Um novo Ziraldo descerá de uma IA, colorida, brilhante
Virá numa velocidade estonteante
Obs: todas as imagens deste artigo foram geradas com IA, a partir dos prompts do autor. Ou seja, as ideias são minhas, e não do ChatGPT. Para constar, aviso que nenhuma IA nem artista foram maltratados durante a confecção deste artigo.
O 53o Salão Internacional de Humor de Piracicaba tem o seguinte tema para inspirar os cartunistas em 2026: “IA x IH – O Duelo do Século: Algoritmo vs. Alma”.
Entendo que o Salão de Humor queira colocar na roda o tema da Inteligência Artificial. É possível, como qualquer outro tema, que renda bons cartuns charges e boas risadas do público. Intenção louvável, afinada com o nosso tempo, conectada com as expectativas atuais.
Porém, criticar a IA contrapondo “algoritmo” a “Alma” mostra que não houve uma reflexão sobre o tema. A escolha foi apressada. Ou melhor dizendo, apressada foi a formulação.
Somente a menção à IA traria menos riscos, do ponto de vista intelectual - já que se propõe um tema para produção de obras artísticas, culturais.
Do ponto de vista prático, não haverá diferença, pois com toda a certeza, veremos no Salão deste ano cartuns falando sobre... inteligência artificial. E não sobre duelos imaginários de Moinho de Vento artificial contra Dom Quixote humano.
Cada artista abordará o assunto com a sua tese pessoal, sem precisar entrar no mérito quixotesco ou moinhesco de IA’s supostamente malignas, querendo tirar o emprego de cartunistas.
E não se trata de dizer que “não pode criticar a Inteligência Artificial”. Saudade tenho da época em que tudo e todos podiam ser criticados: políticos da esquerda à direita; a Igreja Católica, os crentes, os muçulmanos, os umbandistas; homem, mulher, gays, animais e até as árvores (como diria Bertolt Brecht); e tudo o mais que o artista escolhesse criticar, com inteligência e com humor, é claro.
Nem estamos no terreno das proibições contidas na diminuta caixinha de Pandora, que determinam o que “pode” e o que “não pode” ser criticado, sob risco dos artistas serem cancelados. Até a determinação de um aitolá woke ou ministro do STF qualquer que diga o contrário, a Inteligência Artificial é um tema “válido” e “permitido”.
Então por que complicar as coisas, já que sempre se esperou que cada artista, em cada trabalho de humor gráfico, mostrasse sua tese, sem precisar ser pautado de forma tão limitadora?

Um “duelo” entre inteligência humana e inteligência artificial simplesmente não existe, por ser impossível.
Seria o mesmo que ter medo de que sua namorada te traísse com uma escavadeira. Esta não possui o equipamento para consumar o ato, ou atos, que definem uma traição. Seria uma impossibilidade física. E também não possui o sistema nervoso para sentir prazer, e também não possui alma para sentir sensação de satisfação ou remorso. Seria uma impossibilidade mental, em suma, no jargão da filosofia, uma impossibilidade ontológica.
Não há uma “inteligência artificial” de verdade, porque essas “criaturas” nem corpo tem – algo necessário para possuir uma inteligência verdadeira. O nome não passa de estratégia comercial: o nome correto é LLM – Large Language Model, ou “Grande Modelo de Linguagem”.
A inteligência artificial não “intelige”, não compreende e não pensa, somente simula estas ações. Ela é uma ferramenta, e não uma criatura. Ela é fruto do trabalho e inteligência humanos como são um livro, um cartum, um cesto trançado ou uma casa.
É certo que é uma ferramenta que simula o pensamento, mas não tem capacidade real de pensar, de inteligir, de compreender, como nós, humanos, fazemos. Além de ser incapaz de pensar, também é incapaz de ter iniciativa própria, algo indispensável para ser criativo de verdade, para “acender a lâmpada” da ideia, “dar o start” na criação do enredo, nos personagens de um livro, bolar uma piada num cartum, ou criar qualquer inovação verdadeira, original, disruptiva.
Inteligências Artificiais nos enganam muito bem (e a propaganda que as acompanha). Realizam o que para muita gente é uma mágica: podem juntar Ratinho e Erika Hilton numa mesma ilustração, no estilo de Ziraldo, Van Gogh ou Almeida Jr., não importando se estes artistas já faleceram.
