“A moralidade só é possível em um contexto que não pode ser criado pela própria moralidade”.
O pensador político a jogar a essência do pensamento clássico grego no triturador de ideias foi Maquiavel, segundo Leo Strauss. O florentino destrói a centralidade da moral e da virtude na organização da conduta humana. Com este desregramento do espírito, o homem perde seu valor de face e ganha uma máscara carnavalesca, para improvisar sua maneira de ser conforme as circunstâncias ou de acordo com os interesses do ditador da vez.
Em artigos anteriores, tratamos da tese de Leo Strauss, em que ele apontava a busca pela integridade do homem ocidental, educado segundo a noção da paideia, considerando valores éticos, domínio intelectual e desenvolvimento físico do indivíduo para a vida em sociedade. Em que o teatro trágico criava o ambiente catártico para a unidade dos sentimentos, para a formação da alma em defesa da vida e do país.
A tese de que a verdade poderia estar em cada um de nós, bastando apenas um processo de reflexão adequado para se chegar a ela, é destroçada pelo pensamento de que a verdade é relativa e pode ser formatada para fins específicos. Maquiavel defende também que o homem virtuoso é apenas uma invenção social. Sendo uma invenção social, pode ser reprogramado a qualquer momento, a depender do interesse do líder.
Segundo Maquiavel, os fundadores de Roma, por exemplo, eram fraticidas. Com isso, ele abre as portas para a formatação do homem, que não nasceu virtuoso, mas pode ter se tornado virtuoso. “A moralidade só é possível em um contexto que não pode ser criado pela própria moralidade, pois a moralidade não pode criar a si mesma”, afirma Strauss sobre o pensamento de Maquiavel
O mesmo pensamento sobre a virtude vale para o pensamento do pacto social, que será defendido mais tarde por Rousseau. Se foi necessário um pacto social, pensava o filósofo do iluminismo, significa que o homem não nasceu para viver em sociedade, se não por imposição. Com isso, podemos supor que o homem, antes de ser social, era naturalmente selvagem.
Observe, leitor, a fuga da centralidade do espírito humano ao longo do tempo a partir de ideias distorcidas. Do homem grego virtuoso que buscava fazer o bem, com os pensadores modernos, temos o homem maleável, que pode ser formatado ao bel-prazer (Maquiavel). Com Rousseau, nasce a tese de que o homem vive artificialmente em sociedade, não sendo essa convivência espontânea.
Com isso, criamos as condições para que a sociedade perca suas referências espirituais e de desenvolvimento social a partir dos valores naturais e se torne um ser artificial. Os indivíduos passam então a ser vistos como seres facilmente manipuláveis.
O mundo moderno vê o homem, de certa forma, como sendo esse elemento sem identidade própria. A educação que ele recebe, inclusive, é carregada de informações que não consideram seus valores, seus princípios e de seus familiares, sua visão de mundo e seu desejo de conviver com seus iguais, em harmonia. A máscara social que lhe impuseram se torna maior do que o próprio rosto e caricata.



