VAR trouxe maior tempo de jogo e menos impedimentos no futebol
Estudo da mostra que o VAR, o árbitro de vídeo, alterou a dinâmica do tempo em campo, mas manteve estável o número de gols e cartões

Pesquisadores da USP, em parceria com instituições nacionais e internacionais, buscaram entender quais mudanças o árbitro assistente de vídeo (VAR) trouxe para o futebol brasileiro. A pesquisa foi liderada pelo professor Bruno Bedo, da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, com colaboração de universidades no Peru, Espírito Santo e Paraná, e comparou estatísticas de mais de 3.400 partidas da Série A do Campeonato Brasileiro entre 2015 e 2023, antes e depois da adoção do árbitro de vídeo.
Os resultados confirmam uma tendência observada em outras grandes ligas: a tecnologia aumentou a duração das partidas. Ao mesmo tempo, mostrou que o futebol brasileiro manteve suas características culturais, já que cartões, pênaltis e gols não tiveram mudanças significativas. As conclusões do trabalho estão em artigo publicado no International Journal of Sports Science & Coaching.
O sistema de árbitro assistente de vídeo (VAR) revolucionou a forma de arbitrar no futebol nos últimos anos. Criado para reduzir os erros em lances decisivos, o recurso passou a interferir diretamente na dinâmica das partidas, gerando debates entre torcedores, atletas e dirigentes. Se por um lado a tecnologia aumentou a precisão na tomada de decisão, por outro trouxe questionamentos sobre o ritmo do jogo e a experiência em campo.

No Brasil, a tecnologia do VAR foi usada pela primeira vez em 2017, na final do Campeonato Pernambucano. Desde então, o uso da tecnologia foi implementado gradualmente, com experimentações em competições estaduais e sendo progressivamente incorporado às principais ligas do País. O VAR passou a ser utilizado no Campeonato Brasileiro da Série A em 2019.
O levantamento para o estudo incluiu 3.420 jogos da Série A, de 2015 a 2023, dos quais 1.520 ocorreram sem VAR (2015-2018) e 1.900 já com a tecnologia em operação (2019-2023). As variáveis analisadas abrangeram gols, impedimentos, pênaltis, cartões, faltas e tempo de jogo em cada um dos dois tempos regulares de partida. Após a coleta inicial via API (Interface de Programação de Aplicações), os dados foram cruzados com súmulas oficiais para evitar duplicações e garantir confiabilidade.
Mudanças sutis e consistentes
Para analisar os resultados, os pesquisadores aplicaram modelos lineares generalizados e testes estatísticos de comparação entre temporadas, eliminando discrepâncias e ajustando distribuições que apresentavam dispersão. O trabalho usou dados obtidos via API e resumos oficiais dos jogos, aplicando modelos estatísticos para medir os impactos. A intensidade das diferenças foi medida pelo efeito de Cohen, categorizando-as entre insignificantes e muito grandes.
Essa metodologia possibilitou identificar mudanças sutis, mas consistentes, ligadas à adoção do VAR. Além disso, os autores reforçam que o período coincide com transformações táticas e físicas no futebol mundial, o que também precisa ser levado em conta. Outro ponto de destaque é que os achados deste estudo, quando comparados a outras ligas, como Bundesliga (Alemanha), Serie A (Itália), Premier League (Inglaterra) e La Liga (Espanha), parecem seguir padrões similares. Assim, a análise reforça que o Brasil segue tendências globais, mas ainda mantém especificidades de estilo de jogo e disciplina em campo.
Os principais achados mostram que o VAR reduziu os impedimentos (a média caiu de 3,2 para 2,8 por jogo) e aumentou o tempo jogado em ambos os tempos regulares, elevando a duração total das partidas em mais de dois minutos. Esse efeito foi classificado como “muito grande” estatisticamente. Já variáveis como cartões amarelos e vermelhos, faltas, pênaltis e gols permaneceram praticamente estáveis, sugerindo que o VAR não alterou a conduta dos atletas nem o padrão de arbitragem nesses aspectos. Isso confirma que a tecnologia funciona como corretivo de decisões específicas, sem impactar o fluxo disciplinar ou ofensivo do jogo.
O estudo também chama a atenção para limitações: não analisou o “tempo efetivo de bola rolando”, apenas a duração cronometrada, o que abre espaço para pesquisas futuras verificarem se o VAR fragmenta ou não a experiência de jogo. Outro fator foi a coincidência dos primeiros anos do VAR com a pandemia de covid-19, quando estádios sem torcidas poderiam alterar as dinâmicas de arbitragem e comportamento em campo.
Apesar dessas restrições, os pesquisadores destacam a relevância do estudo: ao mapear estatísticas em longo prazo, fica evidente que a tecnologia cumpre seu papel de dar mais precisão às decisões sem transformar radicalmente o futebol. A análise sugere, ainda, que diferenças culturais entre ligas ajudam a explicar variações encontradas em estudos internacionais.
O artigo intitulado Effect of video assistant referee (VAR) system on match statistics: A nine-year retrospective analysis of the Brazilian national league, com autoria de Bruno L. S. Bedo, Ronaldo D. Assis, Arthur Alves, Luiz H. Palucci Vieira, Rodrigo Aquino e Felipe A. Moura, foi publicado pelo International Journal of Sports Science & Coaching e está disponível na íntegra clicando neste link.
Matéria: Guilherme Ike / Jornal da USP.



