O cantor e compositor Taiguara Chalar da Silva (à esq.) foi um dos mais censurados pela ditadura, com 68 canções vetadas e álbuns inteiros proibidos; João do Vale (ao centro), autor de Carcará, teve mais de 400 composições registradas, mas foi gravado por músicos como Maria Bethânia, Chico Buarque e Caetano Veloso; Sérgio Ricardo (à dir.) ficou marcado pelo episódio da quebra do violão durante festival de música em 1967, mas teve também uma produção vasta para trilhas de filmes como Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe
A cientista social Priscila Milanez estudava repertório musical para seu trabalho como cantora quando se deparou com uma série de reportagens publicada pela jornalista Mariana Filgueiras. As matérias tratavam da digitalização do arquivo do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), que continha uma série de músicas inéditas vetadas no período da ditadura militar (1964-85). Aquela revelação foi o estopim para que decidisse se candidatar ao programa de doutorado em Sociologia da Unicamp, buscando a orientação do professor Marcelo Ridenti, referência nos estudos sobre cultura e a ditadura militar. Em sua tese, Milanez define metaforicamente a censura como uma “ilha de edição” que contribuiu para apagar determinados compositores dos cânones da música popular brasileira (MPB).
“Assim como num trabalho de edição audiovisual, em que o editor seleciona, corta e reorganiza imagens e sons para construir uma narrativa, a censura também operava por meio de seleções, cortes e exclusões que interferiam naquilo que chegava ao público”, explica a cientista social.

Década de 1970
Ao longo do seu percurso como cantora, Milanez aprofundou-se no repertório da música brasileira, em especial a produção da década de 1970. “Além dos compositores consagrados no período, me deparei com muitos artistas sobre os quais pouco ou nada sabia. E me intrigava saber o porquê de alguns não terem seus nomes registrados na história da MPB, ou serem registrados de forma ainda muito incipiente ou marginal, apesar de uma produção musical ampla e relevante”, conta.
O arquivo do SCDP, que reúne cerca de 77.000 documentos do período entre 1964 e 1988, foi o ponto de partida para a autora pensar os processos de visibilização ou apagamento de músicos da MPB, exemplificados na tese a partir da análise da trajetória de três compositores: João do Vale, Sérgio Ricardo e Taiguara.
“Me interessava entender como a censura interferia nas condições materiais de produção e circulação de determinadas obras e como isso de alguma forma impactaria nas condições de visibilidade de certos artistas”, aponta a pesquisadora.
O pássaro sobre o morro
João Lutfi (1932-2020) nasceu em Marília (SP) e na década de 1950 foi “batizado” com o nome artístico de Sérgio Ricardo. Na tese, a autora o apelida de “o pássaro sobre o morro”. Compositor, pianista, cineasta e poeta, teve uma formação erudita e fez parte do circuito da Bossa Nova. No entanto, começou a distanciar-se do gênero e a incorporar o protesto social às suas composições. “Ele mesmo disse em várias entrevistas que não queria estar falando sobre barcos e dias ensolarados. Enfim, ele queria falar sobre as condições em que se vivia naquele momento de tanta repressão”, indica Milanez.
Sérgio Ricardo teve diversas músicas censuradas. Em 1968, o SCDP pediu ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops) que fichasse o compositor como subversivo devido à letra de Dia de graça (1968). No mesmo ano, o compacto de Aleluia, canção que faz referência a Che Guevara, foi apreendido pela polícia. Calabouço (1973), em homenagem ao estudante Edson Luis, assassinado pela ditadura em um restaurante carioca com esse nome, o levou a ser novamente enquadrado pelo Dops.
Cala a boca moço
Só o bagaço da canção
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço
Olha o vazio nas almas
(trecho de Calabouço)
Em episódio ocorrido no 3º Festival da Record (1967), o artista, ao ser vaiado durante a apresentação de Beto bom de bola, quebrou seu violão e o atirou na plateia. A partir daí, além de sofrer com a censura, passou a ser boicotado pelos meios de comunicação.
