Um centavo por seus pensamentos.
Expressões curiosas da língua de Camões e de Caminha, comentadas por um escrevinhador que teve de morder a língua e lamber sabão
POR UNS CENTAVOS A MAIS
Alguém aí se lembra da expressão que dá título a esta crônica? Pois assim era a oportunidade que se apresentava para o seu uso: a pessoa estava pensativa, olhando para dentro ou para o nada (o que em alguns casos, convenhamos, é a mesma coisa) e o outro, querendo saber o que o um estava pensando, dizia: “um centavo pelos seus pensamentos”. Uma brincadeira que proponha a troca de íntimas ruminações por um centavo. Como diria Dimitri Karamazóvi, um copeque, ou Gary O’Hara, um dólar furado.
Agora que estaciono o meu burro na sombra é que percebo: a troca queria dizer que os pensamentos da pessoa eram tão chinfrins, tão irrelevantes, que só valiam um centavo? Pois mesmo no tempo do Zagaia ou do Onça, um centavo não era quantia que desse lá para fazer muita coisa. Hoje, então, seria quase um insulto usar a expressão com quem quer que fosse. Já que todos temos pensamentos, sensações e tão impressionantes juízos sobre o mundo que até os compartilhamos para que bilhões de pessoas os possam ler, ouvir e até os ver nas redes sociais.
Talvez a expressão “um centavo por seus pensamentos” podesse ser traduzida hoje como ‘faça um vídeo sobre o que você está pensando e o monetize nas redes sociais”. Pois de centavo em centavo a galinha enche o papo. Mesmo que seja papo para boi dormir.
BIDU!
E quando uma pessoa percebia algo que parecia óbvio para todos, um lá da rodinha tinha várias opções para caçoar da pessoa que tinha percebido que a roda já tinha sido inventada:
- Descobriu a América!
- Bidu!
- Bingo!
O personagem de Maurício de Sousa, o cachorrinho azul do Franjinha, só tem esse nome porque a expressão “bidu” era muito popular na época (década de 1950), para chamar alguém de sabichão, falso ou verdadeiro.
“Bingo!” tem relação com o jogo de bingo, que os descendentes de italianos chamam de “tômbola”. Uma referência ao nome do jogo, que se grita quando se “bate” cinqüina ou cartela cheia. Mas nem sempre era usada para tirar sarro de ingênuos ou pessoas meio lentinhas. Podia ser usada como sinônimo de “Eureka!”. Hoje, falaríamos um “Achei!”, meio sem-graça, sem sal.
Meio insosso - e não “insonso”, como se diz erradamente. Mas quem tinha descoberto a América, admitamos, pagava de sonso.
NO TEMPO DO ZAGAIA E DO ONÇA
Quando criança, minha mãe dizia “no tempo do Onça”. Meu pai já preferia o “tempo do Zagaia”, que pronunciava “Zagai”. Quebrava a minha cabeça, metaforicamente, é claro, tentando descobrir quem seriam os tais de “Zagaia” e “Onça”. Não sei porque nunca perguntei aos dois genitores quem seriam as figuras. Mas entendia que eram personalidades de um tempo muito distante, do arco da velha.
Descubro, numa googlada rápida, que não é “o” Zagaia, e sim, zagaia com “z” minúsculo, referindo-se à arma indígena, a azagaia. Artefato em desuso já faz miliduque, por isso, qualquer coisa desse tempo vai evocar a época em que se amarrava cachorro com linguiça.
O Onça, ao contrário, era mesmo um figurão: Luís Vahia Monteiro era um governador do Rio de Janeiro, apelidado de "o Onça", por ser ranzinza e violento - mesma acepção da mulher que espera o marido em casa, depois da farra, e que de “patroa”, como o tempo, virou a “dona Onça”. O Onça viveu mesmo no tempo do onça, há milianos, pois governou a capitania fluminense entre 1725 e 1732.
