João Paulo, irmão da enfermeira Ana Carolina, da Santa Casa, doou a medula óssea ao sobrinho Caio em abril deste ano
Todo terceiro sábado de setembro é celebrado o Dia Nacional do Doador de Medula Óssea, data que busca sensibilizar a população para a importância de se cadastrar no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) e, com isso, ampliar as chances de cura de pacientes com doenças hematológicas graves. Por trás dessa estatística existem histórias como a de Caio, de 4 anos, filho de Ana Carolina Ligabo, enfermeira coordenadora da pediatria da Santa Casa de Piracicaba.
Caio, que foi diagnosticado com a Síndrome de Wiskott-Aldrich - uma doença genética rara que afeta o sistema de defesa do corpo e a capacidade do sangue de coagular, manifestando-se quase exclusivamente em meninos, - precisou passar por dois transplantes de medula óssea nos últimos dois anos. No primeiro procedimento, o doador foi o próprio pai da criança. A medula pegou, no entanto, após alguns meses a doença havia voltado e a família precisou recomeçar à busca por um novo doador compatível. Dessa vez, o irmão mais velho de Ana Carolina, João Paulo, tio de Caio, foi identificado como compatível e realizou a doação em abril deste ano. O transplante ocorreu em Curitiba (PR) e o resultado foi diferente: a medula pegou e Caio segue em recuperação.
“Quando o primeiro transplante não deu certo, a gente teve que reaprender a ter esperança. Foi o meu irmão quem devolveu o meu filho para mim”, conta Carolina, que soma à experiência de mãe a vivência profissional em uma pediatria que recebe crianças em diversos tipos de tratamento.
“Eu pedia a Deus a chance de ser a solução — e o que recebi de volta foi a certeza de que nenhum problema meu é maior do que aquilo que realmente importa: a vida do meu sobrinho”, relatou João Paulo
À família, Carolina resume o que a doação do irmão representou em uma frase que carrega o peso do que viveram: “Meu irmão João não doou só medula, doou vida para o meu filho e, com isso, reforçou um laço que já era de sangue, mas que agora é também de cura”.
O que é o transplante de medula óssea
A hematologista Jordana Torri Regazzo Fuzato, do Hemonúcleo da Unicamp em funcionamento na Santa Casa de Piracicaba, explica que o transplante de medula óssea é uma etapa importante no tratamento de diversas doenças. O procedimento permite que o paciente receba altas doses de quimioterapia ou radioterapia de corpo inteiro, com a substituição das células doentes da medula por células saudáveis.
Segundo a médica, existem dois tipos principais de transplante. O autólogo utiliza células do próprio paciente, coletadas e mantidas congeladas até o momento da infusão. Já o alogênico é feito com células de um doador saudável, que pode ser um irmão totalmente compatível, um parente haploidêntico — com metade da carga genética compatível —, um doador voluntário não aparentado ou uma unidade de sangue de cordão umbilical ou placentário.
A compatibilidade entre doador e receptor é avaliada por um exame chamado HLA. A tipagem do paciente é comparada primeiro com a dos irmãos e, quando não há compatibilidade na família, com a de doadores cadastrados no Redome, que tem acesso a 43 milhões de doadores cadastrados ao redor do mundo.
“Quanto mais pessoas estiverem cadastradas, maior a chance de um paciente encontrar o doador ideal. Muitas vezes essa busca é o que separa uma criança da cura”, afirma Jordana.
Como funciona a doação
Antes do transplante, paciente e doador passam por avaliação. O receptor é internado, recebe um cateter e entra em regime de condicionamento — quimioterapia, com ou sem radioterapia — para eliminar as células doentes.
Quando o transplante é autólogo, as células previamente congeladas são descongeladas e infundidas pelo cateter. Quando o transplante é alogênico, a coleta de medula ocorre sob anestesia, em centro cirúrgico ou do sangue periférico por aférese em uma máquina que separa as células do sangue. O material coletado é infundido pelo cateter do paciente e, transportado pela corrente sanguínea, chega naturalmente ao interior dos ossos. Após duas a quatro semanas, as células do receptor já estão renovadas e voltam a produzir sangue.
Como se tornar um doador
Para se cadastrar é preciso ter até 35 anos, procurar o hemocentro/hemonúcleo mais próximo e preencher um termo de consentimento, com coleta de uma pequena amostra de sangue (10 ml). Os dados devem ser mantidos sempre atualizados, já que a compatibilidade com um paciente pode surgir anos após o cadastro. Caso haja compatibilidade identificada, o candidato passa por novos exames e por avaliação clínica antes de ser confirmado como doador.




