
A Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP desenvolveu um roteiro de treinamento e materiais educativos gratuitos para a prevenção do suicídio em idosos. O roteiro utiliza situações encenadas para preparar estudantes e profissionais de saúde a reconhecer sinais de comportamento suicida em idosos que vivem em instituições de longa permanência. Os conteúdos também orientam cuidadores e serviços de saúde e estão disponíveis no site do laboratório neste link e no perfil do Instagram.
Entre os materiais está o folder Prevenção do suicídio na população idosa: dicas gerais para a promoção da saúde mental. Já o roteiro propõe uma atividade prática em que os participantes exercitam a escuta, a identificação de sinais de sofrimento emocional e a construção de um plano de cuidados com o idoso. A intenção das autoras é que a estrutura pedagógica possa ser adotada por faculdades, escolas técnicas e instituições de saúde de todo o País. Para conferir o roteiro, clique aqui.
O trabalho foi desenvolvido no mestrado da enfermeira Maria Isabella Alves Paterna, com orientação da professora Kelly Graziani Giacchero Vedana, no Laboratório de Estudos e Pesquisa em Prevenção e Posvenção do Suicídio (LEPS) da EERP. A atividade de simulação contou com 99 participantes. Após o treinamento, a equipe registrou níveis elevados de satisfação e autoconfiança, além de maior sensibilidade, escuta qualificada e capacidade de reconhecer práticas preventivas.
Atenção ao sofrimento emocional
A escassez de treinamentos específicos para profissionais que atuam em instituições de longa permanência motivou a elaboração da proposta, segundo as autoras. “Nesses ambientes, o afastamento da rotina familiar, a perda da privacidade e a adaptação a um novo local podem desencadear sentimentos de solidão e inutilidade”, afirmam.
Maria Isabella explica que o comportamento suicida em idosos é multifatorial. Entre os fatores envolvidos estão a perda progressiva da autonomia e da mobilidade, a convivência com dores crônicas, quadros depressivos e o acúmulo de perdas sociais e familiares.
Frases como “não tenho mais razão para viver”, “seria melhor se eu não estivesse aqui” ou “já vivi o bastante” são frequentemente encaradas por familiares, cuidadores e equipes de saúde como desânimo, queixas banais ou consequências do envelhecimento. São, contudo, sinais de sofrimento emocional que exigem atenção e acolhimento.
Para Kelly Vedana, a capacitação busca mudar o olhar sobre esse público. A professora pondera que as instituições de longa permanência cumprem um papel importante na proteção física do idoso, mas ressalta que o cuidado precisa ir além das necessidades biológicas, preservando a história, a autonomia e os vínculos afetivos de cada residente.
Um cenário para exercitar o cuidado
Para aproximar a formação da realidade dos serviços de saúde, a equipe criou um cenário simulado nos laboratórios da EERP. Um ator capacitado, com maquiagem e recursos de caracterização para representar o envelhecimento, interpretou o “Sr. Humberto”, um idoso de 78 anos que residia havia dois anos em uma instituição de longa permanência.
Durante a cena, o personagem apresentava sinais comportamentais e verbais progressivos: isolamento, baixa autoestima, recusa em participar de atividades coletivas, sensação de inutilidade e falas de desesperança e pensamentos de morte.
Os participantes deveriam realizar uma abordagem acolhedora, investigar de forma clara e aberta se havia planejamento suicida e construir, em conjunto com o idoso, um plano de cuidados voltado ao fortalecimento de seus fatores de proteção.
A cena também apresentava uma mudança na resposta do personagem: quando escutado com empatia, ele demonstrava o desejo de aprender algo novo, como usar o celular para voltar a se comunicar com a família.
Conversa aberta e reflexão sobre a prática
Além de exercitar a escuta, a capacitação abordou o receio de que perguntar sobre suicídio possa induzir ou “dar a ideia” ao paciente. Segundo as autoras, conversar sobre o tema abertamente e sem julgamentos é fundamental para avaliar o nível de risco, organizar a rede de apoio e garantir a proteção necessária.
Após o encerramento da cena, os participantes passaram por uma etapa de reflexão, conhecida como debriefing. Conduzida em um ambiente seguro, sem atribuição de notas ou avaliações punitivas, a conversa permitiu analisar reações emocionais, receios e atitudes diante de uma situação de crise.
Kelly destaca que a metodologia traz ganhos também para a saúde emocional das equipes, que frequentemente enfrentam o desgaste de lidar com situações de alto risco sem o preparo adequado.
Com a disponibilização do roteiro e dos materiais educativos, as autoras pretendem ampliar o acesso à proposta de formação e às orientações sobre saúde mental na velhice.
Para conferir o roteiro de treinamento de prevenção do suicídio em idosos, clique aqui. Para ver mais materiais educativos acesse o site do laboratório neste link e o perfil do Instagram.
Matéria: Yasmin Prado | Jornal da USP.




