Butantan entrega 1,8 milhão de doses de vacina anti-VSR ao SUS
A VCR, doença respiratória causada por vírus, afeta principalmente bebês com menos de 1 ano

O Instituto Butantan completou a entrega de vacinas contra a bronquiolite para gestantes ao Ministério da Saúde. Cerca de 1,8 milhão de doses para combater o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) foram enviadas ao Programa Nacional de Imunizações para serem distribuídas no Sistema Único de Saúde (SUS).
O VSR é o principal agente causador da bronquiolite – que também pode ser causada pelo adenovírus, rinovírus e influenza -, uma infecção que lota as UTIs pediátricas todos os anos, especialmente no inverno, causando inflamação e acúmulo de muco nos bronquíolos, o que dificulta a respiração e provoca chiados. A bronquiolite afeta os bronquíolos (ramificações menores), mas é comumente confundida com a bronquite, que atinge os brônquios (ramificações maiores), além de poder ser viral, bacteriana ou crônica e afetar qualquer idade.
Luiz Vicente Silva Filho, professor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina (FM) da USP, comenta as principais causas e características da doença. “O VSR é extremamente comum no mundo, já conhecido há várias décadas e um importante causador de doença respiratória na população, principalmente em crianças pequenas. É um vírus do tipo RNA e da família Paramyxoviridae e contra o qual, até pouco tempo atrás, não tínhamos grandes estratégias de imunização, mas grandes avanços foram conquistados com o surgimento das vacinas e também com um anticorpo monoclonal mais moderno, chamado nirsevimabe.”
“O Vírus Sincicial Respiratório causa doenças da via aérea inferior e a mais conhecida delas é a bronquiolite viral aguda, que é uma espécie de infecção respiratória, como se fosse uma gripe ou resfriado, mas que acomete os pulmões. Nos bebês pequenos, especialmente abaixo de um ano de idade, isso pode causar dificuldade respiratória, tosse, chiado, necessidade de hospitalização e até mesmo morte por conta dessa infecção. O VSR é tradicionalmente um dos líderes como causa de mortalidade infantil em todo o mundo, por conta da sua ocorrência muito precoce na vida e da alta susceptibilidade das crianças desde pequenas”, adiciona o especialista.
Atuação da vacina
Silva afirma que, para o desenvolvimento de uma vacina, foi necessário adquirir o conhecimento das proteínas do vírus causador da bronquiolite. “Essas proteínas são conhecidas há muito tempo, mas só recentemente se descobriu que a proteína de fusão, que é uma mediadora da entrada do vírus na célula humana, tinha mais de uma conformação, e o conhecimento dessa conformação antes da ligação do vírus às células, chamada de pré-F; essa proteína de fusão é a proteína F. O conhecimento da pré-F foi o grande avanço para a geração de estratégias de prevenção.”
Tanto a vacina, que é administrada para gestante e que tem que ser dada pelo menos duas semanas antes do nascimento do bebê, quanto o anticorpo monoclonal, que pode ser aplicado depois do nascimento e dura cinco meses após sua aplicação como proteção para a ocorrência de infecções mais sérias, envolvem a ligação com essa proteína pré-F. “Essa ligação dos anticorpos com a proteína pré-F vai impedir a entrada do vírus e a ocorrência de infecções mais graves pelo VSR.”
“A estratégia adotada pelo SUS foi a incorporação da vacina para gestante. Essa é uma vacina bivalente, sendo para o vírus sincicial A e B, que contém fragmentos da pré-F para gerar a formação de anticorpos no indivíduo vacinado, e, no caso da gestante, para que ela possa transferir esses anticorpos produzidos com aplicação para o feto, que quando nascer, terá altos títulos desses anticorpos para protegê-lo durante alguns meses da ocorrência de infecções graves pelo VSR.”
Além disso, o Brasil também decidiu por incorporar o nirsevimabe, com uma ideia do uso para os bebês que nasceram prematuramente, nos casos em que a mãe não recebeu a vacina em tempo hábil para produzir anticorpos e proteger o seu bebê. Dessa forma, o anticorpo monoclonal será aplicado em prematuros e em outras crianças que possuem doenças crônicas e graves que têm o risco aumentado com a doença, afirma o médico.
Expectativas da vacinação
Por fim, Silva comenta o que se pode esperar da chegada das vacinas no SUS. “A chegada dessas vacinas é extremamente importante; mesmo nos dias atuais, com todos os recursos da medicina em termos de UTIs pediátricas, ventilação mecânica, o VSR ainda causa um grande número de mortes no Brasil. Ambas as estratégias de vacinação mencionadas devem reduzir drasticamente, como já foi visto em outros países, a ocorrência de infecções graves e mortes por bronquiolite.”



