
Quase três em cada dez trabalhadores de empresas industriais relataram sintomas de estresse, ansiedade ou depressão durante o início da recuperação econômica, após a pandemia de covid-19 no Brasil. Entre eles, cerca de 10% tiveram sintomas graves ou extremamente graves, segundo levantamento da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP) e do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O trabalho foi publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional no último dia 23.
A pesquisa reuniu 2.241 trabalhadores de nove empresas dos setores de manufatura e construção civil que permaneceram em operação durante a pandemia. Entre outubro e novembro de 2021, os participantes responderam voluntariamente a um questionário on-line e anônimo, que avaliou sintomas de estresse, ansiedade e depressão. O instrumento identifica a presença e a intensidade desses sintomas, mas não estabelece diagnósticos clínicos. A maioria dos respondentes exercia funções administrativas e quase metade trabalhava exclusivamente em home office.
Realizado durante um período marcado por um otimismo cauteloso após a disponibilidade da vacina, o estudo identificou, no entanto, subgrupos mais vulneráveis ao sofrimento psicológico. O padrão dos fatores associados foi semelhante para estresse, ansiedade e depressão, com as trabalhadoras do sexo feminino e os trabalhadores mais jovens se destacando como os subgrupos mais vulneráveis.
O trabalho híbrido também esteve associado a um maior grau de estresse, ansiedade e depressão em comparação ao presencial. Os achados acompanham resultados de outras pesquisas realizadas durante a pandemia e ampliam o conhecimento sobre trabalhadores de empresas industriais, grupo ainda pouco estudado naquele contexto.
“O estudo mostrou uma ‘fotografia’ da saúde mental desses profissionais durante a fase inicial de reabertura e recuperação econômica após o início da vacinação. Cerca de 30% dos participantes apresentaram sintomas de estresse, ansiedade e/ou depressão, sendo que, aproximadamente, 20% tinham sintomas leves ou moderados, e cerca de 10%, sintomas graves ou extremamente graves”, conta o psiquiatra e primeiro autor da pesquisa, Geilson Geilson Lima Santana.
Para os autores, uma contribuição da pesquisa é chamar atenção para o sofrimento mental de pessoas que ainda hoje trabalham nessas condições, bem como para a importância de envolver tanto a organização corporativa quanto a assistência à saúde. “Não basta apenas oferecer suporte organizacional, há condições mentais que exigem assistência médica estruturada”, avalia o médico Alberto José Niituma Ogata, pesquisador do FGV Saúde coautor da pesquisa.
Geilson Santana é pesquisador do Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica da USP –
Foto: Arquivo pessoal
Estado de alerta
Durante o surto da pandemia, muitos trabalhadores da indústria tiveram que manter o trabalho presencial, uma vez que o setor foi considerado uma das atividades essenciais da economia. Esses trabalhadores tiveram que manter vigilância constante em relação às medidas preventivas, levando a um estado persistente de alerta que, combinado ao medo do contágio e de transmissão da covid-19 a seus entes queridos, aumentou a carga psicológica além do que já era esperado para trabalhadores de outros setores.
Embora o levantamento não permita concluir que o modelo de trabalho tenha causado os sintomas, ele demonstra a confiança dos trabalhadores na vacina. “De certa forma, esse número já era esperado, pois muitos dos profissionais já estavam vacinados, e a maioria desses 30% apresentou quadros leves ou moderados”, destaca Santana.
“No levantamento, constatamos que cerca de 10% desses trabalhadores apresentavam sintomas graves ou muito graves de ansiedade, depressão ou estresse. Quando as pessoas continuam trabalhando, mas com um comprometimento importante da saúde mental, isso pode aumentar o risco de acidentes. As empresas precisam olhar para essa situação antes que isso resulte em um afastamento”, afirma Ogata.
Na avaliação do pesquisador, o poder público e os serviços privados precisam acolher esses trabalhadores, oferecer tratamento e acompanhar o cuidado ao longo do tempo. Isso inclui facilitar o acesso a profissionais de saúde mental e amparar pacientes que enfrentam dificuldades com medicamentos e continuidade do tratamento.
Ana Maria Malik, também pesquisadora do FGV Saúde, médica pela USP e coautora do artigo, destaca a distância entre a visibilidade do tema e a capacidade de atendimento. “Está todo mundo falando em saúde mental, mas ainda falta infraestrutura para atender as pessoas”, afirma.
Os resultados do estudo oferecem subsídios para pensar políticas públicas e destacam a necessidade de estratégias direcionadas a saúde mental no local de trabalho, incluindo intervenções focadas na gestão de riscos psicossociais, apoio a modelos de trabalho híbridos e priorização de grupos de alto risco.
Para Geilson Santana, é importante que as empresas desenvolvam intervenções voltadas para a gestão de riscos psicossociais. “As empresas precisam ter programas de avaliação periódica da saúde mental dos seus empregados, especialmente aqueles sob maior risco de psicopatologia, e encaminhamento para tratamento daqueles que já apresentem algum transtorno mental”, afirma.
A pesquisa Estresse, ansiedade e depressão em trabalhadores de setores industriais essenciais, durante o início da recuperação econômica, após a pandemia de covid-19 no Brasil foi publicada na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional e está disponível on-line.
Fonte: Jornal da USP.




