Uma pinacoteca tomada por cavalos, feno e capim
O projeto de Ermelindo Nardin que causou choro e ranger de dentes
Por Renato Ferrante*
Agosto. 1984. Em Brasília ainda não eram 19 horas. Em Piracicaba, interior de SP, estava eu nas dependências da Secretaria de Ação Cultural, na companhia de Ermelindo Nardin, Juarez Borges e Claudia Paléo. Éramos a Comissão Organizadora do 17º Salão de Arte Contemporânea (SAC) da cidade e tínhamos uma agenda importante naquele dia: definir qual seria a participação da Pinacoteca Municipal na programação do evento.
Já havíamos decidido transferir o local de exibição das obras de arte para o hall do Teatro Municipal, interrompendo a tradição estabelecida desde a primeira edição do SAC em hospedar-se na Pinacoteca. Havia motivos de sobra para a decisão. Eu levantara a informação de que o público visitante somado das últimas três edições atingira apenas 200 pessoas, um número lastimável que atribuíamos principalmente à localização infeliz da Pinacoteca, rejeitada pelo público.
Projetada por Archimedes Dutra e inaugurada em agosto de 1969, a escolha do local da futura casa de artes foi objeto de polêmicas e amaldiçoado por críticas desde suas origens. O motivo: obstruir a visão da curva do rio Piracicaba, na rua do Porto, um ponto não só turístico, mas também retratado em inúmeras obras canônicas de pintores locais.
Quando em 2024 finalmente decidiu-se mudar a Pinacoteca para novas instalações no Engenho Central, as críticas voltaram com um novo argumento – agora era necessário manter a instituição no mesmo local para “preservar a tradição e a memória histórica”. Risos.
A Pinacoteca como obra de arte
– Eu tenho uma proposta – adiantou-se Nardin ao iniciarmos a reunião.
– Minha ideia é transformar a própria Pinacoteca, o edifício inteiro, em uma obra de arte, uma obra de arte conceitual. Fazer uma intervenção artística no edifício de modo que ele venha a expressar um conceito para o público. E o conceito é o vazio cultural que a atual Pinacoteca representa para a cidade.
– Vamos esvaziar completamente a Pinacoteca. Retirar as obras expostas, as esculturas, os móveis, tudo. Deixar tudo vazio, com as portas e janelas inteiramente abertas. Cobrir o chão com capim, espalhar fardos de feno no espaço de exposições, fardos enormes, gigantes... E colocar alguns cavalos para ficarem perambulando lá dentro. A Pinacoteca permaneceria dessa forma durante os dois meses de duração do SAC: aberta ao público, como uma obra de arte a ser apreciada. Essa é a proposta.
E concluiu, perguntando candidamente: – O que vocês acham?
Bem... diante do exposto, eu não achava nada. Eu só queria gritar “Bravo! Bravo! Genial!” e bater palmas. Após alguns segun dos de estupefação, nos entreolhamos e explodimos em gargalhadas de aprovação. Era, de fato, uma proposta genial, iconoclasta, e perfeitamente harmonizada com o tema “Desordem & Beleza”, escolhido para o salão daquele ano.
Desordem e beleza, luxo, calma e volúpia
Eu havia sugerido o tema a partir de “ordem e beleza”, um trecho do poema O Convite à viagem, obra clássica de Charles Baudelaire, do livro As Flores do Mal (1857), minha leitura preferida na época. Transcrevo aqui um trecho para seu deleite, caro leitor hipócrita, mon semblable, mon frère!
“Minha filha, minha irmã,
Pensa na doçura
De irmos viver juntos lá!
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus enevoados
Têm para o meu espírito o encanto
Misterioso e doce
De teus olhos traiçoeiros
Quando brilham através das lágrimas.
Lá, tudo é ordem e beleza,
Luxo, calma e volúpia.
...
Vês como tudo ali
É feito para ti,
Minha doce irmã?
Vês como tudo ali
É feito para nós?
Vês como tudo ali
Nos convida a viver juntos?
Vês como tudo ali
Nos convida a amar e a morrer?
(trad.: Ivan Junqueira)
Próxima parte será publicada no sábado (24)
*Renato Ferrante é editor em Três Gatos Editora e está escrevendo um livro sobre os anos 80 em Piracicaba




Genial!