“Sérgio Ricardo é uma figura que foi muito reduzida ao episódio da quebra do violão, mas ele tem uma produção muito vasta, tanto na música quanto como compositor de trilhas de filmes importantes, como Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe, clássicos do cinema novo dirigidos por Glauber Rocha.”
O pássaro ameríndio
Taiguara Chalar da Silva (1945-1996), natural de Montevidéu (Uruguai), é chamado na tese de “o pássaro ameríndio”. Várias vezes premiado no começo da carreira, acabou por se tornar um dos compositores mais censurados pela ditadura, com 68 canções vetadas e álbuns inteiros proibidos. Seu álbum Imyra, Tayra, Ipy (1976) foi recolhido 72 horas após o lançamento. Apenas em 2013 o disco ficou disponível para ser ouvido no Brasil.
Sonhada terra das palmeiras
Onde andará teu sabiá?
Terá ferida alguma asa?
Terá parado de cantar?
Sonhada terra das palmeiras
Como me dói meu coração
Como me mata o teu silêncio
Como estás só na escuridão
(trecho de Terra das palmeiras)
Em outro episódio, ao submeter as 12 músicas de um álbum para análise de órgãos de censura, apenas uma foi liberada. A canção Que as crianças cantem livres (1973) foi o último sucesso que conseguiu fazer circular antes de ser completamente excluído do circuito comercial. “A atuação contra eles incidia não só sobre suas letras e sobre a sua produção musical em si, mas também sobre o próprio sujeito. No caso do Taiguara isso ainda fica mais marcado”, avalia Milanez.
A repressão constante levou o artista ao exílio, entre 1974 e 1978, quando viveu no Reino Unido, França, Etiópia e Tanzânia. Na Inglaterra, gravou o disco Let the children hear the music, também censurado no Brasil. O caso, para a autora da pesquisa, mostra como a censura “interditava possibilidades de consagração.”
O carcará desconhecido
João do Vale (1934-1996), artista negro e nordestino, possui mais de 400 composições registradas. “Ele foi um compositor muito profícuo, muito gravado por inúmeros músicos consagrados, como Maria Bethânia, Chico, Caetano, enfim, mas não é tão conhecido”, destaca a pesquisadora. As temáticas das canções de João do Vale giram em torno da vida no Nordeste e das opressões vividas pelas populações marginalizadas. Sua canção mais consagrada é Carcará. Apesar de o artista tê-la apresentado no espetáculo-manifesto Opinião, poucos meses após a instauração do regime militar, foi nas vozes de Nara Leão e Maria Bethânia que ela se tornou conhecida.
Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andar
Ele puxa no imbigo inté matar
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Não vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que homem
(trecho de Carcará)

“Sua participação no espetáculo Opinião costuma ser a única referência recorrente quando se trata de associá-lo à chamada canção de protesto. Mas sua obra contém temas relacionados a questões sociais, denúncias políticas e um profundo senso de coletividade. Ainda assim, João do Vale foi, em vida, tragado pelo apagamento”, escreve a autora na tese. Por isso, ela o identifica como “o carcará desconhecido”.
Diferentemente dos outros artistas analisados, não há muitos registros sobre como a censura operou com João do Vale. “As próprias condições de classe e raça já se encarregavam de operar um certo apagamento”, diz Milanez.
Excluído do circuito comercial, o artista aproximou-se de lutas populares. Em 1983, ao saber do assassinato da líder sindical Margarida Maria Alves, ele organizou um show em sua homenagem. “João juntou aquele monte de gente e começou a falar. Demorou meia hora e chegou a polícia com cassetete e foi todo mundo em cana”, rememorou a produtora Lenita Alves, em depoimento que consta na tese.
Priscila Milanez reflete que João do Vale, diferentemente de outros artistas que se exilaram no exterior, retornou a Pedreiras (MA), sua terra natal, mostrando como “a cultura dominante opera suas exclusões”. Ao contrário dos outros dois casos analisados, a marginalização de João do Vale não ocorreu principalmente pelas vias formais da censura, mas por um conjunto de vetos materiais e simbólicos que mantiveram sua produção às margens da cultura dominante. “Sua raça, sua classe e sua origem regional também condicionaram, em certa medida, esse processo de exclusão”, avalia.
