Um pouco de clássico com Strauss
A moral nasce de valores eternos, fundamentais para o processo civilizacional
O pensamento político de Leo Strauss é fundamentado em muito estudo sobre o pensamento clássico. No terreno de Sócrates, Platão e Aristóteles, ele acompanha o pensamento sobre a boa sociedade e a moral que rege a natureza humana. A moral nasce de valores eternos, fundamentais para o processo civilizacional, em direção ao bem comum.
O contraponto a essa visão de mundo, em que o homem e suas controvérsias interiores estão sempre presentes, gerando muita discussão, encontra sua primeira versão na tese de que a sociedade pode ser entendida e ajustada cientificamente. No campo da modernidade, o entendimento científico da sociedade fez parte dos estudos ingleses, como no de Hobbes.
Havia a ideia de que seria possível compor uma forma de pensar modelada pelas ciências consideradas exatas, como a matemática e a física.
Isso significa que a construção de regras e leis poderia orientar a sociedade em seu desenvolvimento, como se o homem se submetesse a essas vestiduras tecnicistas e artificiais, a partir de então, se tornasse mais previsível em sua conduta e forma de pensar. É o positivismo científico em seu nascedouro.
As forças ocultas, o subjetivo, o divino, o conflito humano, tudo isso seria ajustado a uma forma lógica de perceber a realidade e propor transformações dentro de um modelo, de entendimento comum. O mal desapareceria com um passe de mágica.
Um segundo contraponto moderno para Strauss pode ser visto no historicismo. Ou seja, os valores mudam e se adaptam às circunstâncias conforme o momento histórico. Não haveria, portanto, valores eternos, mas sim, adaptações humanas ao momento, de acordo com o que fosse melhor para o homem. Todas as pesquisas comportamentais estariam sob esse manto histórico. Observar tendências e propor soluções de acordo com perspectivas captáveis estatisticamente.
Por isso, segundo Strauss, o pensamento moderno ignora o clássico, como se ele fosse ultrapassado, obsoleto e desnecessário para estudos atuais. É nesse ponto que suas reflexões florescem, tentando recuperar o pensamento clássico, abrindo uma nova abordagem filosófica, em que os valores e fatos são inseparáveis e precisam ser melhor entendidos como tal.
Guerras e revoluções nascem, segundo ele, do desequilíbrio humano, que não se sustenta nem em cientificismos nem em historicismos, mas sim da natureza humana, pois brotam da profundidade da alma, de valores e fatos inseparáveis. Claro que Strauss traz à luz Napoleão e Hitler, que foram homens fortes e servem de referências para explicar este pensamento que ele defende. Mas podemos falar também do russo Vladimir Putin e sua guerra para dominar o território ucraniano.
O que há no fundo da alma de Putin? Valores e fatos, que para ele são inegociáveis e precisam ser resolvidos por intermédio da força. Ele decide o momento da guerra e da violência. Tal conduta belicosa não se encontra explicação sustentável pela filosofia da ciência, porque Putin não respeita regra alguma; nem mesmo pela filosofia da história, porque ele rejeita adaptações.
É preciso ir além e buscar a natureza bruta do homem, com suas controvérsias interiores, povoadas de maldições, que só o pensamento clássico consegue sustentar com desenvoltura. O bem e o mal renascem e não há uma solução prática para resolver sua dicotomia aos moldes propostos pelos estudos modernos de sociedade. Esses aspectos só são perceptíveis por alguém que não ficou preso à simplificação da natureza humana, enquadrável, ajustável e modelável.
Pretendo voltar a esse tema. Aqui há apenas um preâmbulo do pensamento de Strauss, um mestre de imensa importância para quem ainda não se perdeu na superficialidade do pensamento contemporâneo sobre a sociedade e seus componentes.