A IA é capaz de realizar a ideia que quisermos, mas ela sempre simulará, e nunca, jamais, irá criar algo por iniciativa própria. Essa é a chave para entender porque não é possível contrapor “inteligência humana” e “inteligência artificial” em qualquer área de conhecimento humano, incluindo o do humor gráfico.
Ela só reage aos nossos comandos. Não veremos uma IA pensando com os seus botões:
“Puxa, estou vendo pelo noticiário que o Trump está se enrolando na Guerra do Irã. E se eu fizer um cartum sobre isso, juntando o aitolá e o Trump...”
Não, isso não acontecerá, porque a IA não vai constatar o que acontece pelo mundo e dar uma resposta artística, nem científica, nem filosófica, a respeito do noticiário.
Agora, se você digitar no prompt – o campo onde nos comunicamos com a IA – ou falarmos com ela ao microfone, ela responderá e fará o que pedimos. Pode até dar sugestões para complementar o que foi pedido, mas sempre partirá do solicitado por você.
Por isso, um embate real entre IA e IH é absurdo, pelo menos enquanto não houver uma Skynet, a empresa que desenvolveu o chip que “deu autoconsciência às máquinas”, na franquia de cinema “O Exterminador do Futuro”.
Na frase “Duelo do Século: Algoritmo vs. Alma” há dois componentes: o pressuposto que há um duelo entre humanos e IA; e que algoritmo e alma são opostas, o que implicaria uma ser alternativa à outra, e que poderíamos fazer uma escolha entre elas.
Já que estamos falando de alma, vou chamar para a conversa alguém que entende muito mais do tema do que eu: o filósofo São Tomás de Aquino.
“Ahnnn, mas Aquino é cristão... acredita em Deus, em santos, em anjos... não é moderno, não é científico...”
Seria possível falarmos de alma a partir de abordagens modernas materialistas, que não acreditam em “alma”, “espírito” ou um mundo do “além”, transcendental?
É quase impossível, pois a modernidade chama a alma de “mente” ou “autoconsciência”, negando todas os elementos que definiam o conceito na filosofia da época anterior ao surgimento da ciência no Ocidente. Tanto “alma” quanto “mente” tentam identificar o núcleo do ser humano, aquilo que nos confere uma autoconsciência, algo que nos diferencia de todos os outros seres do universo. Mas “alma” sempre fala de algo imaterial, contido ou parte constituinte do corpo material humano; “mente” seria o conjunto das atividades derivadas do sistema nervoso humano, inseparável do corpo físico, e não subsiste sem ele.
Mas a frase analisada contém a contraposição entre algoritmo e alma. Portanto vou buscar ajuda para o filósofo que melhor a definiu, para tentar entender a frase. Aquino construiu a mais sofisticada antropologia baseada no conceito de alma. Baseada em Aristóteles, é verdade, mas com contribuições originais, tudo conciliado com o cristianismo (para não dizerem que escondi alguma coisa).
Aquino sustentava que a Alma é imaterial, e só se manifesta em cada pessoa da sua maneira específica porque possui duas potências, exclusivas do ser humano: a volição (que é a vontade, o que faz um ser humano iniciar um projeto, por exemplo) e a intelecção (que é a capacidade de decidir entre o bem e o mal, através da racionalidade; faria a pessoa que iniciou o projeto decidir como, quando e porque o planejaria para alcançar um benefício).
Ambas as potências, quando bem ordenadas, sempre levam para um bem, um benefício, e nunca para um mal. Se for necessário escolher algo ruim, é sempre visando um bem maior.
Animais são conscientes porque possuem outras potências que também possuímos - vegetativas (nutrição, crescimento, reprodução) e sensitivas (sensação, imaginação, apetites sensíveis, memória), mas não possuem Alma, segundo Aquino, porque não possuem as potências volitiva e intelectiva. Dessas potências, as máquinas só possuem memória e imaginação (capacidade de criar imagens), mas nenhuma das outras, sendo inferiores aos animais.
Não possuindo essas potências, não possuem também intelecto, nem capacidade de identificar conceitos universais (o que hoje seria chamado de “abstração”) e nem interioridade reflexiva.
