O véio lambeu o chão com a testa
Crônica real de uma história verdadeira.
Entro no ônibus bufando, com sacolas cheias, graças a Deus, trazidas do supermercado. Sento no meio do ônibus, o assento é virado em posição que é possível ver os outros passageiros tanto à direita quanto à esquerda.
Uma mulher, a quem chamo de senhora por uma questão de princípios, daquelas misturadas de italiano com caboclo, um tanto adiposa (não pode falar “gorda”, hoje em dia), vestida com um short curto de lycra, abre as pernas no banco feito para duas pessoas e vomita:
- P*** que p***u, esse motorista sai bem na hora marcada, nem um minuto antes. Eu quereno chegar antes em casa, cac***...
Você e a torcida do XV, minha senhora.
O motorista Campeão, assim conhecido porque chama todos os homens assim, para as mulheres não inventou ainda nada similar, sobe ao seu lugar, brinca com todos, incluindo a senhora, que vai se sentar mais perto dele. Minutos depois de tê-lo xingado.
Depois de iniciado o trajeto em direção à minha casa – e também à casa das pessoas, olha só - sobe o passageiro no primeiro ponto depois do terminal urbano, onde embarquei. Esse senhor, todos os dias, faz o seu passeio matinal no transporte urbano. Entre um terminal e outro. Depois volta. Ele tem mais de 65 anos, tem gratuidade da tarifa por isso, e aproveita. Justo.
Sobe esbaforido no ônibus. O campeão o saúda:
-Eita, atrasou hoje?
-Perdi hora.
-Com cinco relógios, perdeu hora?
Risada geral no ônibus. O passageiro, que todos conhecem, vem meticulosamente arrumado todos os dias com um chapéu de boiadeiro, um lenço no pescoço (que hoje não apareceu, talvez por causa do calor), uma camisa semi social com mangas curtas e golas grandes, que já estava fora de moda em 1970, cor de terra, aberta no peito, mostrando todos os pelos brancos, uma penca de colares e correntes com elos quadrados, redondos e o que mais você imaginar – dourados, prateados, cobreados, coloridos. No braço esquerdo, três relógios de pulso, no braço direito, dois. Uns dois relógios com pulseira de couro, ou de imitação, outros com pulseiras de plástico estilo década de 80, outros de metal, ou de imitação.
Para completar o visual, calça marrom vagamente jeans, mocassim bege e meia preta. Ah, eu disse que ele não é branco, e sim vermelho? Sim, completamente vermelho, com pintas marrons na cara.
A senhora grunhe alguma coisa. O Campeão brinca:
-Pergunte pra ele qual foi o café da manhã dele, hoje.
Ela se vira e pergunta:
-O que ocê tomô de café hoje, véio?
Ele responde:
-Cinquenta e um...
-O que? Na hora que acorda, já desce uma?
-Na hora que acorda, na hora que sai de casa, na hora de vortá, de tarde...
Risadaria de novo. Ele emenda:
-Mai hoje eu comi mamão... ôtro dia eu catei uns mamão no mato, ali perto de casa, mamão verde...
Ela se entusiasma:
-Mai ocê sabe fazê doce co mamão verde?
-Eu não sabia... mai aprendi.
-Cê num sabe? Mai como ocê fez?
-Eu peguei receita na internet...
Ela desdenha:
-Intão ocê num sabe... pegô na internet! Bá! Eu sei fazê doce de mamão verde, tem que ralá, e...
-Eu peguei a receita na internet e deu certo...
-Internet é tudo bobage!
Silêncio. Ela vai por outro carreiro de boi, como dizemos por aqui:
-Qui qui é esse machucado na testa?
-Que?
Eu nem tinha notado. Do ângulo que eu estava, não dava para ver. O campeão responde, enquanto vira o volante para fazer a curva:
-Ele lambeu o chão com a testa...
Ela comenta:
-Cê bateu co a testa no chão, véio?
-Eu caí...
Ela ri antes do que vai falar. E fala:
-Mai foi antes ou dispoi da cinquenta e um?
E ele:
-Foi durante...
Não ouvi o resto, tive de descer no meu ponto.



