Recordo algumas passagens interessantes do jornal “A Noite”, na década de 90, sobre o personagem Cinco Tiro, no antigo “Bar do Nerso”, em frente à “Redoviária”. Ele era conhecido assim devido à bala que ainda carregava no peito e exibia com honra aos que queriam saber da sua história pessoal.
Ele contou que foi traído pela esposa e resolveu ir atrás do homem para tirar satisfação. Como era um policial, pegou sua arma e passou a noite procurando sua vítima.
Ao encontrá-la, atirou a esmo na noite escura com a intenção de fazer um cadáver e se esquecer do assunto para sempre.
Mas teve que fugir da cidade assim que ficou sabendo que suas balas não foram certeiras. O homem estava vivo e prometeu vingança.
Foi assim que Cinco Tiro Chegou em Piracicaba: fugido.
Mas sua fuga foi em vão. Certa noite, foi cercado pelo algoz, que, em uma emboscada, esparramou cinco tiros na vala escura em que ele se escondeu.
Quatro delas pegaram na parede ou desapareceram ao léu. Uma delas, no entanto, acertou seu peito.
Houve muito sangue e susto, mas como não atingiu nenhum órgão vital, Cinco Tiro percebeu que não corria nenhum risco de vida. A bala ficou na superfície, entre a pele e o osso. Era um homem sem recheio.
Cinco Tiro se sentiu aliviado, depois de dias sob o risco de infecção. Esqueceu a mulher e o algoz. Passou a viver em Piracicaba, ao seu estilo boêmio.
Cinco Tiro era um craque do futebol. Jogou para o XV de Piracicaba no tempo em que o técnico do Esquadrão era o senhor Romeu Ítalo Rípoli.
Ao lado de Dito Chumbão, toda véspera de jogo ambos eram soltos da cadeia para onde eram enviados sempre a mando do próprio Rípoli, que queria poupá-lo da bebedeira.
“Dispois do jogo a gente tomava umas pra comemorá e caia na gandaia. Mas assim que o ténico ficava sabendo do nosso paradeio, a poliça chegava e nos prendia. Na vespra da partida noi era levado pro estádio e escalado pro jogo”, contou.
Segundo Cinco Tiro, naquele tempo eles eram vistos como heróis pela torcida, devido a facilidade com que faziam ‘gor’.
“A bola vinha da zaga e eu tocava para Dito Chumbão. Ele dibrava uns doi, trei e lançava para a boca da área. Eu matava no peito e... gor”.
Os dias passaram e diariamente encontrávamos o Cinco Tiro no bar. “Quantas dose você tomou hoje”, eu perguntava. Ele: “Umas quarenta”.
Um dia Cinco Tiro resolveu andar descuidado da vida e foi atropelado. Não tenho a menor ideia de onde seu corpo foi enterrado. Mais do que sua história, Cinco Tiro fez diferença para toda a equipe do jornal “A Noite”, que o tinha como um ícone da cidade, das noites piracicabanas. Era um homem à margem do mundo.




