
Uma solenidade especial foi realizada na Escola Politécnica (Poli) na última terça-feira, 18 de agosto, para celebrar os 70 anos do Acordo de Cooperação Técnica firmado entre a USP e a Marinha do Brasil. O encontro destacou os resultados da colaboração e mostrou como a integração entre o conhecimento acadêmico e as demandas estratégicas das Forças Armadas tem contribuído para a segurança, o desenvolvimento socioeconômico e a autossuficiência científica e tecnológica do País. A cerimônia incluiu um painel de debates, o lançamento de uma coleção de livros e a inauguração de uma escultura comemorativa no campus.
Entre os resultados da parceria estão avanços de expressivo impacto tecnológico e social. No início da década de 1970, o trabalho conjunto viabilizou a criação do Patinho Feio, reconhecido como o primeiro computador brasileiro. Mais recentemente, o convênio reafirmou seu caráter de interesse público durante a emergência sanitária global provocada pela pandemia de covid-19. Na ocasião, equipes da Poli e do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) uniram esforços para desenvolver rapidamente o ventilador pulmonar Inspire, projeto que resultou na produção e distribuição gratuita de mil equipamentos de suporte respiratório para 219 cidades em 16 Estados do País.

A contribuição da parceria para a formação acadêmica e para o avanço do parque industrial brasileiro esteve entre os pontos destacados pelo reitor Aluísio Segurado. “Trata-se de um dos mais longevos e profícuos acordos de cooperação institucional da nossa Universidade e, certamente, de uma parceria potencializadora de ações concretas entre duas instituições altamente reconhecidas que se uniram por objetivos comuns em prol da nossa sociedade. Ao celebrarmos estes 70 anos, reafirmamos nosso compromisso de seguir avançando na parceria, trabalhando conjuntamente com vistas à inovação tecnológica, ao desenvolvimento do País e à formação de profissionais capazes de enfrentar desafios complexos, sempre com responsabilidade e excelência, contribuindo para a sustentabilidade, a segurança nacional e a soberania do Brasil”, afirmou.
O comandante da Marinha Marcos Sampaio Olsen enfatizou a visão de longo prazo proporcionada pela aproximação entre as instituições e sua contribuição para o atendimento de interesses públicos abrangentes. “A visão de futuro das instituições estabelece uma força com alto grau de suficiência tecnológica. Nesse aspecto, a cooperação técnica exerce um papel central. Celebrar sete décadas constitui ocasião para reverenciar essa trajetória edificada sobre sólidos fundamentos: confiança recíproca, excelência na produção de conhecimento convertido em realizações tangíveis e compromisso perene com os interesses nacionais”, afirmou. Para o dirigente, as tecnologias emergentes exigirão ainda mais colaboração com a academia e a indústria para continuar “transformando conhecimento em capacidade, ciência em desenvolvimento e tecnologia em soberania”.
Histórico e autonomia tecnológica
A origem do acordo remonta à década de 1950 e está relacionada a uma decisão pioneira da Marinha. A diretora do Centro de Coordenação de Estudos da Marinha em São Paulo (CCEMSP), Fernanda Leal Benet, explicou o contexto que levou à adoção desse modelo. “Em vez de criar uma instituição própria de ensino, como haviam feito o Exército e a Aeronáutica, a Marinha adotou uma solução inovadora ao estabelecer uma parceria com uma escola de engenharia já consolidada e integrante de uma universidade pública. Essa decisão refletiu uma visão avançada sobre a importância da integração entre formação acadêmica, pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico”, detalhou. Esse movimento tornou-se um marco nacional e contribuiu, por exemplo, para a formação dos primeiros engenheiros nucleares militares com graduação integral no País.
Principais marcos do trabalho conjunto entre USP e Marinha do Brasil
1956
Assinatura do convênio
Marinha do Brasil e USP firmam convênio, criando o primeiro curso de Engenharia Naval do País.
1959
1ª turma de engenheiros navais
Formação dos primeiros engenheiros navais graduados no Brasil pelo convênio Marinha-USP.
1967
Convênio com o IPT
Marinha e IPT firmam parceria para utilização do Tanque de Provas nas atividades de ensino e pesquisa da Engenharia Naval da USP.
1974
Projeto do computador G-10
Desenvolvido pela Poli, o G-10 foi utilizado em sistemas de navegação e deu origem ao primeiro computador comercial brasileiro.
1979
Início do PNM
São Paulo é escolhida como sede do Programa Nuclear da Marinha, fortalecendo a integração com universidades e centros de pesquisa.
1982
Convênio Marinha-IPEN
Marinha e IPEN iniciam cooperação para pesquisas relacionadas ao ciclo do combustível nuclear.
1988
Reator IPEN/Marinha-01
Entra em operação o primeiro reator nuclear de pesquisa totalmente desenvolvido no Brasil.
1995
CTMSP e CCEMSP
Reestruturação das organizações da Marinha em São Paulo amplia a integração com universidades, centros de pesquisa e indústria.
2010
Unidades de navegação inercial
Parceria entre CTMSP e USP impulsiona a nacionalização de tecnologias estratégicas de navegação e guiagem de mísseis.
2012
Curso em Engenharia Nuclear
USP, Marinha e IPEN iniciam a estruturação do curso de Engenharia Nuclear da Escola Politécnica.
2020
Projeto Inspire
USP e Marinha unem esforços para produzir respiradores pulmonares durante a pandemia de Covid-19.
2021
1ª turma de Engenharia Nuclear
Os primeiros alunos seguem formação especializada, com atividades práticas apoiadas pela infraestrutura da Marinha.
2026
Plataforma Integrada de Pesquisa Nuclear
Nova estrutura reúne USP e Marinha para projetos avançados em pesquisa, desenvolvimento e inovação na área nuclear.
Os efeitos dessa decisão sobre o ensino e a geração de inovações foram pontuados pelo vice-diretor da Escola Politécnica (Poli), Gilberto Francisco Martha de Souza. “O curso de Engenharia Naval se atualizou e passou a abordar tópicos fundamentais para o projeto, construção e operação de sistemas offshore. Com a formação de engenheiros navais, ao longo dos anos houve uma substituição gradual de professores de instituições estrangeiras por profissionais formados na USP”, relatou. Souza também dimensionou o alcance da pós-graduação estruturada por meio do convênio, lembrando que o programa “já formou 412 mestres e 145 doutores, contribuindo significativamente para o desenvolvimento tecnológico de grande impacto para a indústria nacional”.
Inovação e memória
Especialistas e autoridades participaram do painel A Inovação em Ambientes Complexos: o foco na liderança e no processo de tomada de decisão. O debate abordou a necessidade de adaptação de instituições com estruturas hierarquizadas diante das rápidas mudanças globais e do avanço de tecnologias disruptivas. As discussões apontaram que a capacidade de inovar transcende a aquisição de tecnologia: exige o desenvolvimento de uma cultura organizacional baseada no aprendizado contínuo, a descentralização dos processos decisórios pautados em evidências e a preparação de recursos humanos para a colaboração sistemática, sem perder a disciplina e a eficiência institucional. A mesa foi moderada pelo coordenador do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint) do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, Alberto Pfeifer, e contou com a participação do coordenador do Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas da Poli, Marcelo Knörich Zuffo, do diretor do InovaUSP, Antonio Carlos Marques, e do diretor da Escola de Guerra Naval, José Cláudio Oliveira Macedo.
Matéria: Michel Sitnik | Jornal da USP.