A antropologia tomista conclui que nem animais nem máquinas possuem alma ou autoconsciência. E por isso, não têm iniciativa para bolar cartuns por conta própria ou fazer planos para dominar o mundo.
Fazendo uma tradução fenomenológica (exigência da ciência moderna): máquinas e animais não possuem autoconsciência ou alma porque não manifestam visivelmente a estrutura de experiência própria da autoconsciência / alma, como é possível observar em seres humanos.
Eis a explicação da antropologia tomista sobre a IA mais ou menos como uma calculadora gigante, em vez de um “cérebro eletrônico”.
Assim como a sua capivara de estimação não vai roubar o seu emprego, a IA também não vai. O roedor tem outras preocupações, e a IA não tem nenhuma. Somente o ser humano mostra ações complexas, imprevisíveis e principalmente, criativas e originais.
Diriam vocês que, apesar de todo o meu falatório, muitos cartunistas e ilustradores vêm sendo sim trocados por imagens geradas por IAs na imprensa de todo o mundo.
Pode parecer cínico eu dizer isto, mas concordam que não é a IA que está roubando o trabalho dos artistas, e sim, as pessoas que os contratavam, e agora preferem pagar um plano Plus do ChatGPT?
Os motivos dessa troca com certeza não é deixar de utilizar ilustrações de bons artistas, mas de baixar custos. Uma imagem gerada por IA significa não precisar pagar encargos trabalhistas, mas o principal é que uma ilustração de R$ 500,00 ou de R$5.000,00 de um artista famoso e/ou qualificado, é substituída por um plano de R$39,90 que gera imagens de forma quase ilimitada, e também quase no estilo que quisermos. Sem precisar discutir briefing com artista, sem precisar fazer “refações” de artes.
A maioria dos editores de sites de notícias, ou livros, vídeos ou qualquer mídia que precisa de ilustrações, infelizmente não percebe que a criatividade e expertise de um artista qualificado não é substituída por uma que parece de qualidade até superior que a do artista humano, mas que não passa de uma colagem de várias fontes. Que a IA recebe em sua fase de treinamento – uma coleta de fontes muito diferentes e as mais variadas possíveis, sem as quais não seria possível ela nos surpreender com sua “arte”, uma imitação bem-feita da arte humana, mas somente isso: uma imitação.
Por terem tido suas imagens coletadas para esses treinamentos de IA, muitos artistas estão processando judicialmente quase todas as empresas, como a Open.ai, dona do ChatGPT, até o sr. Elon Musk, com o Grok. Todas por infringir direitos autorais, por usar imagens sem autorização.
Com certeza haverá a superação desta fase, de uma forma ou de outra, pois o uso amplo da IA mal começou. E a humanidade já percebeu que é uma ferramenta utilíssima, da qual não poderemos abrir mão.
Superada a etapa inicial, com certeza acontecerá também algo comum a outras inovações tecnológicas que afetaram o mundo das Artes (já está acontecendo): artistas usarão a IA como uma ferramenta criativa, e não a encararão como substituta.
Os algoritmos da IA não são substitutos, nem antônimos, da alma do artista. Estão mais para substitutos da mão que pintava ou traçava linhas. Antes havia a opção de pintar a mão um cartum, ou escanear o original em nanquim e trabalhá-lo no Photoshop. Além destes recursos (que continuarão sendo utilizados) agora o artista tem, a mais, a simulação da habilidade de um Leonardo da Vinci para executar a ideia que só ele, artista humano, é capaz de ter.
Portanto, não há duelo nenhum entre algoritmo e alma. Há, sim, “duelo” entre editores contratantes de artes, que antes utilizavam um free-lancer, uma agência de ilustração, o iStock ou o FreePik, e agora tem à disposição o Grok, o Gemini, o ChatGPT, o Midjourney e muitos outros, para gastar menos.
E por isso, infelizmente, retirará o trabalho dos artistas que não se adaptaram a um novo tempo.
Novos Ziraldos, Angelis e Glaucos surgirão, dominando a nova ferramenta da IA para gerar suas obras e piadas visuais, engraçadas, críticas, interessantes, divertidas. Mesmo que o Salão de Humor não goste.