O mediador
Além de analisar a trajetória dos compositores, a pesquisadora deteve-se sobre a atuação de João Carlos Müller, advogado, secretário-geral da Federação Latino-Americana de Produtores de Fonogramas e Videogramas (FLAPF) e consultor jurídico da gravadora Philips entre 1965 e 1981. Müller, segundo a autora, foi uma espécie de mediador entre artistas, indústria fonográfica e órgãos da censura. O SCDP, órgão do regime militar, exigia que as letras fossem acompanhadas de uma gravação em voz, o que tornava o processo mais dispendioso.
Como solução, Müller propôs a criação do “registro da censura”, contendo informações sobre gravadoras cadastradas que ficavam dispensadas de apresentar a gravação de voz. Caso houvesse divergência entre a letra e a música gravada, seria mais fácil para a censura identificar e punir a empresa fonográfica responsável. “Era uma forma de a indústria reduzir os custos, diminuir o risco de gravar um disco e depois ele ser vetado. Também era uma forma de manter aquela produção dentro dos limites que o regime estava impondo”, explica.
Censura informal
Uma das principais contribuições da tese de Milanez, destaca o orientador Marcelo Ridenti, é justamente desvelar como mecanismos informais de censura operavam. “Ela trabalha não só com a ideia da censura oficial, que é exercida pelos mecanismos repressivos do governo, mas também com uma censura informal, que é dada pelos próprios pares, pelo próprio meio, pela indústria fonográfica, e que faz com que certos autores fiquem mais apagados”, destaca.
O professor também lembra que “a ditadura teve um projeto modernizador no campo cultural”, mas com limites. “Quer dizer, a indústria fonográfica se desenvolveu muito na época, e inclusive vários cantores e compositores foram proibidos, mas continuaram gravando. Porém, ela colocava um freio, para que esse projeto modernizador ficasse nos trilhos.”
Tradição seletiva
Depois de avaliar as repercussões da censura nas carreiras de Sérgio Ricardo, Taiguara e João do Vale, Priscila Milanez voltou-se para quatro rankings da respeitada revista musical Rolling Stone Brasil. As listas, de 2007, 2008, 2009 e 2014, respectivamente, classificam os cem principais discos, artistas, músicas e momentos da música popular brasileira na opinião dos críticos consultados. Os três artistas estão ausentes, enquanto nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil constam como destaques. Apenas Carcará figura no ranking das canções mais importantes.
Para Milanez, a censura incidiu para esse apagamento. “A ‘tradição seletiva’ é um processo cultural e um processo histórico. Ela vai sendo construída ao longo do tempo. Então, se você tem poucos registros de determinadas obras em determinado período, há impactos na construção dessa tradição posteriormente”, diz a pesquisadora, apoiada no conceito de “tradição seletiva” de Raymond Williams. Com o termo, o sociólogo britânico indica que, em uma cultura, há processos de valorização ou exclusão de determinados significados, valores e práticas, o que repercute na conformação da tradição.
Novos registros
No entanto, por ser um processo, a construção da tradição não é estática. Resgate de arquivos históricos, como o do SCDP, e pesquisas como a tese de Milanez podem contribuir para novos registros. “Esta pesquisa é uma tentativa de revisitar esse passado, recuperando trajetórias, obras e experiências que foram silenciadas ou marginalizadas e compreender como esses processos de apagamento continuam incidindo sobre a forma como nos constituímos e reconhecemos nossa própria história”, resume.
Além disso, destaca a autora, a reconstituição do passado é um passo importante para a compreensão do presente. “A atual conjuntura política e social é reflexo de um processo de transição democrática que ainda não permitiu ao Brasil encarar política, jurídica e simbolicamente aquele período nefasto. Um país que por muito tempo insiste em negar, silenciar e apagar os vestígios de sua própria história, sobretudo quando tal história foi carregada de experiências de violência e morte, está fadado a nunca superar as marcas por elas deixadas”, conclui.




