USP participa de estudo internacional que investiga doença genética subdiagnosticada no Brasil
A pesquisa reúne mais de 5 mil pacientes de 17 países para identificar fatores genéticos que influenciam a evolução da doença

A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP integra um estudo internacional que investiga a amiloidose hereditária por transtirretina (ATTRv), doença genética que provoca o depósito de uma proteína anormal em diferentes órgãos do corpo, principalmente nervos e coração. Embora existam tratamentos capazes de retardar sua progressão, a doença ainda é subdiagnosticada no Brasil.
O objetivo dos pesquisadores é compreender por que pacientes com a mesma mutação genética apresentam evolução e gravidade tão diferentes. A pesquisa reúne dados clínicos e genéticos de mais de 5 mil pacientes atendidos em 46 hospitais de 17 países, sob coordenação da University College London (UCL), no Reino Unido, com participação da USP nas análises dos pacientes brasileiros. À frente dessa participação está o médico neurologista e doutorando da FMRP Gustavo Maximiano Alves, responsável pela genotipagem dos pacientes brasileiros e integrante da equipe que realiza as análises genéticas e de bioinformática em Londres.
O trabalho desenvolvido no projeto rendeu ao pesquisador dois fellowships internacionais, programas de bolsas para pesquisadores, concedidos pela Peripheral Nerve Society (PNS), realizado em 2025, e pela International Society of Amyloidosis (ISA), que terá início nos próximos meses, além de uma bolsa do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE/Capes).
Os financiamentos permitem que parte da pesquisa seja realizada no Institute of Neurology Queen Square, da University College London. “Essas conquistas representam uma grande oportunidade para incrementar minha pesquisa com colaboração internacional. Além do networking, estou aprendendo novas técnicas genômicas e de bioinformática que ainda não estão disponíveis no Brasil, e isso trará um impacto maior para nossos achados”, afirma.
Orientado pelo professor Wilson Marques Júnior e com coorientação internacional do professor Andrea Cortese, da UCL, Gustavo investiga os chamados modificadores genéticos da amiloidose hereditária por transtirretina. A pesquisa procura identificar quais variantes do DNA influenciam a manifestação da doença e explicam por que pacientes com a mesma mutação apresentam sintomas, velocidade de progressão e resposta ao tratamento tão diferentes.
As diferenças na evolução da doença
A amiloidose por transtirretina é causada por mutações no gene responsável pela produção da proteína transtirretina, responsável pelo transporte de hormônios da tireoide e vitamina A. Alterada, essa proteína passa a se depositar em diferentes órgãos, principalmente nervos, coração, rins e olhos, provocando sintomas como perda de sensibilidade nas mãos e nos pés, tontura, distúrbios gastrointestinais, insuficiência cardíaca e comprometimento renal e visual. Sem tratamento, a doença pode levar o paciente à morte em cerca de dez anos após o início dos sintomas.
Embora seja uma doença genética, sua manifestação varia muito entre os pacientes. “Queremos destrinchar a complexidade genômica. Nossa pesquisa busca entender quais fatores genéticos influenciam a mutação que causa a doença e fazem com que os sintomas sejam tão diferentes. Esses modificadores também podem explicar por que a doença progride rapidamente em algumas pessoas ou por que determinados pacientes não respondem ao tratamento”, explica Gustavo.
Segundo ele, essa compreensão poderá abrir caminho para uma medicina mais personalizada. “Nosso objetivo é aperfeiçoar o tratamento e o manejo dos pacientes com amiloidose, contribuindo para novos marcadores de medicina personalizada, capazes de orientar desde o momento ideal para solicitar o teste genético até a escolha do tratamento mais adequado para cada paciente”, afirma.
Brasil reúne condições únicas para a pesquisa
A doença foi descrita inicialmente em Portugal e, devido à forte herança genética portuguesa e também africana presente na população brasileira, o País tornou-se uma das regiões de maior interesse para esse tipo de investigação. “Estimamos que milhares de pessoas no Brasil sejam portadoras dessas mutações genéticas, mas ainda há grande desconhecimento sobre a doença, tanto entre a população quanto entre profissionais de saúde. Como o diagnóstico depende de testes genéticos específicos, que não estão disponíveis em todos os locais, acreditamos que ela seja subdiagnosticada”, explica.
Atualmente, estima-se que existam mais de 20 mil pessoas com a doença em todo o mundo. No Brasil, ainda não há dados precisos de prevalência, mas levantamentos do grupo da FMRP indicam mais de mil pacientes já diagnosticados e sugerem que muitos outros permanecem sem diagnóstico, especialmente na Bahia, São Paulo e no Rio de Janeiro.
Hoje, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o medicamento tafamidis, utilizado no ambulatório do Centro Multidisciplinar de Amiloidose do Hospital das Clínicas da FMRP. Em outros países, como o Reino Unido, já estão disponíveis terapias gênicas capazes de reduzir em cerca de 80% a produção da proteína alterada, interrompendo a progressão da doença.
Colaboração internacional

A pesquisa integra uma das maiores coortes internacionais sobre amiloidose hereditária, coordenada pelo neurologista Andrea Cortese, da University College London (UCL). O Brasil é o quarto país com maior número de pacientes incluídos no estudo, e Gustavo responde pela genotipagem das amostras brasileiras e pelas análises genéticas realizadas em Londres.
Segundo o pesquisador, a contribuição da USP vai além do envio de dados clínicos. “A participação do grupo brasileiro da USP Ribeirão Preto é essencial, tanto no fornecimento dos dados médicos quanto na análise dos resultados. Também estamos utilizando esses dados para compreender a origem genética das variantes, seus impactos em diferentes etnias e sua distribuição pelo mundo.”
O período na UCL também inclui treinamento em terapias gênicas e no uso de tecnologias de sequenciamento e bioinformática ainda não disponíveis no Brasil, experiência que deverá fortalecer futuras pesquisas conduzidas na FMRP.
Reconhecimento
Os dois fellowship foram concedidos pelas principais sociedades científicas dedicadas às doenças do nervo periférico e à amiloidose. Os processos seletivos são internacionais e altamente competitivos.
No fellowship da Peripheral Nerve Society foram concedidas apenas duas bolsas em todo o mundo. Já a International Society of Amyloidosis selecionou quatro pesquisadores entre candidatos internacionais de diversas especialidades médicas. “Receber essas bolsas representa tanto uma ratificação da qualidade do nosso trabalho quanto uma oportunidade de ampliar seu impacto e alcance para todo o mundo”, conclui o pesquisador.
Fonte: Jornal da USP.




