
A presença de uma ostra de origem asiática no Complexo Estuarino de Cananeia, no litoral sul do estado de São Paulo, tem despertado preocupação de pesquisadores, órgãos ambientais e comunidades extrativistas. A velocidade com que a Saccostrea cucullata tem se dispersado pela região chega a afetar o desenvolvimento da ostra-do-mangue (Crassostrea brasiliana), uma espécie nativa que serve como principal fonte de sustento para as famílias de ostreicultores que vivem às margens do estuário.
Acredita-se que essa espécie exótica e invasora (EEI) tenha sido trazida a bordo de grandes navios pela água de lastro, uma vez que o estuário fica localizado entre dois portos de intensa atividade marítima, Santos (SP) e Paranaguá (PR). As EEIs são organismos introduzidos em locais fora de sua área natural de ocorrência pela ação humana ou por contextos naturais, como correntes marinhas, mas que conseguem se adaptar ao novo ambiente e se reproduzir a ponto de causar danos ambientais, econômicos ou sanitários.

O primeiro registro na literatura científica da presença da Saccostrea cucullata no litoral brasileiro data de 2017, a partir de amostras coletadas em Bertioga, em 2014. As águas calmas e salobras do estuário de Cananeia, algumas centenas de quilômetros ao sul de Bertioga, entretanto, também oferecem um ambiente adequado para a dispersão da ostra exótica, que concorre com a nativa por espaço nos rizóforos dos mangues, rochas e outros substratos, como píeres para embarcações. O problema é que, às margens do estuário, diversas comunidades dependem da extração da ostra nativa para sua subsistência.
Externamente, a Saccostrea se diferencia da espécie nativa apenas por apresentar em sua concha um serrilhado característico, daí o nome “tampinha”. Quando a ostra é aberta, in natura, entretanto, as diferenças ficam mais evidentes. O molusco tem uma aparência esverdeada que difere do branco predominante da ostra-do-mangue. Além disso, o seu sabor é mais amargo e menos palatável, o que reduz seu apelo entre os consumidores e, consequentemente, seu valor comercial, afetando diretamente a renda dos ostreicultores.

O impacto da nova espécie de ostra na biodiversidade, na economia e no sustento das famílias mobilizou a criação de uma rede de ação contra a bioinvasão. Essa rede articula Unesp, Fundação Florestal, Ibama, ICMBio, Instituto de Pesca e representantes da comunidade quilombola do Mandira, de Porto Cubatão, da vila de Itapitangui e das reservas extrativistas da Ilha do Tumba e do Taquari, entre outros grupos envolvidos com o extrativismo da ostra-do-mangue nativa.
Desde 2023, o grupo tem realizado encontros periódicos em que são discutidas estratégias de combate à Saccostrea cucullata. A Unesp é parte da rede desde seu início. Esse envolvimento embasou a elaboração de um projeto junto ao edital Programa de Pesquisas em Políticas Públicas da Fapesp para desenhar estratégias integradas de monitoramento e manejo da ostra exótica com o objetivo de controlar sua distribuição.
“As comunidades estão de olho nesse tema porque afeta diretamente o seu modo de vida e sustento”, explica a bióloga Marília Cunha Lignon, docente do Departamento de Recursos Pesqueiros e Aquicultura da Unesp, no câmpus de Registro. “O envolvimento desses comunitários no projeto tem sido muito importante e foi a partir do diálogo com esses grupos dentro da rede que nós elaboramos o projeto que foi submetido à Fapesp”, diz ela, que é a responsável pelo projeto financiado pela agência. “Quando realizamos as primeiras pesquisas com essa ostra, ainda em nível de TCC, em 2019, alguns ostreicultores relatavam cerca de 15% de ostras exóticas invasoras. E essa quantidade nos assustou na época. Hoje, alguns comunitários relatam mais de 80% de invasoras em alguns trechos”, diz ela.
O projeto da Fapesp, com duração de quatro anos, tem desenvolvido ações de pesquisa com estudantes do ensino médio ao doutorado, que buscam compreender melhor a ecologia da espécie invasora e mapear sua dispersão pelo território. A proposta também promove atividades de extensão que viabilizam a escuta dos ostreicultores e oferecem orientações sobre o manejo da nova ostra. Outra frente atua na elaboração de propostas de gestão que visam aliar o controle da Saccostrea cucullata com a geração de renda para famílias em situação de vulnerabilidade que estão sendo afetadas pela bioinvasão.
Entendendo a ecologia e o impacto das ostras invasoras
Um dos problemas a serem investigados, no âmbito da pesquisa, é o esclarecimento de relatos de ostreicultores sobre a ocorrência de ostras com características morfológicas intermediárias, sugerindo uma hibridização entre as espécies nativa e exótica. Um projeto de mestrado vinculado à Fapesp está coletando exemplares dessas ostras para análises genéticas que comprovem, ou não, o cruzamento. Outras frentes de investigação irão se aprofundar nos estudos sobre a ecologia da Saccostrea cucullata no novo ambiente e seu impacto sobre a população nativa de ostras-do-mangue.
Outro plano de ação envolve o monitoramento da ostra exótica na região. Os relatos dos ostreicultores durante os encontros da rede revelam a percepção de que a Saccostrea cucullata está avançando rapidamente sobre a espécie nativa. Ainda assim, é preciso quantificar essa dispersão com dados objetivos.
Nessa seara, Marília e colegas da Fundação Florestal elaboraram um protocolo para orientar a contagem e mensuração das duas ostras, que já está sendo aplicado na prática e continuamente aprimorado. A ideia é que a aplicação de uma metodologia simples e replicável permita à comunidade colaborar com os pesquisadores no acompanhamento da ocorrência e da distribuição da nova espécie. Em outra frente, foi criado um projeto de monitoramento da Saccostrea cucullata no aplicativo iNaturalist, uma plataforma gratuita de ciência cidadã voltada para a observação da biodiversidade em que é possível fazer o registro da ocorrência da espécie com o uso do celular.
Renda a partir do controle da ostra invasora
Devido ao maior valor comercial da ostra nativa, a espécie termina sendo retirada de seu ambiente por boa parte dos produtores, o que abre espaço para que a invasora se instale, facilitando sua dispersão. Para minimizar esse processo, o doutorando Caio Zmyslowski está desenvolvendo um projeto junto ao Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade de Ambientes Costeiros da Unesp para viabilizar a criação de uma proposta de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) que remunere os ostreicultores que retirarem a Saccostrea cucullata do ambiente.

