística local, o programa busca incentivar a criação e valorizar profissionais residentes no município.
Embora reconheça a importância dessas iniciativas, a pesquisa mostra que elas não garantem a autonomia financeira dos artistas e precisam ser complementadas por outras fontes de renda. O estudo também identificou que o acesso aos editais é limitado por processos burocráticos que tendem a favorecer profissionais com maior capital cultural e experiência na elaboração de projetos. Na avaliação do pesquisador, esse cenário evidencia que as políticas de fomento, apesar de essenciais, ainda não são suficientes para assegurar condições estáveis de permanência na carreira artística.
Como alternativa, um dos teóricos que embasaram o estudo, Pierre-Michel Menger, defende a discussão de modelos de proteção social voltados aos trabalhadores da cultura.
Um dos exemplos citados é o Régime d’intermittence du spectacle, adotado na França, que garante uma espécie de seguro financeiro para artistas e técnicos do setor nos períodos em que ficam sem contratos. Para ter acesso ao benefício, o profissional precisa comprovar um número mínimo de horas trabalhadas em contratos temporários ao longo de um período determinado, passando a receber o auxílio enquanto busca novas oportunidades de trabalho.
A pesquisa ajuda a compreender como os artistas constroem sua trajetória profissional, obtêm renda e enfrentam os desafios para se manter na atividade. “Esse olhar permite entender que a produção artística também é uma forma de trabalho, sujeita às mesmas transformações econômicas e sociais que afetam outras profissões, abrindo novas possibilidades de pesquisa sobre as condições de trabalho e permanência desses profissionais na atividade”, diz o orientador da pesquisa. Para ele, o estudo é um ponto de partida para ampliar as investigações sobre o trabalho artístico, sendo necessário aprofundar o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, como a sociologia da arte, a sociologia do trabalho e a economia política.
A dissertação de mestrado Artista e boletos: modos de (sobre)vivência do trabalhador-artista em São José do Rio Preto foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pode ser acessada pelo link.
As entrevistas realizadas com os artistas-trabalhadores de artes visuais para a dissertação de mestrado viraram o podcast Artistas & Boletos, que conta suas experiências em São José do Rio Preto. Artistas & Boletos está disponível no Spotify e no YouTube.
Matéria: Ivanir Ferreira | Jornal da USP.





