As redes sociais e os aplicativos para troca de mensagens ampliaram a conexão entre as pessoas e facilitaram o compartilhamento de conteúdo digital. No entanto, também se tornaram ambientes propícios para a divulgação de informações falsas com finalidades diversas. Recentemente, as inteligências artificiais generativas potencializaram esse cenário de desordem da informação, uma vez que facilitaram a produção desse tipo de conteúdo e dificultaram a distinção do que é confiável ou não.
Francisco Rolfsen Belda, professor do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) da Unesp, afirma que existem pelo menos três características que fazem do Brasil um país propício para a propagação de desinformação: uso intenso das redes sociais, carência de educação midiática e ausência de iniciativas regulatórias capazes de mitigar os abusos cometidos nas plataformas digitais.
O docente enfatiza a importância da atuação dos jornalistas profissionais para fazer frente a esse ecossistema de desinformação. “A atuação de jornalistas e checadores que se dediquem profissionalmente, de modo sistemático, a identificar e corrigir as informações falsas é cada vez mais necessária”, defende. Por outro lado, exercer este papel também implica muitos desafios. “Os esforços de combate à desinformação ficam muito aquém do necessário diante da avalanche de conteúdos desinformacionais”, avalia.
Este quadro de desafios e insuficiências está por trás da criação do Codesinfo – Fundo de Inovação para o Jornalismo, coordenado por Belda. O objetivo do programa é capacitar organizações jornalísticas com ferramentas de combate à desinformação e soluções que aprimorem os processos de apuração noticiosa nas redações. Iniciativa do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), do qual o docente faz parte como diretor de operações, e financiado pela Google News Initiative, o Codesinfo está na segunda edição.
“Ao longo do ano de 2025, o Codesinfo financiou cinco projetos especificamente voltados ao combate à desinformação. Agora, em 2026, esse fundo foi recalibrado para incorporar o uso da inteligência artificial”, conta Belda.
Mais cinco ferramentas foram desenvolvidas na edição deste ano que, embora tenham como característica distintiva o uso da inteligência artificial, também colaboram com o combate à desinformação na medida em que promovem o jornalismo profissional e aprimoram a capacidade das organizações jornalísticas de produzirem conteúdo confiável.
As ferramentas em código aberto
A principal característica das ferramentas desenvolvidas por meio do Codesinfo é a disponibilização pública de seus códigos-fonte. Os projetos podem ser encontrados em repositórios no GitHub, permitindo que outras organizações adaptem as soluções às suas próprias necessidades.
“Redações de diferentes portes e regiões do país podem adaptar e aplicar essas tecnologias à sua própria realidade. Isso nos permite amplificar o acesso à inovação, descentralizando recursos e fortalecendo a diversidade do ecossistema jornalístico brasileiro, com olhar especial para os veículos locais”, afirma o coordenador do Codesinfo.
Na primeira edição, em 2025, as cinco organizações jornalísticas que receberam financiamento de até R$100 mil para o desenvolvimento de projetos com foco no combate à desinformação foram: Ambiental Media, Aos Fatos, Folha de São Paulo, Folha do Mate e Núcleo Jornalismo. Entre as propostas executadas estão um chatbot para fornecer informações em tempo real sobre mudanças climáticas; uma ferramenta de monitoramento de anúncios de saúde enganosos; um sistema para gerar vídeos curtos a partir de textos e imagens publicados em jornal; e dois plugins, um para verificar fontes de notícias e outro para fornecer contextos de reportagens já publicadas.
Na edição deste ano participaram: Infoamazonia, Ambiental Media, Correio Sabiá, Agência Tatu e Revista Azmina. Desta vez, os projetos com base em inteligência artificial receberam financiamentos de até R$160 mil.
