Uma simples placa no terminal de ônibus do São Jorge, fixada no banheiro masculino. Observe bem e veja se há algo anormal nela. Abaixo, outra foto para você se certificar.
Nem sinto vergonha alheia, porque não é alheia, é nossa mesma, dos piracicabanos que prezam tanto a cultura e a educação. Que se orgulham da sua tradição de “Ateneu Paulista”, cidade de escolas e educadores como Sud Mennuci, Jaçanã Guerrini, Honorato Faustino e muitos outros.
É uma triste constatação. O aviso pede para que o usuário “não disperdice água” no banheiro masculino. Para registro, o correto é: “não desperdice água”.
A placa está instalada há um bom tempo, adiei a escrita desta postagem por mais de um ano. Imaginei: “alguém vai perceber, alguém vai trocar essa vergonha”. A placa não foi trocada. Ninguém percebeu ou se importou.
É um daqueles erros que fazem doer os olhos e a alma, além do bolso. O bolso, por constatarmos como o dinheiro dos nossos impostos é mal-empregado.
O que pode-se dizer também da propaganda oficial da prefeitura municipal, veiculada recentemente nos ônibus.
Pode acontecer nas melhores famílias ou nas melhores gestões? Pode.
Pode, mas não deve.
Não me lembro, na época de outras gestões municipais, de ver um erro crasso de português numa placa pública.
Sou muito chato com erros de português, desde muito jovem. Leio como uma traça desde criança, uso clichês embolorados como esse por causa disso. Não por acaso sou professor e, ainda, trabalho como revisor de textos. Entre outras ocupações que utilizam a escrita.
Mas ainda que não fosse nem uma coisa nem outra, ainda assim, não seria para atender professores cricris ou revisores profissionais chatos que a sinalização da prefeitura teria de ser escrita corretamente. É obrigação da prefeitura municipal gerar as peças de sinalização com o português correto em quaisquer condições, normais ou anormais, de temperatura ou pressão.
A placa no banheiro do terminal de ônibus escrita em português errado é uma ponta de iceberg, um sintoma de um ambiente social em que não se preza nem a leitura, nem a escrita, nem a educação formal ou informal.
A pequena placa é testemunha de uma sociedade onde a educação não só é desvalorizada, mas é totalmente colocada de escanteio. Da boca para fora, se diz valorizar a educação e se berra: “o que está faltando a este país é educação”.
Na prática, governos acham que equipar escolas com tablets, notebooks e projetores multimídia é investir em educação. Essas são ferramentas, não são “a” educação. Educação se dá entre professor e aluno. Se não há professor com boa formação, que seja capaz de transmitir conhecimentos aos alunos, não há educação.
Governos também acham que comprar uniformes, mochila e tênis para cada aluno é investir em educação. Não é, isso é assistência social.
E que comprar sistemas apostilados caros sem promover formação de professores é investir em educação. Não é, isso é queimar dinheiro com empresas que encaram a educação como um sistema de produção em série. Pessoas não são produtos, não podem ser encaixados, polidos e padronizados numa linha de montagem.
No Brasil, a crença generalizada e ignorante é que, se custa caro e se coloca a mão no bolso para pagar, está garantida a qualidade. A importância de qualquer coisa é medida pelo quanto se gasta nela. Mas na educação, o aprendizado pode acontecer, com muita eficiência, com a velha lousa e o giz, e o gogó do professor. Mas isso não pode mais, é muito feio, muito atrasado, para exibir na propaganda eleitoral.
Torna-se ainda mais revoltante, portanto a propaganda que recentemente a prefeitura mandou instalar na traseira dos ônibus, falando sobre as escolas municipais. A peça institucional anuncia, com entusiasmo:
“Educação pública com qualidade de escola privada”. E ao lado:
“Piracicaba pronta para o futuro”
Quem vai acreditar nisso?
Um anúncio desse naipe mostra o quanto o sr. prefeito e sua equipe comissionada, próximos do término do mandato, olham para os quatro anos de sua gestão e contam para si mesmos uma história que, a nós, cidadãos, parece um delírio. Um delírio, ou a imersão completa em outra dimensão, em uma realidade alternativa.
Gostaria de morar na Piracicaba da realidade paralela que somente os entes da administração municipal conseguem enxergar. Mas como já declararam apoiadores do prefeito Luciano Almeida depois da derrota nas urnas, parece que a culpada em não enxergar é a população, que me inclui, que não votamos no prefeito para um segundo mandato: somos, segundo eles, “desinformados” e “ingratos”.
Parece haver um esforço da gestão de Luciano Almeida de “limpar a imagem”, gastar o que falta no orçamento municipal deste ano, ou ambas as coisas, antes do fim do mandato. Esse esforço não vai surtir efeito algum se peças de propaganda oficial tão delirantes, desconectadas da realidade, continuarem a ser veiculadas no mês e pouco que falta para passar o bastão. São verdadeiros tapas na cara da população, que está sendo chamada de idiota.






Quanta m...