“Já faz miliduque” é sinônimo de “milianos” , acho que um arcaísmo sobrevivente na linguagem de Piracicaba, como “forfé” - remanescente de uma época onde “forfait”, do francês, queria dizer “bagunça, confusão” - e “amigar” - expressão que descobri surpreso, quando cursava o curso colegial, que era muito usada na Idade Média portuguesa - olhe as “cantigas de amigo”, ou seja, de amantes. A expressão sobreviveu no dialeto piracicabano, para descrever pessoas que “juntam os trapinhos” sem se casar: “A Tonha amigou com o Zézo, cê viu?”. Hoje, as pessoas resolveram mudar os costumes e a língua, quem “amiga” hoje na verdade “se casou”. Com todos os direitos como marido e esposa, contemplados em testamento e tudo.
Quem amiga, amigo é.
ANTICONSTITUCIONALISSIMAMENTE
Sou do tempo, não do Onça, mas da turma que ainda pegou os últimos suspiros da cultura da imprensa impressa. Parece um pleonasmo vicioso, ou viciado, sei lá, mas armo a expressão desta maneira para reforçar que, se você quisesse ler uma crônica como esta até 1994, tinha que comprar um jornal ou uma revista impressa em papel.
Você que está lendo ainda, chegando até aqui embaixo - como num manuscrito antigo, você tem que ir descendo pelo texto, rolando o dedo na tela do celular ou com o mouse, quase da mesma maneira que tinha de desenrolar papiros ou pergaminhos, lendo de cima para baixo, como no tempo da bisavó do Onça -, talvez largue agora esse texto, por ter vivido isto de forma muito rotineira. Mas acredito que para as novas gerações, valha o registro arqueológico, antropológico, de algo “que todo mundo sabia” em 2026, porque talvez não seja mais assim em 2050. Ou 2027.
Tudo isso para dizer que curiosidades como as que escrevi nesta crônica eram a coisa mais comum do mundo na imprensa em, digamos, 1986. A mesma sede de fatos curiosos que temos hoje, fuçando redes como YouTube, TikTok e mesmo “debulhando” assuntos no ChatGPT, há décadas eu o fazia vasculhando publicações como “Seleções”, “SuperInteressante” e mais recentemente, “Aventuras na História”. As revistas infantis também tinham suas seções de “Você Sabia?” - como em “O Tico-Tico” e “O Gibi” - , e os suplementos infantis dos jornais - primeiro o “Suplemento Juvenil” e “O Globinho”, depois mais tarde, “Folhinha”, “Jornalzinho” “Diarinho” etc. - herdaram esse costume.
É claro que todos herdaram as curiosidades dos almanaques, tanto os distribuídos em farmácias, como o do Biotônico Fontoura, do Elixir Paregógico, Sadol e da Emulsão Scott, assim como outros mais chiques, como Laemmert, Garnier, do Pensamento e Almanaque do Globo, de Porto Alegre.
A edição brasileira do “Guinnes Book of Records” ou o “Guia dos Curiosos”, de Marcelo Duarte, são muito posteriores, já quase coincidentes com a internet.
Eram em publicações impressas como as que citei acima que apareciam curiosidades sobre a língua portuguesa como: “a palavra mais longa da língua portuguesa é ‘anticonstitucionalissimamente’, com 29 letras , e descreve a ação que fere a constituição, de forma extrema e superlativa“.
Era uma diversão decorar a pronúncia do palavrão (com todo o respeito), pois acabava sendo um trava-línguas, nem todo mundo conseguia deixar de dar um nó no próprio órgão da fala ou se isentar de ficar com cara de sonso, bocó de mola ou boco-moco.
Descubro, dando a derradeira googlada desta crônica, que a dita cuja palavra mais longa perdeu o posto de “a mais longa da língua portuguesa” em 2001, quando o dicionário Houaiss registrou a mais nova ocupante do trono: “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”. Que descreve uma pessoa acometida de uma doença pulmonar causada pela aspiração de cinzas vulcânicas.
Hoje, tempos bicudos e sem humor, em que falar de curiosidades ou da beleza das árvores, como diria Bertolt Brecht, é um crime de lesa-ingenuidade, “anticonstitucionalissimamente” é palavra mais que apropriada para as ações rotineiras dos nossos mais altos magistrados, que fazem questão de serem superlativamente, anticonstitucionalissimamente, incorretos.



