Documento analisa estratégia brasileira para transição do sistema agroalimentar
Especialistas comentam as políticas que afetam a dinâmica e o funcionamento do atual sistema agroalimentar brasileiro

O sistema agroalimentar global é hoje um dos principais motores das mudanças climáticas, sendo responsável por impactos severos na biodiversidade e na saúde dos recursos hídricos e do solo. Nesse contexto, a transição nos meios de produzir, distribuir e consumir alimentos é essencial para minimizar os impactos causados por essas transformações ambientais; foi lançado em outubro de 2025 o documento O Brasil tem uma estratégia para uma transição justa e sustentável? Uma análise do Plano Clima, Plano Safra e Plano de Transformação Ecológica. A obra foi realizada pela Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP e investiga como essas três políticas afetam o sistema agroalimentar brasileiro.
Sobre o documento
Olívia Dórea, pesquisadora da Cátedra Josué de Castro, comenta que, para transformar profundamente o sistema agroalimentar não existe agenda climática possível. “A escolha desses três planos em específico foi feita pelo fato de que eles têm uma importância crucial. Eles mobilizam bilhões de reais, definem incentivos econômicos e, assim, influenciam diretamente no comportamento dos atores econômicos, além de afetarem diferentes áreas de governo.”

Atualmente o Brasil vive um momento-chave em relação aos planos, de acordo com a pesquisadora. As políticas são instrumentos com potencial de moldar o futuro da transição brasileira do sistema agroalimentar.
Os planos afetam diretamente a dinâmica e o funcionamento do atual sistema agroalimentar brasileiro. César Favarão, pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Análises sobre Meio Ambiente, Desenvolvimento e Sustentabilidade (Cebrap Sustentabilidade), comenta que as três políticas atuam de formas distintas, mas interligadas.
“O Plano Clima estabelece metas de mitigação e adaptação para o setor agropecuário, buscando cumprir os compromissos climáticos, enquanto o Plano de Transformação Ecológica busca canalizar investimentos para a transição, incluindo um eixo voltado à bioeconomia e aos sistemas agroalimentares. Ambos mobilizam o Plano Safra, que direciona a maior parte dos recursos para o setor agropecuário e sinaliza em que tipo de agricultura o País aposta”, afirma.

O pesquisador aponta que o ponto central do debate é analisar os planos enquanto um arranjo. A falta de coerência e complementaridade entre os planos pode limitar os efeitos agregados do arranjo, tendo em vista os objetivos de promover a transição justa e sustentável do sistema agroalimentar.
Insuficiência dos planos
Os três planos se encontram na direção de uma transição, mas há limitações procedimentais, distributivas e de valorização dos serviços ecossistêmicos. Essas questões comprometem a efetividade e a coerência da política climática no campo do sistema agroalimentar, de acordo com Olívia.
Atualmente a integração entre as políticas é insuficiente para que o conjunto funcione como uma política coerente de transformação dos sistemas agroalimentares. “O resultado é uma justaposição de iniciativas que convivem mais em paralelo do que de forma articulada”, defende a pesquisadora.
César Favarão afirma que fortalecer a governança transversal com poder de decisão, por meio da coordenação interministerial, é essencial para garantir a eficácia da transição. Segundo o pesquisador, uma transição do sistema agroalimentar dependerá menos de novos planos e mais da capacidade política de conectar o que já existe, garantindo coerência, equidade e continuidade entre as ações.



