Arte, para mim, é um trabalho falho, cujo artista, em seu intento de mergulhar até o limite do sondável, supõe que algo acontece logo ali na frente. Assim, se pergunta: o que vim fazer aqui mesmo? Graças a essa falha monumental de seu propósito, algo de novo nasce e se revela. E a sensibilidade humana dá seus passos.
Quase que eu escrevo que a sensibilidade humana avança. Pode até ser, se esse avanço for apenas um movimentar-se em direção ao desconhecido.
Theodor Adorno dizia que a obra de arte perde sua força quando todos os seus enigmas são desvendados. Mas eu não acredito nisso, porque até mesmo os enigmas podem ser criados a partir da percepção do observador. Enquanto houver observador arguto, haverá uma obra nova no coração da velha.
Então, quer dizer que a arte tem mão dupla? De quem a produz, com uma intenção, e de quem a vê, sem necessariamente saber qual foi a intenção do autor ao fazê-la? Sim, claro, óbvio.
Mas esse óbvio que escrevo é apenas instrumental. Não serve para captar a essência de nada. Inclusive porque há obras de arte que superam o tempo e permanecem uma incógnita, mesmo que eu tenha a minha explicação para elas. Mas é a minha explicação, apenas. E, mesmo com a explicação de todos os seus observadores, não teremos o seu esgotamento. É mais provável que se crie, assim, uma obra paralela, só de olhares.
“Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia”. Se você falou William Shakespeare, acertou.
Digo, ser a explicação elaborada pelo observador da obra apenas uma forma de ajudar a ampliá-la, mas pode também ser um desvio imenso de foco. Aí, sim, começo a achar possível a perda do enigma, quando o foco se perde ao infinito. Quando se quer dizer tudo, não se diz nada. Por isso, no jornalismo, ao menos, se pensa muito em termos de recorte.
A obra de arte também é, muitas vezes, um recorte do que se supõe ao atravessar o limite do sondável. É uma hipótese sobre o que o artista supõe de algo que desconhece e acaba dizendo mais do que planejou. Quando seu foco é muito intenso e sua criatividade, brilhante, abre-se uma cratera no coração e na mente do observador e o coloca em uma viagem maluca diante da obra.
Apesar de eu não me considerar um artista, gosto muito de trabalhar meus textos da Revista de Domingo com o que eu não penso. Ou ainda, com um pensamento que se constrói sem eu pensar nele de partida. É uma imagem que se constrói a partir de um ponto inicial sem a menor pretensão.
Li certa vez que E. M. Forster (autor do romance “Passagem para a Índia”) se deixava levar pelo texto e não o planejava. Sua tese essencial é que um romance não se constrói apenas com uma sequência de acontecimentos. Ele precisa transformar acontecimentos em uma experiência humana significativa. A elaboração de um texto seria, para ele, uma experiência estética e humana.
Sem conseguir perceber as próprias limitações e sem estar aberto para aprender com as palavras, quando elas estão esparramadas em uma folha, não tem conversa. As palavras são símbolos sagrados que escondem mistérios.
Dia desses, deparei-me com a palavra “perpétuo”. Lembrei-me do “Soneto da Fidelidade”, de Vinícius de Moraes (“que seja eterno enquanto dure”), mas me lembrei também das paródias que trocam o dure pelo duro: “Que seja eterno enquanto duro”. O amor perpétuo torna-se uma questão puramente sexual e passageira.
Aí eu me pergunto: não fica sem graça a duração se não houver seus momentos de passagem? A arte está no soneto ou na paródia? Eis o enigma, que coloca muitos pensadores em choque. No meu entender, sem a paródia, a arte de Vinícius de Moraes perde a força. Inclusive porque, em sua vida amorosa real, ele era mais adepto da paródia do que do soneto.
Essas observações vão na contramão das observações convencionais. Eu particularmente gosto da contramão, apesar de já ter quebrado a cara com isso. Não no sentido literal, mas real. Após uma cervejada com amigos, peguei minha bicicleta para passear. Entrei na contramão, veio um carro e pummmm! Pegou-me em cheio. Fui parar no pronto-socorro do Piracicamirim.
Por sorte divina, a enfermeira era amiga da família e, ao ver o estrago em meu rosto, chamou um cirurgião plástico para me atender. Até hoje eu tenho a marca que vai do lábio até quase o olho direito. Era para eu ser um Frankenstein, se não fosse a minha prima me salvar. Passados alguns anos, conversando com minha amiga Carla Crócomo (bateu saudade, Carla), ela me disse: “Essa marca que faz de você um homem”.
Fiquei impressionadíssimo com o que ela me disse. Inclusive, depois dessa conversa, meu senso de beleza mudou muito quando olho para as pessoas. Fico vasculhando discretamente falhas que possam revelar melhor aquela que eu observo. O mesmo acontece quando eu olho para uma obra de arte. São as falhas que fazem a grandeza de uma identidade. Não as falhas em seu sentido físico, mas filosófico, estético, o que está por trás da falha material.
Ser artista é ver, através das falhas, um universo escondido, sobre o qual temos pouco conhecimento, mas que aos poucos se revela como uma nova frente para se tentar compreender o que se esconde em forma de enigma. Esta é a minha contribuição adorniana para este final de semana.