O mecanismo não é uma novidade no mosaico de áreas protegidas localizado no litoral entre os estados de São Paulo e Paraná, conhecido como Lagamar. Iniciativas semelhantes geridas pela Fundação Florestal já remuneram pescadores que retiram lixo do mar e comunidades tradicionais que conservam a biodiversidade da região. A proposta para um PSA voltado ao combate à bioinvasão vem sendo construída a partir de uma série de encontros com ostreicultores. “O que temos observado nas conversas é que a presença dessa ostra está impactando o modo de vida vinculado ao extrativismo. A dependência socioeconômica da ostra nativa por parte dessas comunidades é muito grande, e elas estão preocupadas”, afirma Zmyslowski.
O doutorando cita o caso da Reserva Extrativista do Mandira, uma unidade de conservação localizada em Cananeia, que serve de fonte de subsistência para o quilombo de mesmo nome. Os quilombolas possuem uma longa relação com a produção de ostras, sua principal atividade econômica. Por muitos anos, essa atividade foi marginalizada e associada à subsistência. No início dos anos 1990, entretanto, uma parceria com o Instituto de Pesca, a USP e a Fundação Florestal viabilizou a produção das ostras em viveiros de engorda, reduzindo o impacto sobre o manguezal e aumentando a capacidade de produção e a renda.
Desde então, as ostras desempenham um papel central na vida dos mandiranos, estimulando inclusive o turismo de base comunitária no quilombo. Por sugestão do líder da comunidade, Chico Mandira, uma nova geração tem se engajado no projeto de combate à bioinvasão da Unesp. Atualmente, Lucas Teixeira Alvez participa do Programa de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM) e suas pesquisas envolvem a instalação de coletores de sementes de ostras no estuário, em manguezais e nos viveiros de engorda, para comparar a capacidade de cada uma das espécies de incorporar novos indivíduos à população, o que os biólogos chamam de taxa de recrutamento.
Apesar da presença de diferentes projetos envolvendo a remuneração por ações de cunho socioambiental na região de Cananeia, Zmyslowski explica que um dos problemas a resolver a fim de viabilizar um PSA que recompense a retirada das ostras exóticas envolve determinar um destino sustentável para esses materiais. Isso pode assegurar que o combate à bioinvasão não gere um impacto negativo associado aos seus resíduos.
Para o pesquisador, é importante que a solução se enquadre no conceito de economia circular, mas ele ressalta a falta de referências: não existe, na literatura científica, nenhum programa de remuneração pela retirada de espécies marinhas invasoras nos moldes deste que está sendo proposto para o estuário.

“Existem projetos para reaproveitamento de resíduos de pesca, por exemplo, mas não no contexto de combate a espécies invasoras. O que existe sobre organismos invasores está relacionado principalmente a espécies terrestres. Então, existe um pioneirismo nesse nosso trabalho”, diz ele.
Entre as opções em análise para o material coletado estão o uso do casco triturado para a sinalização de trilhas no ecoturismo, algo que já é praticado em menor escala na região, e sua utilização, por ser rico em cálcio, como insumo para melhorar a qualidade do solo na agricultura.
Em outra linha de atuação, um projeto de mestrado sob orientação da engenheira de alimentos Dariane Enke, docente do Departamento de Recursos Pesqueiros e Aquicultura da Unesp, também no câmpus de Registro, explora alternativas culinárias para a ostra exótica. A ideia é incluir o ingrediente em receitas que não demandem o consumo in natura, cujo sabor não é bem recebido pelos consumidores. Em setembro, um festival gastronômico realizado em Cananeia apresentou alternativas de preparo da ostra em risotos, patê, farofa e uma coxinha de ostra exótica defumada, uma das preferidas do público presente no evento.
De forma geral, a literatura científica entende o combate às bioinvasões marinhas como um desafio complexo. No caso da Saccostrea cucullata, os impactos não estão restritos à biodiversidade da região de Cananeia, que abriga uma das maiores e mais bem conservadas áreas de manguezal do Brasil, mas colocam em risco também o sustento de dezenas de famílias e a tradição da ostreicultura local.
Diante desses desafios, o projeto da Unesp prevê ações integradas e o envolvimento direto daqueles que vivem dos recursos disponibilizados pelo território. “A gente entende que quando se fala em bioinvasão, a erradicação completa costuma ser muito difícil, principalmente no grau de dispersão em que a Saccostrea cucullata se encontra na região. Nossa ideia, portanto, é controlar essa espécie no ambiente por meio de diferentes iniciativas que vêm sendo formuladas em diálogo com a comunidade local”, afirma Marília.
Matéria: Marcos do Amaral Jorge | Jornal da Unesp.



