Uso excessivo de celular interfere na aprendizagem, no sono, na regulação emocional e no desenvolvimento cerebral de crianças e adolescentes
A pesquisadora Sabine Pompéia fala a respeito de como o acesso constante a smartphones e redes sociais prejudica o público infanto-juvenil
O uso do celular tornou-se parte indissociável da vida contemporânea, especialmente na vida de crianças e adolescentes, a ponto de alguns países elaborarem legislações limitando a sua presença em ambientes escolares. Ainda assim, esses dispositivos seguem presentes em outros contextos, como o trabalho, as relações afetivas e o lazer, agregando funções que vão da comunicação instantânea ao acesso a redes sociais e ferramentas de inteligência artificial. O uso constante do dispositivo e seus aplicativos afeta o desenvolvimento e a saúde do cérebro humano, especialmente na infância e na adolescência.
Sabine Pompéia, egressa do curso de ciências biológicas da Unesp e professora e pesquisadora da área de cognição humana no Departamento de Psicobiologia da Unifesp, atua nas áreas de atenção, impulsividade, aprendizagem e autorregulação na adolescência. A docente aponta o que a ciência já consegue afirmar sobre os efeitos do uso intensivo de smartphones e onde ainda há lacunas de conhecimento.
Embora pesquisas de longo prazo com controle experimental sejam difíceis de realizar, há evidências consistentes sobre o impacto da distração nos processos cognitivos. “Evidências temos muitas de que distrações são ruins durante o processo de aprendizado, para a memorização e também é ruim para a atenção”, afirma a especialista.
A afirmação da pesquisadora também dialoga com o cenário educacional brasileiro. Em janeiro de 2025, foi sancionada a Lei nº 15.100/2025, que proíbe o uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos portáteis por estudantes em escolas públicas e privadas durante aulas, recreios e intervalos, exceto em casos de necessidade pedagógica, acessibilidade ou emergência. A medida foi apresentada como estratégia para preservar a concentração e reduzir prejuízos ao processo de ensino e aprendizagem.
O sono é outro aspecto sensível. A estimulação social prolongada e a luminosidade das telas interferem em mecanismos biológicos fundamentais para o descanso. Sabine Pompéia destaca que dormir mal não é apenas um detalhe, mas um fator que afeta diretamente a saúde mental. “O impacto da falta de sono sobre a capacidade de regular nosso comportamento, as nossas emoções é muito grande. O sono é muito importante para a manutenção da saúde mental”, afirma a pesquisadora. Em cérebros ainda em desenvolvimento, acrescenta Sabine, essa desregulação pode intensificar quadros de ansiedade, irritabilidade e impulsividade.
A discussão avança para o impacto das inteligências artificiais no contexto educacional. Ferramentas capazes de produzir textos, responder perguntas e organizar informações modificam a rotina de estudo. Para Sabine Pompéia, o risco está na substituição do esforço cognitivo pelo uso automático dessas tecnologias. “Aprender conteúdos acadêmicos passa muito pelo exercício de você colocar e organizar suas ideias por escrito e isso está sendo completamente retirado”, reforça.
Outro aspecto abordado é a dificuldade crescente de lidar com o tédio. A oferta contínua de estímulos reduz a tolerância à espera e à frustração, além disso, manter a atenção em uma única atividade, mesmo quando ela não produz recompensa imediata, faz parte do desenvolvimento da autonomia e da capacidade criativa. “Viver o tédio é super importante, porque é no tédio que a gente tem ideias”, afirma a pesquisadora.
A adolescência ocupa um lugar central na análise de Sabine Pompéia por essa fase da vida reunir transformações sociais e biológicas profundas. A pesquisadora ressalta que se trata de um período de alta plasticidade cerebral, na qual experiências deixam marcas duradouras. “O que acontece na infância e na adolescência vai deixar marcas no cérebro para sempre, porque é nesta fase da vida que o cérebro está se moldando para ter as melhores chances de conseguir ter sucesso como adulto”, diz.
Segundo a docente, o cérebro em desenvolvimento responde às condições às quais é exposto, ajustando-se a elas. Situações marcadas por estresse intenso, violência ou desafios negativos, por exemplo, podem produzir efeitos que ultrapassam o momento imediato. “É mais complicado causar muito estresse nessa fase da vida, porque o cérebro vai entender que é assim que é a vida e vai fazer todas as adequações comportamentais para viver sob aquelas condições mesmo que, na idade adulta, elas melhorem”, conclui.
Matéria: Ísis Bianco | Jornal da Unesp.




