
A velocidade está presente em diferentes modalidades esportivas, como atletismo, natação, surfe e esportes motorizados. Sua importância para a performance dos atletas é evidente, mas e se ela fosse pensada como uma categoria estética do esporte? Pesquisadoras da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP e da Universidade do Porto, em Portugal, investigaram como a velocidade pode ser apreciada a partir da forma como o movimento é realizado e percebido no esporte.
O estudo evidenciou que a apreciação da velocidade não depende apenas de tempos e classificações, mas também de aspectos como técnica, ritmo, equilíbrio, equipamentos e ambiente, além da forma como o tempo é apresentado, por exemplo, por meio do uso de câmera lenta em transmissões esportivas. Os resultados da pesquisa são descritos em artigo publicado no Journal of the Philosophy of Sport.
Durante a pesquisa, as professoras Teresa Oliveira Lacerda e Maria Luísa Ávila da Costa, da Universidade do Porto, e Soraia Chung Saura e Ana Cristina Zimmermann, da EEFE, realizaram uma análise teórica e aplicaram um questionário a 28 estudantes de Ciências do Esporte da Faculdade de Educação Física da Universidade do Porto (Fadeup). O valor estético do esporte está relacionado à forma como o corpo se adapta às exigências de cada modalidade. Esse processo envolve tanto as capacidades motoras, ligadas à aptidão física, quanto as habilidades motoras, relacionadas à técnica. A combinação entre elas influencia a maneira como o desempenho dos atletas é apreendido. Força, ritmo e equilíbrio, por exemplo, podem ganhar uma dimensão estética quando aparecem em movimentos tecnicamente bem executados.
Segundo as pesquisadoras, a estética do esporte investiga mobilizações e engajamentos promovidos no e pelo esporte, tanto entre praticantes quanto entre assistências. Evidentemente o engajamento, a paixão e a vibração no esporte são promovidos por categorias e deleites estéticos. De modo que, muito embora não possamos estabelecer uma relação direta entre a estética e o desempenho esportivo, sabemos que a estética se relaciona com o desempenho, gerando esforços de superação, motivações intrínsecas, e o desejo sempre presente de ganhar de forma correta e bonita. A estética atua também na dimensão sonhadora: a beleza esportiva enseja vontades de realizações e propulsiona os sonhos de atletas e praticantes. Nos inspiramos nas formas do esporte de alto rendimento para realizar nossas práticas corporais cotidianas.
Equipamentos e ambiente
A velocidade no esporte também depende da relação entre atleta e equipamento, destaca a pesquisa. Tênis e outros recursos tecnológicos podem contribuir para o desempenho, enquanto bicicletas, patins e esquis podem funcionar como uma extensão do corpo, integrando capacidade motora e técnica. Nos esportes motorizados, a velocidade depende do desempenho do veículo e da habilidade do atleta para conduzi-lo com precisão. Como resumiu Ayrton Senna, “o carro é parte de você, o carro é uma extensão do seu corpo”. Em modalidades esportivas como o surfe, fatores naturais também participam da construção da velocidade. A altura das ondas e a força dos ventos, por exemplo, influenciam o movimento e exigem diferentes ajustes técnicos. Nesses casos, o desempenho resulta da interação entre atleta e ambiente, criando uma relação que também pode contribuir para a dimensão estética do esporte.
A velocidade também pode ser apreciada pela forma como o tempo é apresentado. Em transmissões esportivas, a câmera lenta permite observar detalhes que passam despercebidos em tempo real, como a técnica, a precisão e a coordenação dos gestos. O replay, ao desacelerar a ação, amplia a percepção sobre a realização de movimentos rápidos. Nesse sentido, a câmera lenta não funciona apenas como uma repetição da jogada, mas como uma nova maneira de apreciá-la. A pausa cria um contraste com a velocidade e permite perceber diferentes momentos do movimento, como aceleração, suspensão e fluidez.
Na patinação, por exemplo, essa relação aparece na transição entre movimentos rápidos e momentos de maior controle. De acordo com a pesquisa, ao revelar detalhes que não são percebidos durante a execução normal, a câmera lenta permite compreender melhor o movimento e abre espaço para o pensamento e a reflexão sobre o desempenho dos atletas. A lentidão, assim, pode ampliar a experiência estética e transformar a maneira como o esporte é apreciado.
O estudo conclui que a estética pode influenciar a forma como o público se relaciona com determinado esporte e contribuir para a sua popularização. Elementos estéticos são almejados em todas as modalidades esportivas, cada qual com suas qualidades intrínsecas. Esses elementos geram espanto, empatia, reconhecimento, aproximação, maravilhamento. O contrário também é verdadeiro. Uma modalidade esportiva torna-se popular na medida em que seus elementos estetizantes dialogam com uma gama ampla e diversificada de público. O artigo Aesthetic reading of speed in contemporary sports está disponível no Journal of the Philosophy of Sport e pode ser acessado neste link.
Fonte: Jornal da USP.