As soluções desenvolvidas foram uma ferramenta de geojornalismo para associar reportagens a dados geográficos; uma infraestrutura para veículos de jornalismo disponibilizarem seu conteúdo para sistemas de inteligência artificial de forma estruturada, transparente e sob regras próprias; uma plataforma para permitir que eleitores monitorem os políticos do Congresso Nacional, democratizando o acesso a votações, projetos e discursos em plenário; uma plataforma para acompanhar temas de interesse publicados nos Diários Oficiais dos nove estados do Nordeste, com alertas, resumos e contexto para facilitar a apuração jornalística; e uma ferramenta para monitorar e analisar projetos de lei no Congresso Nacional que impactam sobre os direitos das mulheres e da população LGBTQIAPN+.
Para apoiar o desenvolvimento das soluções, o programa ainda oferece, além do suporte financeiro, mentorias que conectam as organizações jornalísticas a especialistas de áreas diversas, como ciência da computação, gestão de negócios e direito.
“Essa abordagem interdisciplinar aproxima jornalistas, desenvolvedores e gestores e ajuda a garantir que cada ferramenta seja desenvolvida com solidez técnica e sustentabilidade organizacional”, explica Belda.
Para ampliar a circulação desse conhecimento, o Projor também mantém parcerias e diálogo com entidades do setor, entre elas a Associação de Jornalismo Digital (AJOR), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ).
A ampliação da proposta
Com o desenvolvimento das dez ferramentas em código aberto em prol do jornalismo profissional e do combate à desinformação, a coordenação do Codesinfo decidiu ampliar a capacitação de profissionais, para que não ficassem restritos às organizações jornalísticas com projetos aprovados e financiados. Para isso, o programa lançou uma série de hackathons, oficinas organizadas como maratonas de desenvolvimento de ferramentas digitais.
“Todos os hackathons têm sido muito bem recebidos pelos participantes. Primeiro, porque há de fato uma necessidade de desenvolver novas competências, incorporar novas ferramentas na prática profissional. E, com o uso da inteligência artificial, nós conseguimos reduzir o tempo, o processo de desenvolvimento de ferramentas, de modo que jornadas de desenvolvimento de software que até então duravam seis meses ou até mais de um ano, são compactadas para um fim de semana ou no máximo em poucas semanas”, afirma Belda.
Para isso, o trabalho começa semanas antes da maratona. Os participantes são convidados a pensar sobre as necessidades das redações em que trabalham e quais ferramentas podem ser úteis na rotina de produção noticiosa. Segundo o coordenador do Codesinfo, os projetos já chegam delineados. E, durante a rápida jornada de desenvolvimento, são definidas as ferramentas e os métodos a serem utilizados.
“Hoje temos a possibilidade de usar o chamado vibe coding, que envolve o uso de prompts em linguagem natural para instruir o sistema de inteligência artificial sobre o desenvolvimento do software. Depois da oficina, oferecemos mais duas semanas de interações assíncronas para aprimorar esse protótipo, a fim de que fique em condição de ser aproveitado”, diz o docente.
Até o momento foram realizadas três edições do hackathon nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, com a participação de até 30 jornalistas por maratona. A previsão é de que outras quatro sejam realizadas até o primeiro trimestre de 2027: três no Brasil, nas capitais Recife, Belém e Campo Grande; e uma na Universidade de São José, em Macau, na China. “O objetivo é dar à comunidade jornalística as ferramentas intelectuais necessárias para navegar nesse novo ambiente tecnológico e fazer com que as redações possam se atualizar”, esclarece Belda.
Segundo o docente, o conhecimento e a competência que são gerados por essa comunidade de prática se mostram mais importantes do que qualquer código ou solução criada. “Sabemos que um dos grandes desafios é justamente reter talentos nessas organizações. Sobretudo nas organizações independentes, sem fins lucrativos, organizadas em torno de coletivos e associações que também enfrentam dificuldades em seu próprio financiamento. A visão do Codesinfo não é apenas prover ferramenta, mas contribuir para a sustentabilidade do setor”, diz.
Matéria: Leire Bevilaqua | Jornal da Unesp.




